Accessibility Tools

facebook 19
twitter 19
andes3
 

filiados

Roberto Leher, reitor da UFRJ Não há neutralidade possível diante da ascensão do fascismo e de agrupamentos que pregam a aniquilação dos que deles divergem. Infelizmente, o ano em que celebramos os 30 anos da promulgação da Constituição Federal é um tempo perigoso para a democracia. Das liberdades individuais aos direitos sociais que consubstanciam a liberdade, todas as cláusulas pétreas da Constituição estão sendo aviltadas. A Emenda Constitucional 95 ganha sustentação nas narrativas irracionalistas, nas fake news veiculadas e impulsionadas por grandes grupos econômicos que querem um país sem leis trabalhistas justas, educação pública, laica, gratuita e de elevada qualidade. É preciso reivindicar os valores iluministas, estimular o uso crítico e autônomo da razão para que, por meio do voto esclarecido, cada cidadã e cidadão possa afirmar a democracia e a justiça social.

Heloisa Buarque de Hollanda, professora Emérita da ECO/UFRJ Escrevo como professora emérita, há mais de 50 anos vinculada à UFRJ. É a partir dessa experiência, nem sempre pacífica, que me dirijo à Adufrj para reiterar a importância da liberdade em nossa missão fundamental como docentes e pesquisadores. O ensino e a pesquisa, eixos das universidades públicas, garantem o desenvolvimento do país, a inovação científica e cultural e a construção cidadã baseada no respeito às diferenças de gênero, étnicas, de classe e religião. Essa missão não pode ser colocada em risco ou enfraquecida sob pena de graves prejuízos para a sociedade e para o país. Assim, o fortalecimento das condições para a produção livre de conhecimento, neste momento sombrio, deve ser o compromisso prioritário de toda a comunidade acadêmica e desse sindicato que nos representa.

Currículos de medicina e outras profissões de saúde são objeto permanente de reformas e reflexões desde o início do século XIX. A formação de bons profissionais, com conhecimentos empíricos e teóricos, foi um enorme desafio quando as escolas médicas não tinham atividades de pesquisa. Atualmente requer-se que médicos, além de conhecimentos e capacidades técnicas, possuam habilidades relacionais com pacientes, seus parentes e opinião pública. Estimula- -se a empatia (atributo cognitivo que permite intuir sentimentos, detectar pistas não verbais, dispor-se a estar perto, compartilhar saberes, decisões terapêuticas). Não se trata de ter pena de quem sofre, propensão à caridade ou mesmo simpatia – emoções que podem ser respondidas negativamente pelos pacientes. O contrário da empatia é o cinismo, que se desenvolve em função das longas jornadas de trabalho, competição por melhores postos de trabalho, hierarquias estabelecidas sem mérito e constatações sobre práticas negativas de médicos mais velhos. Para conter o cinismo, é preciso debater, questionar se o lugar dos médicos é acima ou ao lado dos demais cidadãos. As atuais eleições definirão se o SUS seguirá se afirmando como expressão institucional do direito universal à saúde ou se consolidará como uma organização de caridade. Haddad se compromete com aumento de recursos financeiros para a saúde, com a formação adequada de profissionais de saúde em universidades públicas. O programa eleitoral de Bolsonaro para a saúde declara ser “possível fazer muito mais com os atuais recursos!”, posicionamento que é divergente da maioria dos candidatos no primeiro turno. Enquanto Haddad detalha programas e atividades a serem implementadas e expandidas, Bolsonaro apresenta intenções sobre a melhoria de inserção profissional de médicos, professores de educação física e dentistas. Os médicos seriam credenciados universalmente, professores de educação física integrariam equipes de saúde da família e dentistas atenderiam gestantes. São sugestões já testadas ou incorporadas, que supostamente conferem relevo aos profissionais de saúde. Propostas que deixam os pacientes e o SUS para trás representam um enorme retrocesso. Sem compromissos com a melhoria das condições de vida e saúde, sem compreensão sobre as necessárias relações respeitosas entre humanos e ritmos da natureza é inviável atender interesses profissionais, por mais legítimos que sejam. É um sistema de saúde abrangente e qualificado que permite o trabalho digno. Sem SUS prevalece o cinismo. Lígia Bahia Professora da UFRJ, especialista em Saúde Coletiva e vice-presidente da Adufrj

Otávio Velho, professor Emérito do Museu Nacional da UFRJ Neste momento grave que atravessamos, é extremamente importante afirmar a centralidade da universidade pública na vida nacional. Ainda mais quando nos últimos anos a sua composição vai aos poucos finalmente encontrando toda a diversidade que caracteriza o país, sendo para os antropólogos particularmente grato constatar a crescente — embora ainda muito insuficiente — presença negra e indígena em seus quadros. Essa abertura também torna a universidade um elemento estratégico para que a democracia se transforme numa vivência autêntica para todos e que permita defendê-la das ameaças que rondam o nosso frágil equilíbrio institucional. E também só assim teremos a esperança de encarar o autoritarismo estrutural que está na base desse e de outros problemas e que tanto dificulta uma convivência equilibrada e justa.

Não resisto a iniciar este artigo comentando o recente fato absurdo de, por ordem da Justiça, ter sido removida pela polícia uma faixa fixada no interior do campus da Universidade Federal Fluminense (UFF) com os dizeres “Direito da UFF Antifascista”. As conclusões desse fato são: 1- Houve uma arbitrariedade policial a mando da Justiça contra a autonomia da Universidade, tratada como equivalente a logradouros públicos em geral, contra o que protestei em artigo na imprensa há tempos atrás. 2- Se o antifascismo no Brasil é julgado ser um crime, logo o correto segundo a Justiça é ser fascista. 3- Se a faixa foi vista como uma manifestação não apenas contra a ameaça fascista mas a favor do candidato Haddad, então a Justiça entende que o candidato Bolsonaro é fascista. Essa constatação indica que o autoritarismo extremista de direita já vigora no atual governo, originado de um golpe parlamentar que depôs a presidente Dilma, legitimamente eleita e honesta. À primeira vista isto pode parecer contraditório com o medo que inspira a possível eleição do seu sucessor de extrema direita. A contradição é esclarecida se consideramos que há uma continuidade entre Temer e Bolsonaro, embora com métodos politicamente mais radicais. Ela é explícita pela política econômica neoliberal de ambos, daí o apoio do empresariado ao candidato da direita. E há o papel parcial e conservador da Justiça em geral, salvo honrosas exceções, contra a esquerda e a democracia. A operação lava-jato eliminou a candidatura de Lula, primeiro colocado na pesquisa eleitoral, condenado por ter recebido de uma empresa um apartamento que não recebeu. Repete-se como uma farsa trágica o exemplo histórico da Itália: a operação “mani pulite” levou Berlusconi ao poder, como a operação lava-jato leva Bolsonaro a ganhar a eleição, alavancado por consultoras de implantação de fake news por robots informáticos, em nome do combate à corrupção. Esta última de fato existe há muito tempo e o PT no poder não a impediu como demonstraram os lamentáveis episódios na Petrobras, apesar do apoio que deu ao Ministério Público e da criação da Controladoria Geral da União (CGU) em nível de ministério. Mas, também em nome do combate à corrupção, a direita e o presidente Carlos Luz tentaram impedir a posse do presidente eleito Juscelino, garantida pelo general Teixeira Lott, um militar nacionalista apoiado pela esquerda, pela qual concorreu depois a presidente da República. O que esperar então do próximo governo com Bolsonaro? Em primeiro lugar haverá uma combinação de direitismo extremado com liberalismo econômico. Os exemplos de direitismo de Trump nos EUA e de Marine Le Pen na França são ambos nacionalistas, embora esta palavra nos países ricos tenha significado diferente do que significa em países não desenvolvidos como o Brasil. Trump proclama “America first”, enquanto Bolsonaro faz continência para a bandeira norte-americana e promete privilegiar as relações com os EUA e reduzir as taxas de importação de produtos norte -americanos. Quanto às privatizações anunciadas pelo seu assessor Paulo Guedes, elas foram desmentidas pelo candidato pelo menos das empresas vistas como estratégicas. Muito preocupante é a defesa pelo candidato da tortura e da perseguição política praticadas pela ditadura militar originada do golpe de 1964, contra as quais teremos de nos mobilizar na sociedade para que não voltem pelas mãos de seus seguidores mais radicais. E um deles assassinou um mestre de capoeira na Bahia por se declarar eleitor de Haddad. Luiz Pinguelli Rosa Professor Emérito da Coppe

Topo