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WEB menor112903Chegou a hora de conversarmos seriamente sobre ensino remoto. A menos que desejemos uma universidade ausente, descolada dos graves problemas sociais trazidos pela pandemia de COVID-19, não podemos nos furtar a encarar o proverbial elefante na sala e perguntar: posto que a quarentena universitária durará ainda muitos meses, como manter o nosso ensino de qualidade durante esse período de afastamento, sem que ele se torne excludente? A resposta, já sabemos, será imperfeita. Se o nosso ensino presencial, no qual temos décadas de prática e um enorme arcabouço intelectual, já padece de vários problemas, que dirá nos aventurarmos emergencialmente por formas alternativas de ensino. Mas isso não deve, de forma nenhuma, nos desencorajar. O desafio é imenso, mas não temos escolha a não ser enfrentá-lo.
Um bom começo é mapear as possibilidades de ensino remoto por parte dos docentes, e de acesso remoto por parte dos estudantes. No final de abril o serviço de informática da universidade iniciou uma pesquisa online aberta a todo o corpo social da UFRJ, na qual se perguntava essencialmente (i) sobre a continuidade das atividades de ensino de maneira remota e (ii) sobre a qualidade do acesso à internet. Aproximadamente 1/3 (um terço) da comunidade respondeu à enquete, e os resultados são cautelosamente animadores. Vamos a eles.
  WEB menor112903cA primeira coisa digna de nota é a penetração do acesso à internet em nosso corpo social: 92% de todos os respondentes disseram ter acesso à rede “banda larga” (em geral, sinônimo de internet a cabo, satélite ou fibra ótica). É claro que tal pergunta está carregada de um viés positivo intrínseco, afinal, ela foi feita pela própria internet. No caso dos docentes, tal viés é certamente irrelevante, mas no universo dos alunos ele provavelmente causa impacto significativo. No entanto, um ponto importante a ser considerado é o fato de que quase todas as inscrições, sejam no ENEM ou de disciplinas no SIGA, são feitas de forma online. Então é razoável supor que a maioria dos discentes tenha algum tipo de acesso à internet, ainda que ele possa ser limitado. Outro fator bastante relevante da pesquisa é que quase 90% dos discentes declararam possuir um smartphone, conforme vemos nas gráficos que ilustram a próxima página do jornal. Isso indica que uma política de ampliação do acesso a dados para celular, que certamente é de mais fácil execução do que a de fornecimento de equipamento, permitiria a um contingente razoável dos estudantes ter acesso a conteúdo disponível de forma remota.
Além de dar uma ideia da infraestrutura a disposição da comunidade acadêmica, a pesquisa também perguntou a opinião de alunos, técnicos e docentes sobre a continuidade de atividades de ensino durante a quarentena. E, como ilustra a figura acima, em todos os segmentos pelo menos 2/3 (dois terços) dos respondentes apoiam algum tipo de atividade didática remota: 68% entre estudantes de graduação, 82% entre os de pós, 73% dos docentes e 87% dos técnicos. Esse alto percentual entre os técnico-administrativos combinado com a sua baixa taxa de resposta ao questionário (apenas 25% responderam, contra 75% entre os docentes) sugere um certo viés, mas o fato de as respostas terem sido bem distribuídas pelos centros sugere que ele não é grande. Esses dados são de considerável importância, pois indicam que os opositores a qualquer tipo de atividade de ensino durante a pandemia, apesar de por vezes serem muito vocais, estão em clara minoria.
Tudo isso sugere – talvez supreendentemente – que existe um terreno rudimentar sobre o qual podemos começar a conversar sobre atividades de ensino remotas. Por outro lado, e o dizemos com muita ênfase, isso deve ser feito levando-se em conta a imensa diversidade presente nos cursos da UFRJ. Vários dos cursos têm disciplinas feitas em laboratórios, estágios e trabalhos de campo que são fundamentais na formação dos discentes. Certamente algumas dessas atividades não poderão ser feitas utilizando-se apenas ferramentas virtuais, ainda que de forma emergencial. Mas isso também não quer dizer que tal nó seja górdio: é hora de se pensar em mudanças curriculares, redesenho de disciplinas, redistribuição de créditos... Essa enorme diversidade, que à primeira vista torna o desafio maior, é, no fundo o nosso grande trunfo. Não haverá uma solução única que atenda todos os cursos, mas mesmo que existisse uma, nós provavelmente a rejeitaríamos. Nós florescemos na diversidade, e na adaptação à pandemia não será diferente.

FELIPE ROSA
Professor do Instituto de Física e vice-presidente da AdUFRJ
BRUNO SOUZA DE PAULA
Coordenador do Núcleo de Ensino a Distância da Pró-reitoria de Graduação
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