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Agostinho Mendes da Cunha
A universidade chora a perda de mais um integrante de seu corpo social. Desta vez, do técnico-administrativo Agostinho Mendes da Cunha, do Instituto de Física. O servidor completaria, em 2021, 40 anos de trabalho na unidade. Ele tinha intensa participação no Laboratório Didático do Instituto de Física. Entre outras atividades, atuava nos projetos de extensão “Tem criança no circuito” e “Tem menina no circuito”. Colegas renderam emocionadas homenagens nas redes sociais. O técnico faleceu no Dia do Físico, 19 de maio.
Mateus Alves dos Santos
"Meu irmão era muito inteligente e defendia a universidade com unhas e dentes”. O relato emocionado é de Sabrina Alves, irmã de Mateus Alves dos Santos. Estudante do Programa de Estudos Medievais do Instituto de História, entrou em contato com professores, no último dia 11, dizendo que não participaria das reuniões do projeto, porque havia contraído a Covid-19. O jovem afirmou que estava medicado e apresentava sintomas leves. Em poucos dias, seu estado de saúde se agravou. Mateus foi levado pela doença no dia 15, aos 25 anos. O Consuni aprovou moção de pesar pela precoce perda.
VIOLÊNCIA POLICIAL
João Pedro, 14 anos
Em meio à pandemia, nem todos têm o direito de permanecer seguros em suas casas. Moradores de favelas que enfrentam o confinamento precisam lidar com outro risco: de se tornarem alvos em operações policiais. Aos 14 anos, João Pedro Motta teve a vida e os sonhos interrompidos. Morador de São Gonçalo, o adolescente, negro, estava em casa com primos, quando a residência foi metralhada pela polícia, no dia 18. O corpo foi levado de helicóptero da cena do crime, sem consentimento da família e só encontrado no IML de São Gonçalo um dia depois.
“O artigo científico é o Tinder da Ciência. Não é exatamente mentira, mas somos espertos o suficiente para não casar com alguém só pelo seu perfil aparente”. A brincadeira do professor Olavo Amaral, do Instituto de Bioquímica Médica da UFRJ, foi um dos destaques do último “Tamo Junto”, um bate-papo virtual organizado todas as sextas-feiras pela AdUFRJ. No dia 15, a confiabilidade científica em tempos de pandemia foi o principal tema do encontro.
Para Olavo, falta controle de qualidade e veracidade das pesquisas. “Temos uma divulgação muito rápida de conteúdo aparentemente científico pelas redes sociais. Mas, ao mesmo tempo, não temos uma ciência institucionalizada sobre o que é verdade ou não”, disse. Pensando nisso, o professor criou a Iniciativa Brasileira de Reprodutibilidade (IBR), que tem como objetivo repetir experimentos realizados por outros pesquisadores brasileiros através de uma rede de laboratórios. E, ao final dos processos, mensurar o que pode ser útil à Ciência.
“Muita coisa que é artigo científico não é verdade. Mas, por ser publicado, as pessoas acreditam como verdadeiro”, observou. Olavo cogita a superação do artigo científico como forma de comunicar Ciência. Em função da crise de reprodutibilidade no país, acredita que são necessárias outras formas de publicação científica e de apresentação de críticas, já que a própria Ciência é que sai perdendo com a divulgação de pesquisas sem validade prática. “Da fraude até um erro, há um conjunto infinito de possibilidades”.
Professora do Instituto de Estudos em Saúde Coletiva, Ligia Bahia chamou atenção para o problema do atual modelo de pós-graduação, que cobra muitas publicações dos pesquisadores. “Agora temos um número maior de mestrandos e doutorandos que precisam publicar. O jovem também tem que ser um grande publicador, para conseguir passar no concurso da UFRJ”, afirmou. “Qual a nossa responsabilidade sobre isso?”, questionou.
TAMO JUNTO
Apesar do isolamento social, os professores da UFRJ ainda podem sentir o gostinho da troca de ideias que caracteriza a universidade. Toda sexta-feira, no fim da tarde, a AdUFRJ promove o virtual “TamoJunto”, com um tema definido previamente.
AVATARES do aplicativo Maniff. app participaram da ‘marcha'A Marcha Virtual pela Ciência, realizada no dia 7, foi um sucesso. A programação nacional de debates organizados por sociedades científicas, universidades e institutos de pesquisa alcançou grande repercussão na mídia e nas redes sociais.
Somente na imprensa, foram registradas 239 matérias. Durante todo o dia da manifestação, o portal da SBPC, organizadora da Marcha, recebeu mais de 28 mil visitas. As duas hashtags empregadas durante a manifestação (#paCTopelavida e #MarchaVirtualpelaCiência), que somaram 30 mil tuítes, ficaram entre os assuntos mais comentados do Twitter no dia 7. No Youtube, o canal da SBPC alcançou mais de 600 mil usuários e ganhou 3,4 mil inscritos.
O presidente da SBPC e professor do Instituto de Física da UFRJ, Ildeu Moreira, avaliou como positiva a mudança da Marcha para o ambiente virtual. “Foi uma iniciativa importante, e mostrou que temos de usar mais as redes”. Ildeu reconheceu a influência da pandemia nos números. “Este ano, de fato, atingiu mais pessoas. Estamos num momento diverso, que facilita por um lado, mas dificulta a organização mais efetiva das nossas atividades presenciais”, afirmou.
A inovação também ajudou a ampliar o alcance da Marcha. O aplicativo Maniff.app, possibiliou uma experiência inovadora de manifestação online, posicionando avatares em um mapa virtual em todo o planeta, com placas e faixas em defesa da ciência e da democracia. Na noite de 7 de maio, 15.800 participantes estavam logados, a grande maioria em frente ao Congresso Nacional, em Brasília. “Tivemos um êxito incrível”, disse Ildeu.
Para a professora Christine Ruta, diretora da AdUFRJ, a SBPC fez bem ao manter a Marcha, mesmo no ambiente virtual. “Os números são muitos significativos. O confinamento nos forçou a isso. E a SBPC acertou, construindo essa maneira de as pessoas se expressarem”, avaliou.
Um ano depois das maiores manifestações de rua contra o governo Bolsonaro, a Educação voltou a mostrar sua força no dia 15 de maio. Em 2020, em respeito ao isolamento social, a campanha do 15M tomou as redes sociais.
Em 2019, o estopim para os protestos foi a defesa das universidades públicas. Este ano, a principal bandeira foi o adiamento do Enem. E, diante da pressão popular e de uma expressiva derrota sofrida no Senado, o governo adiou as provas, na última quarta-feira.
Cinco dias antes, no 15M, um tuitaço colocou a tag #AdiaEnem em primeiro lugar entre os assuntos mais comentados no Twitter.
“O #AdiaEnem acabou dominando o 15M”, explicou o diretor da AdUFRJ Josué Medeiros, referindo-se à campanha planejada pelo Observatório do Conhecimento e que ocupou as redes com vários temas na semana do 15M.
A ação começou na segunda-feira (11), listando os ataques do governo à educação. Na terça, foi a vez de exaltar o trabalho das universidades no combate à pandemia, chamando atenção para pesquisas que estão sendo desenvolvidas pelas instituições, usando a tag #MinhaBalbúrdiaÉ. Na quarta, a programação era apoiar o #AdiaEnem, que já vinha mobilizando manifestações esparsas desde a semana anterior. Quinta foi o dia que as redes sociais adotaram para postar suas lembranças do 15M de 2019.
Na sexta-feira, 15, foi a vez do tuitaço. O grupo de trabalho do Observatório, responsável pela campanha, escolheu a hashtag #CiênciaSalvaVidas para acompanhar a tag da campanha do Enem. O #AdiaEnem teve mais de 107 mil menções em uma hora, e foi compartilhado por políticos ligados ao campo progressista, além de influenciadores e artistas.
Na avaliação do professor Josué Medeiros, a campanha teve um saldo muito positivo. “Temos que aprofundar o debate sobre novas formas de luta com urgência, já que a pandemia coloca isso de uma maneira inédita ao nos impedir de ir para a rua”, explicou. “Nossa ideia sempre foi unificar as formas de luta tradicionais com as novas formas, entendendo que esse mundo digital não é só um lugar de comunicação, mas um lugar onde as pessoas estão se formando politicamente. O 15M foi mais uma nova forma de fazer isso.”
Medeiros aprofundou o balanço da campanha, explicando quais são os desafios para manifestações em redes sociais. “Os vídeos que repercutiram melhor na nossa base foram os de exaltação do trabalho das universidades, mas talvez as pautas do nosso 15M e do #AdiaEnem estivessem um pouco difusas. O desafio é como dar mais consistência a esses movimentos nas redes, sem ser difuso, mas alargando o arco para conseguir envolver mais gente”, avaliou.
Outra ação da campanha foi a projeção de vídeos nos bairros de Botafogo, Glória, Humaitá e Copacabana. A diretora da AdUFRJ Christine Ruta esclareceu que a intenção era espalhar a iniciativa por mais bairros, mas as dificuldades impostas pelo isolamento social limitaram a área de atuação. Os vídeos traziam mensagens como críticas ao ministro Abraham Weintraub e de defesa das universidades. “A ação funcionou porque conseguimos nos manifestar nas ruas, mas obedecendo ao isolamento social”, contou. “Outro objetivo que atingimos foi o de criar um ato capaz de ser multiplicado, já que o material estava à disposição dos nossos sindicalizados, e de quem mais quisesse se manifestar”.
RADICIONAIS TENDAS com mostras das coleções do Museu Nacional não puderam ser montadas neste ano, por conta do coronavírus - Foto: DIOGO VASCONCELLOA pandemia fechou 90% dos museus no mundo e impediu que a Quinta da Boa Vista recebesse este ano as tradicionais tendas com coleções do Museu Nacional, na Semana Nacional de Museus. Mas as redes sociais foram tomadas por ações em referência à data. Este ano, a semana é comemorada de 18 (Dia Internacional dos Museus) a 24 de maio. O evento acontece no Brasil há 18 anos.
Uma das atividades virtuais foi uma live com a coordenadora da equipe de resgate do Museu Nacional, professora Claudia Carvalho. Ela contou como anda o trabalho de identificação de peças encontradas nos escombros do prédio histórico. Desde o incêndio, em 2 de setembro de 2018, já foram retiradas 2,5 mil toneladas de entulho do local, o equivalente a duas estátuas do Cristo Redentor.
Por conta do vírus, as buscas foram suspensas. A equipe estima que ainda seja necessário mais um mês de garimpo, assim que for possível retomar atividades presenciais. “Temos 5.400 ‘entradas’ de materiais resgatados, mas este número será significativamente maior quando finalizarmos o inventário. Muitos materiais encontrados juntos receberam o mesmo número de registro para facilitar esta primeira etapa”, justificou.
Diretor do Museu Nacional, o professor Alexander Kellner afirmou que o cronograma de reconstrução da unidade não foi prejudicado pela pandemia. “Estamos em fase de elaboração de projetos para começar os processos licitatórios. A única coisa que precisou parar foi o resgate, mas falta pouco para ser concluído”, comemorou.
O docente afirmou que as metas de reabertura do espaço continuam as mesmas: abertura parcial em 2022, junto com o bicentenário da Independência do Brasil, e abertura completa em 2025. Formas de higienização, limitação dos visitantes e exposições abertas estão no horizonte. “Como os museus funcionarão no mundo pós-pandemia é um grande desafio. Estão previstas áreas expositivas ao ar livre. E também a abertura do horto botânico à visitação, com um borboletário”, revelou.
SCIENTIFICARTE
Projetos que atuam em parceria com o Museu Nacional também celebraram a Semana. É o caso do Scientificarte, projeto de extensão do Instituto de Biologia. Christine Ruta, diretora da AdUFRJ e coordenadora do projeto, explicou que o objetivo é estimular o aprendizado de ciências a partir de expressões artísticas. O público-alvo é formado por professores e alunos da rede pública de ensino. Mais de dez mil alunos da educação básica já participaram de ações extensionistas do projeto, que existe desde 2006 e foi o primeiro da UFRJ-Macaé.
“Resolvemos participar na 18ª Semana porque um museu é um espaço de cultura e de pesquisa que infelizmente, no cenário político de hoje, são substantivos muito desvalorizados”, avaliou a professora. “No atual momento de distanciamento social é importante chamar a atenção para a relevância destes espaços, principalmente para as crianças e jovens”.
CIÊNCIA E ARTE são aliadas no ensino de crianças e jovens em Macaé - Foto: DivulgaçãoO maior desafio, aponta Ruta, talvez seja o de sensibilizar a sociedade para a importância da arte no mundo contemporâneo. “Como demonstrar para o público que cultura, numa acepção mais geral, é o que nos torna humanos? Como argumentar que uma cantata de Bach e um samba de Cartola são tesouros da humanidade e que devem estar acessíveis a todos?”, questiona. A promoção da educação, na avaliação da docente, pode ser a resposta. “Tanto no Scientificarte quanto na diretoria da AdUFRJ defendo ardorosamente a educação pública, o maior instrumento de promoção da cultura”.
Victor Hugo de Almeida Marques é mestrando do Programa de Pós-graduação em Zoologia do Museu Nacional e participou do Scientificarte, durante a graduação. Ex-aluno de Ruta na iniciação científica, ele acredita que ter feito parte desse projeto na graduação foi determinante para seguir na carreira acadêmica. “Sem dúvidas, me ensinou a repassar meus conhecimentos para públicos de diferentes idades. Sinto falta de mais projetos de extensão vinculados à pesquisa”.
O jovem cientista é um caso de sucesso. Seu projeto foi um dos cinco do Museu financiados no ano passado pela National Geographic Society. “Foi graças a este fomento que eu pude recompor meu material de trabalho para dar seguimento à minha pesquisa. Meu laboratório foi destruído no incêndio. Não pegou fogo, mas foi totalmente soterrado pelos andares superiores, que desabaram com as chamas”.