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APESAR DO CAPITÃO, DO PASTOR E DO GENERAL que desgovernam o país, a universidade resiste com conhecimento, excelência e compromisso. Um bom exemplo está na revista PLOS Biology, onde aparecem os pesquisadores mais citados do mundo. Há 63 professores da UFRJ. Seus nomes ilustram a capa do Jornal da AdUFRJ desta semana e alguns de seus depoimentos integram a reportagem abaixo. Sem dúvida, a listagem seria ainda maior se o governo valorizasse a Ciência. Mas a gestão do capitão Bolsonaro, do pastor Milton Ribeiro e do ministro Eduardo Pazuello não nutre qualquer respeito pelos valores civilizatórios. 

Em mais uma demonstração de excelência acadêmica, 63 docentes da UFRJ estão entre os pesquisadores mais influentes do mundo em suas áreas. O levantamento foi publicado em outubro pela revista norte-americana Public Library of Science (Plos) Biology e contém 161.441 cientistas divididos em dois rankings: mais citados ao longo de suas carreiras e mais citados em 2019. Entre os pesquisadores analisados, 853 são brasileiros, o que representa 0,53% do total. A relação utilizou a base de dados Scopus.
WhatsApp Image 2020 12 05 at 14.28.12Dos 63 professores da universidade, 29 aparecem em ambas as listas. Luiz Davidovich, presidente da Academia Brasileira de Ciências e professor do Instituto de Física, é um dos que integram os dois rankings. Ele, porém, recomenda precaução ao analisar os dados. “Esses índices são um dos elementos para julgar o trabalho de um cientista. Têm seu valor, mas não podem ser vistos de maneira absoluta”, ele acredita. O resultado dos pesquisadores da universidade, em relação aos cientistas brasileiros – eles representam 7,5% deste conjunto –, “reflete a produção e a importância acadêmica da UFRJ”, de acordo com Davidovich.
Único paleontólogo brasileiro a figurar na lista dos mais influentes do mundo, o professor Alexander Kellner, diretor do Museu Nacional, também chama atenção para a relativização do ranking. “É uma lista feita por números, índices de impacto. Temos um vencedor da Medalha Fields, o Artur Avila, que não está nessa relação”, argumenta. “É claro que há métricas importantes, e é um orgulho estar nela, é muito bom para a UFRJ ter muitos nomes. É algo relevante para a universidade e para o Museu Nacional, mas expressa um retrato parcial da Ciência”.
Jerson Lima Silva, presidente da Faperj e professor do Instituto de Bioquímica Médica, é outro dos mais citados. Ele comemora o desempenho dos colegas. “Vai de encontro àquela ideia de que o Brasil não tem qualidade em suas publicações”, afirma. Ele deu exemplos recentes de atuação de cientistas brasileiros em temas como a microcefalia provocada pelo zika vírus e a covid-19. “Foi um papel muito relevante desempenhado pela Ciência brasileira e pela UFRJ”. Apesar da boa avaliação, ele considera que poderia ser feito mais. “Ciência precisa de recursos”, considera.
A crise orçamentária e as dificuldades enfrentadas na importação de insumos para a pesquisa podem estar por trás de um desempenho não tão satisfatório do Brasil em relação aos pesquisadores do restante do mundo, considera a professora Leda Castilho, da Coppe. “Muitas vezes não temos o recurso e, quando temos, pagamos mais caro pelos produtos do que os colegas no exterior e perdemos muito tempo em trâmites para conseguir os insumos”, reclama. “É claro que no plano individual é uma honra estar nesta lista. Mas o Brasil ainda tem muito a caminhar, com uma representação baixa, se comparado ao total”, comenta. “Poderíamos estar proporcionalmente mais representados, já que publicamos mais”.
A opinião é compartilhada pelo professor Sérgio Ferreira, do Instituto de Biofísica. “A Ciência brasileira contribui com 2% de todos os artigos científicos publicados no mundo, mas a quantidade de brasileiros na lista é bem inferior a isto, o que demonstra que nosso impacto no topo da Ciência mundial é menor do que nossa produção”, ele alerta. Ainda assim, “ponderadas todas as condições tão desfavoráveis que enfrentamos”, o país “faz um ótimo trabalho científico”.
Pró-reitora de Pós-Graduação e Pesquisa, a professora Denise Freire também está na lista dos mais influentes,. Foi uma das mais citadas ao longo de 2019. “A UFRJ está bem representada. Isso demonstra a pujança, a competitividade e a competência da nossa instituição. Nós somos uma boa universidade de pesquisa e por isso somos excelência no ensino, na pesquisa e na extensão”, diz. Docente do Instituto de Química, ela atribui seu sucesso aos seus estudantes. “São meus alunos que me fazem estar nesta lista, incansáveis nos laboratórios. Ter formado profissionais que estão na ponta do conhecimento, contribuindo para o país, é meu maior orgulho”.

WhatsApp Image 2020 12 05 at 14.10.44 1Luiz Davidovich
ABC e Instituto de Física

“Espero que os recursos para a pesquisa parem de decair, para que no futuro haja mais pesquisadores brasileiros contribuindo e sendo referência para o país e para o mundo. Muito importante que haja uma correção de rumos”

WhatsApp Image 2020 12 05 at 14.10.44 4Jerson Lima Silva
Faperj e IBqM

“O nível de citação é relevante, mas é uma espécie de retrovisor, uma consequência dos investimentos sólidos que tivemos por dez anos. Ao se abrir um hiato de financiamento, há um risco para a Ciência e, principalmente, para a carreira dos jovens cientistas”.

WhatsApp Image 2020 12 05 at 14.10.43 1Sérgio Ferreira
Instituto de Biofísica

“A gente vive de sobressalto na Ciência. São cortes de bolsas, orçamento sobe num ano e despenca no outro, são condições objetivas e subjetivas muito difíceis. Isso nos deixa a pergunta: o quanto mais a universidade poderia contribuir para a Ciência mundial se tivesse mais investimento?”

WhatsApp Image 2020 12 05 at 14.10.44 2Leda Castilho
Coppe

“Noventa e cinco por cento, ou seja, a quase totalidade da pesquisa brasileira é feita nas universidades e a maior parte dessa força de trabalho é formada por nossos pós-graduandos, que além de não terem aumento há anos, ainda vivem inseguranças sobre os programas de bolsas de estudos. Este é mais um fator que pode estar prejudicando o desempenho do Brasil”

WhatsApp Image 2020 12 05 at 14.10.44José Roberto Meyer
Instituto de Bioquímica Médica

“Ter o trabalho reconhecido é muito importante. Significa a produção de toda uma vida. Eu não consigo pensar em me aposentar, não me imagino fazendo outra coisa. Apesar de todo o sucateamento, de sermos demandados a um esforço desproporcional a outros centros de pesquisa, ainda apresentamos bons resultados”

WhatsApp Image 2020 12 05 at 14.10.45Denise Freire
Instituto de Química

“Temos docentes citados em todas as áreas do conhecimento. Ter trabalhos mais citados é uma consequência da formação que você dá aos seus alunos, dos trabalhos que são realizados coletivamente. E por isso é tão gratificante”

WhatsApp Image 2020 12 05 at 14.10.43 4Rodrigo Capaz
Instituto de Física

“A lista é feita por parâmetros universais que ajudam a posicionar a UFRJ nesse grupo de instituições que atuam fortemente em pesquisa. Sem dúvida há um impacto muito positivo para a internacionalização da universidade”

WhatsApp Image 2020 12 05 at 14.10.43Edson Watanabe
Coppe

“Entramos numa seleção que é internacional, isto é muito importante, mas como toda lista que depende de critérios, pode deixar gente de fora. Achei surpreendente estar no ranking e também é surpreendente que alguns pesquisadores de excelência reconhecida em suas áreas não estejam citados”

WhatsApp Image 2020 12 05 at 14.10.44 3Alexander Kellner
Museu Nacional

“Acredito que ser o único paleontólogo brasileiro na listagem tem relação direta com meu programa em parceria com a China. Nossa área é muito cara, demanda muitos recursos. Precisa de muito financiamento. A China custeia a parte mais cara dessa pesquisa. Aqui no Brasil, eu não conseguiria fazer todos estes estudos”

WhatsApp Image 2020 12 05 at 14.10.43 3Romildo Toledo
Coppe

“O ranking é resultado do impacto e visibilidade nacional e internacional que nossos trabalhos têm, então fiquei muito feliz. Mostra que o Brasil faz Ciência de qualidade. Temo que o declínio do investimento nos últimos anos nos leve a patamares anteriores, muito inferiores de desenvolvimento da pesquisa nacional”

WhatsApp Image 2020 12 05 at 14.10.43 2Fábio Scarano
Instituto de Biologia

“Esses resultados envolvem meus alunos do Rio, de Macaé, colaboradores brasileiros e estrangeiros. É um esforço de todos. Quando a medida do impacto científico for análoga ao impacto social, com promoção da justiça social, direito ambiental, saúde e bem-estar da população e da natureza, eu certamente ficarei muito mais feliz e tranquilo”

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