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Antonio Brasil Jr.
Chefe do Departamento de Sociologia
- Jornal da AdUFRJ: A atual conjuntura impõe desafios à Sociologia?
Permanentemente. A conjuntura atual, diante da última reforma do Ensino Médio, editada no governo Temer, traz novamente uma insegurança sobre a própria presença do curso de Sociologia no Ensino Médio. Este é um dos maiores anseios dos alunos de Ciências Sociais, sobretudo do curso noturno de licenciatura. Só em 2008 disciplina é colocada como obrigatória e em apenas dez anos está novamente ameaçada. Simultaneamente, temas de pesquisa ligados à questão da violência policial, gênero, memória e ditadura, por exemplo, importantes na nossa tradição de pesquisa, estão sendo duramente atacados por certos núcleos do governo atual. Então, são realmente muitos desafios. Por outro lado, sem a visão de conjunto e de processo que as Ciências Sociais permitem, a gente não consegue criar um bom diagnóstico sobre a crise do presente. Estamos numa situação muito vulnerável, mas, ao mesmo tempo, sua importância nunca foi tão urgente.
- Que caminhos a sociedade e a universidade podem traçar para apoiar as Ciências Sociais?
Há uma grande tarefa de fundo que é a comunicação entre as Ciências Sociais e a sociedade. Sem essa comunicação, não há como imaginarmos que haverá uma defesa substantiva por parte da sociedade e até mesmo de órgãos da sociedade civil. Desde os anos 1950 – com particular destaque no período que acompanhou a redemocratização do país na década de 1980 – houve uma forte interação entre as ciências sociais e a sociedade via comunicação pública: artigos de jornal, contatos com sindicatos, movimentos sociais. Parece-me que algo desta vocação “pública” se arrefeceu nos últimos anos. Então, a única forma de sensibilizar a sociedade sobre a importância das Ciências Sociais é elas estarem mais presentes na vida cotidiana das pessoas. Isso é um grande desafio, que envolve divulgação científica, presença mais marcante nos debates públicos. Não sei se a saída é exatamente voluntarista, porque não sei se os canais estão abertos para isso.
- Como o senhor vê esta interação entre as Ciências Sociais e a sociedade?
Há muita segmentação entre a publicação científica, propriamente dita, e os demais tipos de comunicação dos resultados de nossas pesquisas. Nós somos muito pressionados a atuar neste tipo de comunicação científica – o artigo –, que circula basicamente entre os próprios pares. Ao mesmo tempo, a divulgação científica claramente tem um espaço menor no nosso investimento de carreira, nas nossas formas de avaliação de produtividade. Esta seria uma dimensão mais interna do problema. De outro lado, grande parte do debate público está fortemente colonizado por economistas e outros especialistas sobre o social. E que têm também visões muito próprias sobre as questões do país. Para haver uma interação maior com a sociedade, seria necessário que certos temas tivessem mais ressonância no debate público, sobretudo os temas ligados à desigualdade em todos os seus níveis. De 2016 para cá, percebo claramente que estes temas saíram da pauta dos grandes debates do país, ou pelo menos da grande mídia. E se a gente pensar nos grandes nomes que construíram o curso, todos eles tinham forte inserção na vida pública. Precisaríamos de algum movimento de reconexão.
- O desprestígio econômico pode afetar essa ampliação dos canais de interação com a sociedade?
Não sei se isto se traduziria automaticamente, mas é claro que no cenário contemporâneo, neste ponto também somos muito vulneráveis. Nós somos cronicamente dependentes do financiamento público e há uma orientação em curso que pretende concentrar o investimento em campos de conhecimento que tenham alto fator de impacto. Impacto este medido por certas métricas, como produção de artigo científico, citação em grandes bases indexadoras, número de patentes, relação com a indústria, que nas Ciências Sociais não possui a mesma centralidade. Vale lembrar que o impacto de certos achados da Sociologia, quando ganha expressão em movimentos sociais, partidos, correntes de opinião é impressionante, mas não é mensurável. E isto revela um processo mais amplo, que é a luta pela persuasão na sociedade sobre a importância das Ciências Sociais. Esta não é uma dificuldade exclusiva do Brasil, mas um problema global.
- Esse movimento contrário às Ciências Sociais se deve ao fato de não se conhecer o que ela produz, ou ao fato exatamente de conhecer seu potencial transformador?
Talvez as duas coisas. Uma forma de tornar as Ciências Sociais vulneráveis é a própria indiferença em relação aos seus achados, embora os impactos possam ser imponderáveis sobre a vida social; por outro lado, essas áreas de pesquisa têm em suas agendas temas sensíveis, como violência urbana, memória, desigualdades – eles exprimem também um processo de disputa cultural sobre a mudança social. Nesse caso, grupos do atual governo estão disputando, tentando reenquadrar estes temas a partir de um outro eixo de valores. Há, então, uma disputa cultural no cerne desta questão. As Ciências Sociais também operam nessa disputa pelo controle da mudança no plano cultural. Enfim, este é um caso típico da reflexividade do conhecimento sociológico. Mostrar que gênero é uma construção social, por exemplo, reverbera no processo social e acaba sendo um dos vetores fundamentais dessa pluralização das identidades de gênero no mundo contemporâneo. As Ciências Sociais têm papel fundamental neste debate e sofre com os ataques a este tipo de formulação.
- É um desafio para o senhor estar neste momento político à frente do Departamento de Sociologia?
É um desafio em vários níveis. É um curso que completou 80 anos do curso de bacharelado e 10 anos do curso noturno de licenciatura, que deu muito certo e hoje é avaliado com conceito máximo pelo Ministério da Educação. Mostra que é um curso que está sabendo se democratizar, se renovar. Está tentando fazer face aos desafios do presente, pensando reformas curriculares, com grande renovação do seu quadro docente. Mas é um desafio grande em termos de recursos para a manutenção da excelência do curso; pensar formas de combater a evasão do curso, diante de um cenário de tantas incertezas sobre a profissão e a própria universidade pública. Só a reflexão coletiva vai poder traçar como enfrentar esses desafios.
- A evasão estudantil é um dos reflexos também da limitação de políticas públicas de acesso e permanência. Como o curso enxerga esses sujeitos e trabalha esta questão da assistência?
É uma preocupação constante e é muito agravada pela própria instabilidade da Sociologia no Ensino Médio, que seria a vocação natural da licenciatura. É muito delicado e difícil pensar o curso numa situação de incerteza sobre sua atuação no ensino médio. É um desafio muito crucial. Porém, nossa tradição em pesquisa, com forte presença já na iniciação científica, pode (e deve) contrabalançar essa tendência, motivando os alunos para o curso e para a carreira científica – como já demonstrado em pesquisas especializadas sobre o assunto.
- Todos os dias vemos enxurradas de ataques em diferentes áreas e contra o saber. Como resistir?
Há estudiosos que veem nessa enxurrada também um método de governo, e não uma simples “gestão do caos”. Aliás. este é um desafio crucial do nosso tempo. As estratégias políticas mudaram também com este novo ambiente que é a vida on line, que revolucionaram as bases da vida social. Talvez as formas de controle político e censura não passem mais pelo controle material da informação e sim pela difusão imensa de contrainformações. O cerne do problema não é mais o “acesso” à informação, mas a disputa por sua seleção, filtragem e difusão. É um desafio importante da Sociologia hoje pensar como essas formas de controle, inclusive de controle cultural, se estruturam neste ambiente de inaudita complexidade.
- Classicamente a gente associa a censura à não informação.
Sim, a forma clássica da censura implica o “sequestro” da informação. Mas num contexto em que as informações colocadas on line são praticamente inapagáveis, como diminuir o alcance de uma mensagem? Não pode ser mais pelo sequestro e sim por outras vias, como as enxurradas de informações.
- As fake news são parte disso, então?
Sim. E se pensarmos numa dimensão mais ampla, há uma espécie de cultura anti-institucional generalizada. É uma espécie de triunfo de uma cultura do amador. Há uma aparência de democratização nesse processo, pois se coloca no mesmo patamar formas de conhecimento que possuem exigências muito desiguais – por exemplo, pesquisas científicas e correntes de whatsapp, apenas para citar o mais trivial. Mas aparência apenas, pois a desigualdade implicada nas formas de circulação do conhecimento científico se reitera. Isso coloca desafios novos à Sociologia, e ao próprio conhecimento científico em geral.
Thaís Aguiar
Chefe do Departamento de Ciência Política IFCS
Jornal da AdUFRJ – Como é estar à frente do Departamento de Ciência Política numa conjuntura de tantos ataques às Ciências Sociais?
Primeiro, é uma honra. Nem todas as universidades têm um curso de 80 anos. E estamos numa universidade centenária, que é a UFRJ, uma das maiores do Brasil. É uma responsabilidade, também, manter o departamento à altura da qualidade e do prestígio da UFRJ, nesta conjuntura totalmente desfavorável à produção de conhecimento e à manutenção da universidade. Um bacharelado que já teve grandes nomes das Ciências Sociais, com gente do quilate de Darcy Ribeiro, Vitor Nunes Leal, José Américo Peçanha, Wanderley Guilherme dos Santos e tantos outros. É um momento em que vivemos a necessidade de nos defender de tantos ataques, de campanha de difamação por parte de setores do governo que voltam a sociedade contra nós, num ambiente de escassez de recursos econômicos e de desmonte da universidade pública, gratuita e democrática.
- O momento político no Brasil e na América do Sul traz um desafio maior à Ciência política?
Com certeza. Esses ataques contra as Ciências Sociais não são gratuitos. Eles têm relação com uma onda anti-intelectualista, contrária à produção e difusão do conhecimento. E isso não é uma peculiaridade brasileira, nem latino-americana. É mundial. Trata-se de um ataque ao avanço da democracia real, da democratização da sociedade. Pensando especificamente na Ciência Política, é de sua natureza analisar criticamente as formas de poder, as formas de arbítrio; questionar a prática das instituições; pensar as formas de governo. E isso desafia muito as forças conservadoras, neoconservadoras e neofascistas. Se a gente está num ambiente de avanço do neoliberalismo e de um capitalismo financeiro contra as forças de democratização, a gente tem que lembrar que historicamente as Ciências Sociais tratam de assuntos pouco mercantilizados e pouco domáveis por parte do poder. Prestam-se menos às formas de mercantilização do saber.
- Daí a necessidade de silenciar estas áreas...
De deslegitimar, calar, difamar, de sufocar qualquer voz crítica a essas forças neoconservadoras.
- Muitos críticos apontam que as ciências ditas “duras” conseguem captar mais recursos financeiros porque apresentam produtos mais palpáveis à sociedade. Como reflexo desse pensamento, o governo chegou a anunciar redução de investimentos nas Humanidades. Como combater esse pensamento?
É uma visão utilitária e mercantilista do que é ciência, do que é saber, do que é conhecimento. As Ciências Sociais não devem se prestar a essa função. Essa visão de que as Ciências Sociais trazem pouco retorno social é estreitíssima e está vinculada a esta guerra cultural estabelecida por forças neoconservadoras, neoliberais, contra tudo aquilo que põe em perigo o status quo. As Ciências Sociais precisam estar, mais do que antes, engajadas e sintonizadas com as demandas da sociedade. É preciso desvelar o que tem por trás de discursos que deslegitimam e que querem pensar as Ciências Sociais sob o ponto de vista utilitarista. Talvez, nos últimos anos, a universidade tenha se entregado a processos de quantificação do saber, de metas e de certa maneira, absorveu critérios típicos de ambientes empresariais. E, cedendo a essas pressões, tenha se distanciado um pouco da sociedade. É um momento de pensarmos criticamente sobre o nosso papel e sobre como, nesse ambiente de difamação, podemos evidenciar nossa estreita relação com a sociedade. Estamos enfrentando forças muito aterradoras e as Ciências Sociais precisam manter o seu prumo que sempre foi o de analisar a sociedade, pensar criticamente as formas de governo. Nada mostra melhor a importância das Ciências Sociais e Políticas hoje do que a série de revoltas, de protestos, de insatisfação e descontentamento da sociedade pela América Latina e pelo mundo com as forças institucionais, com as forças de poder, contra uma certa maneira de atuar do Estado. Se olharmos para isto, se torna evidente a importância e o retorno social que as Ciências Sociais podem oferecer. De que adianta termos sociedades “altamente” desenvolvidas em termos macroeconômicos, se são sociedades conturbadas, revoltadas e vítimas de doenças emocionais e mentais, depressivas? Tudo isso fala das formas de atuação do Estado.
- Temos um tecido social cada vez mais degradado...
Muito. Este é um momento de acirramento de desigualdades comparado ao século XIX, de avanço da barbárie. De louvor à tortura e à censura, de elogio à ignorância e de cultivo dos afetos mais passivos da sociedade. Então, o papel das Ciências Sociais é enorme, de fazer com que a sociedade e suas instituições consigam resgatar a consciência reflexiva sobre si mesmos e buscar o caminho da emancipação, da igualdade, da democracia.
- Nosso país fez uma transição democrática marcada pela Constituição Cidadã, mas que vem sendo desidratada nos últimos anos.
Agora o que a gente vive é justamente o ataque a esta Constituição de 1988. Ela está sendo totalmente desfigurada. Se ela já tinha dificuldades de se manter para além da letra da lei, ou seja, efetivar toda promessa, toda esperança que ela incutiu na sociedade, o desafio maior é agora, em que a gente não está mais nos padrões de desenvolvimento capitalista, como estava na década de 80. Alguns estudiosos dizem que o capitalismo não tem mais perspectiva de atingir altos patamares crescimento econômico como no século XX. O que fazemos diante deste quadro? Ou a gente faz uma divisão real dos recursos, com formas de governo mais democratizadoras, ou o capitalismo tal qual é hoje segue produzindo mais desigualdade e colapso social. Há estudiosos que apontam a necessidade de reformular o Estado de bem-estar social. Isto demanda formas de profunda articulação democrática na sociedade e é isto que as forças neoliberais e neoconservadoras querem frear.
- As Ciências Sociais completaram 80 anos na UFRJ, mas seu debate segue atual. A sociedade e a própria universidade precisam defender mais a área?
Por que é atual? As Ciências Sociais são de suma importância, principalmente num país como o nosso, com instituições jovens, com uma democracia muito incipiente e com desigualdades gritantes. O currículo da UFRJ, ao longo dessas décadas, passou por modificações e acompanhou o movimento e as demandas da sociedade. Por um tempo, por exemplo, havia forte presença da economia no currículo. Isso mudou ao longo das décadas, conforme as demandas sociais foram se colocando. Então, essa necessidade de atualidade e o cenário político interpelam as Ciências Sociais ao mesmo tempo em que as Ciências Sociais interpelam o mundo em que estamos vivendo. Precisamos disso para não reproduzirmos formas perversas de poder, formas autoritárias de governo, formas degradantes de vida social.
- É uma defesa desse tecido social?
Sim. Sobretudo das classes menos favorecidas.
- Resumiria que esta é a função das Ciências Sociais?
Se não é, deveria ser. A universidade, no Brasil, sempre teve um comprometimento social. Esse prédio aqui, os professores que estiveram aqui durante a ditadura, a evidência da importância deles para o pensar social era enorme. Tanto que eles eram perseguidos. Tanto que as forças autoritárias da ditadura estavam circulando aqui dentro e reprimindo. A gente precisa manter esse espírito de defesa social. E quando falo social, eu falo, sobretudo, pensando naqueles que têm “aparentemente” menos poder, que são as classes mais pobres. Se a universidade não estiver atenta a este segmento, pensando as formas de Estado, de governo, pensando a produção de políticas públicas, compreendendo os processos de desigualdade que vigoram nesta sociedade, quem vai estar? É aí que está o papel das Ciências Sociais, se conjugando sempre a outras áreas do saber.
O Observatório do Conhecimento é uma rede formada por 13 Associações e Sindicatos de docentes de universidades federais e estaduais de diversos estados brasileiros. A AdUFRJ é uma das fundadoras. O Observatório nasceu em março de 2019 com o objetivo de articular a defesa da universidade pública, gratuita e de qualidade e da liberdade acadêmica. É uma iniciativa suprapartidária e independente, para enfrentar os cortes de investimentos, além de monitorar e denunciar políticas de perseguição ideológica a reitores, professores, alunos e pesquisadores. Também é tarefa da organização produzir materiais e estudos sobre temas relacionados às políticas públicas de educação e C&T. Além da atuação política, as associações docentes participantes do Observatório do Conhecimento apoiam e realizam eventos nos campi e locais parceiros para engajar estudantes, professores e trabalhadores das universidades.
Tatiana Bacal
Chefe substituta do Departamento de Antropologia Cultural
Jornal da Adufrj - Num momento de tantos ataques ao conhecimento, as Ciências Sociais ganham importância?
As ciências sociais ganham protagonismo para entender este governo diante de um sistema global e também histórico no Brasil. Do papel da internet na vida privada, passando pelos movimentos de direita ao redor do mundo, até a relação do Brasil com o negacionismo histórico, entre outros, são todos fenômenos a serem compreendidos pelas lentes das Ciências Sociais.
- A senhora considera que a Antropologia corre risco no Brasil? De que natureza?
Quando se cortam financiamentos, se dificulta a produção do saber e, assim, se corta um círculo virtuoso que existe na ciência brasileira desde a década de 1960, quando se estruturam, por exemplo, as pós-graduações na antropologia.
- O curso de Ciências Sociais completou 80 anos na UFRJ. Qual sua importância na contemporaneidade?
O curso de Ciências Sociais tem a importância na criação de cidadania, das pessoas se tornarem sujeitos de seus destinos num país democrático.
- Alguns grupos brasileiros estão em especial situação de vulnerabilidade no Brasil atual: quilombolas, indígenas, moradores de favelas - sobretudo sua juventude negra. Como isto afeta a Antropologia?
A vulnerabilidade especial destes grupos afeta diretamente a antropologia porque historicamente nossa disciplina se formou trabalhando em colaboração e ao lado de grupos minoritários. Refletir sobre o Brasil significou e ainda significa pensar relações entre grupos minoritários com a sociedade abrangente. Temos que também levar em consideração que há uma juventude negra com especial protagonismo nas universidades públicas e principalmente nos cursos de ciências sociais e humanas, demonstrando que há uma mudança histórica em curso e apesar dos ataques sofridos pelo atual governo às nossas áreas de saber.
- É papel da Antropologia, além de entender, contribuir para a defesa desses grupos?
Se o papel da antropologia como projeto é o de entender outras cosmologias, ao se propor a compreender os grupos que estuda também gera um efeito propulsor da sociedade entrar em contato com outras possibilidades de habitar este mundo. Nesse projeto se aumenta a visibilidade de grupos "invisíveis" e, nesse contexto, contribuir para sua defesa.
- Como resistir às investidas autoritárias contra as ciências humanas de maneira geral?
É possível resistir no cotidiano de nossas atividades acadêmicas, na ampliação e compartilhamento de conhecimento e pensamento crítico.
Christine Ruta - Foto: Alessandro Costa/Arquivo AdufrjAté hoje apenas quatro cientistas receberam duas vezes o prêmio Nobel, a mais famosa premiação em ciência, entre eles uma mulher. Marie Skłodowska-Curie, ou como é mais conhecida Marie Curie, não somente foi a primeira pesquisadora nomeada para um Nobel, como também foi a primeira pessoa a receber dois prêmios e em duas disciplinas diferentes. Nascida em Varsóvia, a jovem Marie frequentou a secreta “Universidade Volante”, onde os cursos eram ministrados clandestinamente em resposta às proibições na Polônia daquela época. Marie em sua eterna busca pelo conhecimento, sempre sonhou em ter um diploma universitário. Diante dos obstáculos em acessar a universidade em seu país, uma única solução se apresentava para Marie: partir. Em 1883, ela diplomou-se em física, na Sorbonne, em Paris, e o final da história já é bem conhecido...
A história da Marie Curie só é conhecida porque antes houve o esforço para se construir a “Universidade Volante”. No Brasil, também já tivemos nossa era de universidades volantes e nossas Maries-Marias. Entre os anos de 2008 e 2018, observou-se um notório crescimento de 33,8% no número de matrículas em cursos de graduação da rede pública. Entretanto, o percentual de matrículas na rede privada é ainda maior, 75,4%, reflexo da presença majoritária de instituições particulares (88,2%) no nosso país.
A rede federal foi a única das categorias públicas que apresentou um aumento (89,7%) no número de matrículas nesse período, sendo o Programa de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (REUNI) a principal política pública responsável por esse crescimento. Foi nesse contexto que surgiu o Instituto de Biodiversidade e Sustentabilidade e o Curso em Licenciatura em Ciências Biológicas. Foi a primeira experiência de interiorização da UFRJ, com uma identitade de pioneirismo e inovação.
Os primeiros docentes do Nupem chegaram entre os anos de 2006 e 2007, formando o grupo apelidado de “G13”: Alexandre de Azevedo, Ana Petry, André Morandini, Angélica Soares, José Nepomuceno, Lísia Gestinari, Mario Schultz, Tatiana Konno, Fabio Di Dario, Heitor Duarte, Laura Weber, Pablo Gonçalves, além de mim mesma, que hoje estou no Instituto de Biologia no Fundão, participo de outros projetos acadêmicos, mas levo o Nupem no Lattes e no coração como uma experiência formadora inesquecível.
Nossos laços do G13 tiveram como amálgama o acolhimento carinhoso do Prof. Francisco de Assis Esteves, o Chico, que foi o mentor deste importante passo na expansão, democratização e interiorização da nossa Universidade.
MERIANE DE PAULAestudante do Nupem é a primeira mestre de sua família. Bisneta de quilombolas de Quissamã, ela não precisou deixar sua cidade natal para realizar o sonho de cursar uma universidadeJuntos, esses docentes vivenciaram uma experiência indescritível que foi a implantação das bases do trinômio ensino-pesquisa-extensão em uma instituição fora da capital. E no caso, base tem um significado bastante literal: os docentes se reuniam em grupos de trabalho para planejar e desenhar as plantas do segundo pavilhão, que mais tarde abrigaria os novos laboratórios de pesquisas e salas de aulas. Também aprenderam nas atividades acadêmicas cotidianas a trabalhar seus saberes de forma integrada e interdisciplinar, sempre tendo como norteador a simbiose com a sociedade do Norte Fluminense.
Apesar do princípio de indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão que rege as universidades, na prática é muito difícil a integração acadêmica entre as diferentes áreas. As características do Nupem sempre foram naturalmente propícias ao surgimento de ações integradas. Um exemplo é a criação em 2009 da Semana de Integração Acadêmica em Macaé, que inspiraria a UFRJ a criar em 2010 a sua própria SIA. Outro exemplo notável é a atuação dos alunos da Pós em Ciências Ambientais e Conservação em ações de gestão e sustentabilidade inspiradas nos ambientes naturais que tiveram impacto na política regional.
Foi nesse habitat que surgiu uma de nossas Maries, a Meriane dos Santos de Paula. Filha de vigilante, neta de plantador de cana e bisneta de quilombolas de Quissamã, que se tornou orgulhosamente a primeira mestre da sua família simples e guerreira. Foi essa versão tropical goytacá de nossa “Universidade Volante” que abriu as portas para centenas de jovens realizarem o sonho semelhante ao de Marie Curie sem terem que “partir” de seu país. “O Nupem me deu a oportunidade de ter acesso a um conhecimento e formação que seriam inviáveis de serem custeados com recursos própios na capital”, resume a mestre Meriane.
Histórias como essas são comuns no Nupem, que teve seu início marcado pelas viagens de Kombi e os acampamentos do Chico e de seus alunos motivados em pesquisar os ecossistemas costeiros da região, como uma universidade volante goytacá, legal, mas igualmente precária, que se transformou e vem formando muitas maries brasileiras.
CHRISTINE RUTA
Professora da Biologia, uma das fundadoras do Nupem e diretora da AdUFRJ