Muito antes de entrar na vida pública, Marielle Franco, vereadora do PSOL assassinada no dia 14, já enxergava na educação uma ferramenta contra a desigualdade social. Por onde passou como aluna, tentou fortalecer a ponte entre a universidade e a comunidade. O boletim da Adufrj reconstituiu parte de sua trajetória acadêmica por meio dos depoimentos de três professores. Aluna de um pré-vestibular na Maré, Marielle fez Ciências Sociais na PUC e mestrado na UFF. No meio do caminho, passou pelo Instituto de Economia da UFRJ para uma especialização em Responsabilidade Social e Terceiro Setor, em 2009, onde teve aulas com a presidente da Adufrj, Maria Lúcia Werneck. “Ela tinha um a postura muito participativa. Chamou atenção a qualidade do trabalho final. Muita gente nem entrega”, lembra Maria Lúcia. No mestrado, Marielle pretendia dar continuidade à monografia de especialização, sobre milícias. Mas as UPPs atraíram o foco. A dissertação “UPP: a redução da favela a três letras” usa o conceito de Estado Penal e defende que a política de segurança atuou para fazer uma “limpeza” do Rio para os Jogos Olímpicos e a Copa, explica a orientadora de Marielle no mestrado em Administração da UFF, Joana Ferraz. Para a orientadora, a marca do trabalho é pensar teórica e criticamente a violência nas favelas. “Ela entendia educação como arma contra as desigualdades sociais, uma ferramenta de luta”, avalia. INTERESSE POR MOVIMENTOS SOCIAIS Marielle fez o pré-vestibular comunitá- rio do Centro de Estudos e Ações Solidá- rias da Maré (Ceasm) em 1999. À época, Eliana Sousa e Silva, uma das fundadoras do pré e da ONG Redes da Maré, referência em trabalho social, ensinava redação. “Marielle era curiosa, interessada nas questões coletivas”, recorda Eliana, que viu ali uma opção latente pelas Ciências Sociais. “Oferecíamos atividades e vivências com movimentos sociais. Ela participava sempre”. Servidora aposentada da UFRJ, Eliana conta que o pré-vestibular do Sintufrj, nos anos 1980, inspirou o projeto do Ceasm. “Apenas 0,5% dos moradores da Maré chegava à universidade. Muita gente da UFRJ se engajou. Queríamos mudança real para as pessoas”. Antes do Prouni, a PUC oferecia bolsas a alunos de baixa renda. Lá o professor Ricardo Ismael, diretor do curso de Ciências Sociais, conviveu com Marielle por dois anos. “Ela veio para o meu grupo de estudo sobre desigualdade social. Foi bolsista de iniciação científica do CNPq e orientanda na monografia”, conta. “Mesmo com a dificuldade de morar longe e já ter uma filha, era muito focada no ensino e na pesquisa”, conta. Ele foi convidado por Marielle para ir à Maré. “Fui para falar sobre Celso Furtado e passei o dia. Ela me levou para conhecer o Observatório de Favelas e o bloco da Maré. Em 20 anos no Rio, foi minha primeira vez na comunidade”, conta.
Quase um ano e meio após incêndio na reitoria, EBA continua funcionando de modo precário, com aulas espalhadas pelo campus e salas improvisadas Terça-feira, 20 de março. No fim da abafada manhã do último dia de verão, o professor Edson Motta Junior sequer conseguiu terminar a aula de Teoria da Pintura. Não se sentiu bem em uma sala improvisada para a projeção de imagens, sem ar-condicionado, no térreo da reitoria. Com a camisa tomada pelo suor, dispensou a turma mais cedo. “Minha pressão caiu”, disse. A situação é apenas um reflexo das precárias condições de trabalho e ensino enfrentadas pela comunidade da Escola de Belas Artes, quase um ano e meio após o incêndio que atingiu o prédio da reitoria, onde a unidade estava localizada. Motta Junior é um especialista na obra de Candido Portinari e foi um dos coordenadores da restauração dos painéis “Guerra” e “Paz”, expostos na ONU. Desde 1979 na UFRJ, o professor afirma que o declínio da infraestrutura já vinha acontecendo nos últimos anos, mas o incêndio pôs a “cereja em cima do bolo”, ironizou. “Agora é tudo improvisado”. Mesmo a sala que conseguiu no ateliê de Pintura para as aulas práticas tem goteiras, amparadas por baldes. A EBA ocupava os sexto e sétimo andares e parte do primeiro e do segundo do edifício. Com a interdição parcial do local, hoje está espalhada pelo campus: nos pavimentos inferiores da sede; na Faculdade de Letras; no Centro de Tecnologia e no Centro de Ciências Matemáticas e da Natureza. A diretora Madalena Grimaldi recebeu a reportagem da Adufrj em um setor administrativo provisoriamente instalado na biblioteca da Letras. São várias mesas, muito próximas uma das outras. Professores, técnicos e alunos misturam-se no espaço. “Não temos telefone, e a internet é intermitente. As reuniões que preciso fazer são aqui, no meio de todo mundo”, disse, fazendo questão de agradecer a solidariedade da faculdade vizinha. “Mas esta situação é insustentável por muito tempo”. A principal dificuldade no momento é a alocação de disciplinas. “Estamos na segunda semana de aulas e três disciplinas ainda estão sem sala”, observou. Biblioteca e museu da EBA sem a devida conservação, desgaste de professores e alunos no deslocamento pelo campus e salas inadequadas para as especificidades dos cursos são outros problemas citados pela diretora. “Trabalhamos com carvão, tinta. Precisa limpar a mão depois. Precisa de um tanque com torneira”, observa. O pior, para ela, é não saber quando poderá ser retomado o espaço original da EBA: “Não existe data oficial. A angústia é pela falta de perspectiva”, lamenta a professora. Questionada quanto ao prazo de recuperação total do edifício, a reitoria enviou um boletim informativo. De acordo com o documento, em fevereiro começaram as obras de recuperação estrutural do 8º andar. O processo da reforma hidrossanitária encontra-se no Escritório Técnico da Universidade (ETU) para cumprir pendências apontadas pela Procuradoria Federal. Também está no ETU o processo de recuperação da subestação do último pavimento. Entre outros pontos, afirma que o elevador de carga está em manutenção. Não existe uma previsão para o fim do conjunto da obra. Enquanto aguarda uma solução para retornar todas as disciplinas ao prédio da reitoria, a diretora acalenta o sonho de um local só para a EBA: “Não é possível uma unidade com 201 anos, um dos cursos mais antigos da UFRJ, sem uma sede própria”, critica. “É uma dívida que o governo federal tem. Pois nós fomos obrigados a sair do nosso prédio, hoje o Museu Nacional de Belas Artes”, completa Madalena.
O Tribunal de Contas da União rejeitou um recurso da UFRJ e determinou à reitoria o corte do ganho judicial dos 26,05% de parte dos docentes e de todos os técnicos-administrativos. A decisão foi tomada em sessão plenária do TCU realizada no último dia 14. A Adufrj vai mobilizar todos os recursos políticos e jurídicos para preservar o percentual nos contracheques dos professores que já recebem o índice. Em janeiro de 1989, o governo lançou um plano econômico e extinguiu o reajuste salarial dos trabalhadores, baseado na variação da Unidade de Referência de Preços (URP). À época, a medida gerou perdas de 26,05%. Mas, de acordo com o TCU, o percentual já foi absorvido por reajustes posteriores a 1989 nas respectivas carreiras e não deveria mais ser pago. A exceção seriam os professores que participaram da ação original da Adufrj, de 1990, que têm decisão favorável consolidada na Justiça do Trabalho. A UFRJ realizou extensão administrativa do ganho em 1994 e em 2003. Em 2006, o valor foi congelado e novos docentes e técnicos ficaram impedidos de receber os 26,05%. “Vamos adotar as medidas legais cabíveis para assegurar o percentual de quem não está no grupo da ação original”, avisa a assessora jurídica da Adufrj, Ana Luísa Palmisciano. Na sexta (16), as diretoras da associação docente Maria Lúcia Werneck e Ligia Bahia vão se reunir com o chefe de gabinete do ministro Vital Rêgo Filho, relator do processo da UFRJ. “Tentaremos sensibilizar o ministro sobre os desdobramentos negativos de haver uma parte dos professores recebendo e outra, não.”, afirma a presidente Maria Lúcia Werneck. “Haveria uma fragmentação muito grande das condições profissionais”, completa.sensibilizar o ministro sobre os desdobramentos negativos de haver uma parte dos professores recebendo e outra, não.”, afirma a presidente Maria Lúcia Werneck. “Haveria uma fragmentação muito grande das condições profissionais”, completa.
Coordenadores e integrantes de núcleos que já fazem trabalhos na área de direitos humanos ou em comunidades participaram da reunião que definiu os GTs. A Adufrj também esteve no debate Sete grupos de trabalho vão atuar na UFRJ para monitorar a intervenção federal e militar no Rio de Janeiro, principalmente nas favelas. Os grupos foram definidos hoje, durante uma reunião extraordinária convocada pela reitoria. O encontro expressou também a indignação de professores, alunos e técnicos com o assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL). Coordenadores e integrantes de núcleos que já fazem trabalhos na área de direitos humanos ou em comunidades participaram da atividade, realizada no prédio da reitoria. A Adufrj também esteve no debate. Os grupos vão sistematizar o conhecimento já produzido na UFRJ sobre eixos como descriminalização de drogas, políticas sociais, formação e racismo, entre outros assuntos. A Central de Supervisão das Garantias e dos Direitos Fundamentais, nome provisório do projeto, surgiu como um desdobramento do manifesto publicado por professores, juristas, intelectuais e ativistas criticando a intervenção. A Central terá ainda o objetivo de divulgar projetos de extensão que a UFRJ já promove em áreas pobres, mostrando o potencial desses projetos como forma de transformar as vidas dos moradores.
Entusiasmo com o novo semestre se mistura com a consciência das limitações de infraestrutura da maior universidade federal do país Elisa Monteiro e Isabella de Oliveira Na volta às aulas, o entusiasmo com o novo semestre se mistura com a consciência das limitações de infraestrutura da maior universidade federal do país. Obras arrastadas desanimam. Do papel higiênico ao wi-fi, tudo que falta pesa, principalmente, para quem mais depende de apoio. Por outro lado, cursos novos, como o de Gastronomia, buscam se consolidar. Os recém-reformados, como Educação Física e Desportos, querem manter as conquistas. Estudantes destacam a importância do bandejão no cotidiano universitário. Mas a violência preocupa. Segundo a prefeitura, depois dos últimos assaltos, está previsto reforço na frota que faz a segurança patrimonial, e a ronda dos veículos elétricos será intensificada. Outras propostas estão sendo negociadas, como parcerias com a iniciativa privada para criar um programa de vigilância semelhante ao do Centro. No Centro de Tecnologia, a novidade é a licitação do estacionamento, com cobrança de taxa. O projeto foi pensado para organizar o acesso dos carros, mas ajuda na segurança. Inclui 82 câmeras, cancelas e vagas para 1.882 veículos. O decano Fernando Ribeiro disse que o projeto foi negociado no CT, na Reitoria e na Procuradoria e deve entrar em vigor em três meses. O custo será de R$ 4 por dia ou R$ 80 por mês. A seguir, as expectativas de professores, estudantes e técnicos para o recomeço do semestre. TEREZA AQUINO, professora da Engenharia de Produção da Escola Politécnica: “Nesse semestre, senti muita diferença na parte externa do prédio em relação à falta de limpeza aqui no campus. Os canteiros estão cheios e a grama, alta. Mas o problema mais sério na minha avaliação é a falta de segurança, principalmente no estacionamento. Pago ou não, acredito que o crucial é garantir mecanismos de proteção para todos.” FABÍOLA MAGALHÃES, estudante de Gastronomia: “O curso é novo e está melhorando. Agora temos um forno industrial importante e os professores substitutos estão sendo trocados por professores efetivos. Gastronomia envolve muito glamour, mas nem todo mundo vira chef. O bom do curso da UFRJ é que a gente não tem só aula prática, a gente sai daqui preparado para não depender de ninguém para abrir o próprio negócio”. PAULO ROBERTO, professor de Letras Libras: “Antes de começar na UFRJ em 2014, eu dava aulas na PUC. São realidades bem distintas. O positivo da universidade pública é a possibilidade de intervenção na sociedade. Já coordeno o projeto de extensão Universidade das Quebradas. A Faculdade de Letras sofre por falta de espaço para alunos e professores e também por dificuldades de manutenção”. ZILPA GUEDES, técnica-administrativa do Instituto de Geociências: “Hoje vejo o Instituto de Geociências muito abandonado, sem poda, sem cuidado. As unidades estão largadas aos próprios orçamentos. Se antes já era apertado escolher o que fazer, imagina agora com a crise, está pior. Acho que a reitoria precisa andar pela UFRJ e entender suas reais necessidades. O mato não pode crescer sem controle. Os buracos não podem continuar nas vias”.