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Em frente à FND, conversa entre alunos, docentes e terceirizados unifica a greve e fortalece a universidade
Samantha Su. Estagiária e Redação
Qual a relação entre cortes no orçamento, terceirização, (falta de) assistência estudantil e direito de greve? Para responder a esta pergunta, professores, alunos e terceirizados reuniram-se em frente à Faculdade Nacional de Direito, no último dia 10.
Para Cleusa Santos, diretora da Adufrj-SSind, a universidade enfrenta uma forte crise em função das (más) escolhas do governo federal, com o aprofundamento do neoliberalismo. O corte anunciado de R$ 9,4 bilhões deste ano é mais um elemento desta conjuntura. “O Estado neoliberal exige novas formas de gestão, hierarquizando as atividades e tornando o trabalho cada vez mais fragmentado em busca de uma maior produtividade”, afirmou.
A terceirização no Brasil, um dos maiores exemplos dessa fragmentação, emprega 12,7 milhões de trabalhadores. Desses, 73% recebem até dois salários mínimos. A Associação de Trabalhadores Terceirizados da UFRJ (ATTUFRJ) é uma organização que tenta ir na contramão do cerceamento de mecanismos de mobilização para esses trabalhadores, alvos mais frágeis de políticas punitivas de controle social. Uma das diretoras da ATTUFRJ, Terezinha da Costa explicitou a situação dos terceirizados: “Antes eu não tinha consciência. Eu achava que eu era livre, hoje eu vejo que estou acorrentada. Tiraram meus sonhos e meus direitos, mas não basta que eu tenha um prato de comida, os meus irmãos também precisam ter. Ninguém vai fiscalizar se a gente tem o que comer, mas tem supervisor para ver se estamos trabalhando bem”, desabafou.
Outro segmento da universidade bastante afetado em momentos de contigenciamento é o dos estudantes. Gabriel Guimarães, pelo DCE Mário Prata, criticou a falta de assistência: “Bolsa, por exemplo, é uma das primeiras coisas a ser cortada quando há crise. Isso tem que estar garantido nos fundos da universidade. O PNAES (Programa Nacional de Assistência Estudantil) precisa garantir bandejões, alojamentos e bibliotecas em quantidade proporcional ao número de alunos e que não sejam retiráveis, como são os contêineres”, afirmou. “Queremos uma universidade que seja realmente universalizada, principalmente em condições de permanência”, concluiu.
Quando servidores e alunos resolvem reagir à precarização de suas condições de trabalho e estudo, um dos instrumentos de luta é a greve: “A greve organiza a classe trabalhadora e torna mais evidentes as contradições entre a política institucional e a realidade social. Ela dá forma a esse sentimento de insatisfação e não representatividade, exterioriza o conflito e aglutina a classe”, pontuou o estudante Thiago Gondim, da FND, que recentemente defendeu sua monografia de fim de curso sobre direito de greve.
A professora Sayonara Grillo, da FND, saudou a atividade: “Estamos dando à Faculdade de Direito um momento de reflexão. Isso é simbólico para a Unidade, porque traz uma leitura não normativa do que é o Direito. Posso dizer que aqui ouvimos explicações melhores sobre direito de greve do que na própria Constituição. É necessário entender o direito como mais do que um manual de regras”, declarou.
Caminhando juntos
A professora Tatiana Brettas, da Escola de Serviço Social, reafirmou a importância daquele debate: “Precisamos romper com a hierarquia na Academia e nos reconhecer como sujeitos, que não têm homogeneidade entre todos os setores, mas ainda assim caminhamos juntos para fortalecer a perspectiva de uma universidade melhor e de uma sociedade melhor.”
Prédio novo prometido à Gastronomia ainda não saiu do papel. Sala de reunião dos docentes é na biblioteca
Laboratórios são impróprios para o curso
Filipe Galvão. Especial para o Jornal da Adufrj
Das formas de luta à composição, vive-se uma greve nova. Com o fim do fôlego das políticas de expansão e o inchaço de trabalhadores terceirizados, a universidade experimenta hoje o seu limite.
A nova composição dos grevistas responde aos processos de mudança vividos pela universidade na última década. Não à toa têm se destacado nessa greve unificada dois grupos: os professores dos cursos novos e os alunos vindos de outros estados. Ambos resultantes da implementação do Reuni.
É o caso da Gastronomia. Criado em 2011, o curso nasceu com a promessa de um prédio próprio com laboratórios, salas de aula e espaços de convívio. Quatro anos depois e sem nem um tijolo para chamar de seu, docentes e alunos amargam uma situação de abandono.
Viram-se como dá. Para o cafezinho dos intervalos, os professores precisam se abrigar entre estantes e livros. Sem espaço nem prédio, a sala de reunião foi improvisada em um espaço ao fundo da biblioteca do Centro de Ciências da Saúde. “Os alunos nunca reclamaram, mas a gente procura fazer silêncio para não atrapalhar”, assume Márcia Pimentel, primeira professora contratada pelo curso.
O espaço foi a solução provisória encontrada pela coordenação e direção do curso junto à decania do CCS. “Não é a melhor condição de trabalho do mundo e, agora com o corte, a gente fica sem saber o que vai acontecer. Se, como está, já foi um sacrifício muito grande para nos instalarmos, imagina no futuro”, pondera a professora.
As lições acontecem nos laboratórios do CCS. O problema é que a estrutura existente não comporta as necessidades do curso. Impróprios para as aulas, os laboratórios não possuem sistema de circulação de ar e qualquer vazamento de gás ou alimento alergênico pode ser desastroso.
Projetado para abrigar o Instituto de Nutrição Josué de Castro, o prédio-fantasma já tinha sido orçado e aprovado pelo orçamento da UFRJ. E sua ausência não prejudica só a Gastronomia. Taís de Souza Lopes, professora do curso de Nutrição (existente desde 1948), aponta que a situação dos laboratórios compartilhados está atrasando a reforma curricular do curso. “Hoje estamos fora das requisições do MEC por conta disso, nós não temos laboratórios suficientes para ter dois currículos andando juntos”, revela.
Desde janeiro desse ano, os cursos irmãos sobrevivem pelo trabalho duro, quase teimoso, de docentes e alunos. Taís revela que, sem verba, os alimentos necessários às aulas acabam vindo do salário de professores ou de vaquinhas de estudantes. “Já chegamos a esse ponto”, desabafa.
A paulista Kilvia Pereira, aluna do curso de Gastronomia, diz que às vezes falta até manteiga. “Sempre quis universidade pública, mas sabia que não seria fácil”, conta. Kilvia, que também está em greve, preparou com seus colegas uma aula pública na posse de Roberto Leher e Denise Nascimento, novos reitor e vice-reitora da UFRJ. Ao final da cerimônia, serviram aos presentes degustações de caponata de casca de banana, gaspacho feito com descartes de salada e doce de casca de melancia. A aula era sobre o aproveitamento integral dos alimentos. Pareciam experts.
A UFRJ vai ocupar a Cinelândia
Atividades começam ao meio-dia e envolvem professores, estudantes e técnico-administrativos da universidade
Diversas unidades da UFRJ farão atividades em praça pública na quinta-feira, 16 de julho. As atividades se iniciam ao meio-dia em tendas montadas na Cinelândia, Centro do Rio. A mobilização envolve professores, estudantes e técnico-administrativos da universidade.
O ato “UFRJ na praça, contra os cortes no orçamento” discutirá com a população os efeitos do ajuste fiscal na Educação pública. Dentre as principais atividades, haverá exibição de filmes, debates, palestras, oficinas de dança e costura, saraus de poesia, instalações, cortejos, aulas-públicas. Tudo isto como forma de mostrar à população o que a universidade pública produz e o que está ameaçado com os mais de R$ 9 bilhões cortados da educação.
Após a série de experimentações e debates, haverá um ato-show unificado da educação federal em greve do Rio. O ato-show começa às 17h. Todas as atividades serão abertas ao público e gratuitas.
O famoso quadro de Edvard Munch virou apelo pela educação pública de qualidade
Aulas públicas e intervenções artísticas levaram a UFRJ para a praça
Samantha Su. Estagiária e Redação
Durante todo o dia 7 de julho, a praça Cinelândia ficou ocupada com tendas que ofereciam oficinas, aulas públicas e intervenções artísticas. Tratava-se de um aulão público para dialogar com a população sobre as razões da greve nas universidades federais.
Uma das principais atrações foi a pintura coletiva de um painel gigantesco imitando o famoso quadro “O Grito”, do norueguês Edvard Munch. A professora Martha Werneck, da Escola de Belas Artes, explicou a intervenção: “A ideia da atividade veio inicialmente da demanda dos estudantes. As minhas alunas do curso de pintura, Andressa Lamarca e Lua Barbosa, achavam muito importante trazer nossas pautas para as ruas e tirar a greve do intramuros. A arte é muito importante para tornar esse processo uma construção coletiva, orgânica e de conscientização”, afirmou. Ao lado de “O Grito”, foram pintados os dizeres “A Greve é o nosso grito”.
Para a professora Cinda Gonda, da Faculdade de Letras, a greve possui a qualidade única de se transformar em uma espécie de fagulha incendiando o cotidiano “que nos parece tão precário”: “É isso que estamos fazendo aqui. Estamos trazendo poesia, música, contos, vem o pessoal da dança também... quebrando esses muros e trazendo a universidade para a praça”, disse.
Dau Bastos, também da Letras, observou a relação histórica entre arte e política para falar da atividade da Cinelândia: “Basta pensar no ‘Guernica’, do Picasso”, afirmou. Para ele, a arte consegue, de maneira atrativa, fazer uma denúncia, mostrar aspectos comprometedores por trás do discurso político: “Daí a importância de buscarmos a estetização, no sentido muito positivo, do movimento”, completou.
Contraponto
Uma das aulas foi ministrada pela professora, cientista social e doutoranda da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), Camila Moreno, sobre gênero. Ela relacionou as divisões de gênero na sociedade com as lutas anti-capitalistas. Após o debate, ao apontar para o protótipo propagandista do Veículo Leve sobre Trilhos (VLT) da Prefeitura do Rio de Janeiro em exibição na praça, Camila comentou: “É importante estarmos no espaço público. Os símbolos do capital empresarial estão aqui, nós também temos que estar disputando ele. Isso mostra que os docentes não estão em casa fazendo greve, mas estão na rua discutindo a conjuntura”.
A lojista Viviane Pacheco parou para ver a intervenção durante o horário do almoço e elogiou: “Eu não conheço muito sobre arte e acho importante que quem estuda esteja preocupado em trazer isso para o cotidiano da cidade. Se os professores estão em greve, é pela educação do país e eles precisam ser respeitados.” Estudantes da graduação e pós-graduação também participaram do evento.
Interlocução com a sociedade
“Precisamos fazer uma interlocução com a comunidade. Queremos aqui dizer que precisamos fortalecer a universidade pública com os trabalhadores, porque queremos uma universidade para eles”, observou a professora Sara Granemann, da Escola de Serviço Social.
Confira vídeo sobre esta atividade de greve no site www.adufrj.org.br.