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Não tem mais volta. Os protestos de rua que tomaram o país em 3 de julho mostraram que os verdadeiros brasileiros de bem estão dispostos a gritar “Fora, Bolsonaro” até que o pior presidente da história do Brasil saia do poder, seja por um processo de impeachment, seja pelo voto, nas eleições do ano que vem. Os atos vêm ganhando força mês a mês, e não só nas grandes capitais, mas também em cidades de médio e pequeno portes de todas as regiões. E o próximo encontro nas ruas em defesa da democracia, da vida e da ética já está marcado: 24 de julho.

“É um movimento crescente, assim como nossa indignação. E há um componente muito interessante. Os atos de 29 de maio e 19 de junho, como não poderia deixar de WhatsApp Image 2021 07 09 at 21.57.404ser, tinham um tom de tristeza pelas mortes da covid-19. E esse ato de 3 de julho mostrou que essa tristeza continua, mas ela já vem acompanhada por uma afirmação mais visível de esperança, de luta, de acreditar que é possível mudar o país, sobretudo pela força da juventude, com seus batuques, sua criatividade. Isso é muito importante”, avalia a presidente da AdUFRJ, professora Eleonora Ziller. Ao lado de outros diretores e de associados da AdUFRJ, Eleonora marcou presença no ato do Rio, cujas fotos ilustram essa página, e que mais uma vez partiu do simbólico Monumento a Zumbi dos Palmares, no Centro.

Presente ao ato da Avenida Paulista, na capital paulistana, o cientista político Josué Medeiros, diretor da AdUFRJ, observa que as ruas têm papel fundamental na derrubada do governo Bolsonaro, responsável por ações e omissões no combate à pandemia de covid-19 que já levaram a vida de mais de 530 mil pessoas. Mas enxerga outros indícios de enfraquecimento do presidente. “Acho que a indignação vem crescendo e isso pode ser comprovado de diversas formas. Pelas pesquisas de opinião mostrando a reprovação do governo Bolsonaro, que bate recorde atrás de recorde. Por setores do Congresso que começam a aderir ao impeachment, como o Partido Novo, recentemente. E pelo termômetro das ruas, que é um indicativo importante”, diz Josué.

Além da CPI do Senado, que vem recolhendo indícios de corrupção do governo no enfrentamento à pandemia, as duas mais recentes pesquisas de opinião, ambas do Instituto Datafolha e divulgadas esta semana, mostram a desidratação da imagem presidencial. Na quinta-feira (8), a primeira delas revelou que a reprovação ao governo chegou a 51%, a pior marca registrada desde o início do mandato, em janeiro de 2019. Na pesquisa anterior, de maio, esse índice era de 45%.

Já nesta sexta-feira (9), o Datafolha divulgou mais uma pesquisa de intenção de voto para presidente em 2022. Nela, Lula (PT) ampliou sua vantagem sobre Bolsonaro. NaWhatsApp Image 2021 07 09 at 21.57.411 simulação de primeiro turno, Lula fica à frente de Bolsonaro por 46% a 25%, na pesquisa estimulada, e por 26% a 19%, na espontânea. No segundo turno, Lula bateria Bolsonaro por 58% contra 31%. Na pesquisa anterior, tinha 55% contra 32%.

O dia 8 de julho é o Dia Nacional da Ciência e do Pesquisador. A data foi escolhida para homenagear a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) em sua data de fundação. Em 2021, a celebração do dia ganha uma importância ainda maior, já que a Ciência e a pesquisa no país são vítimas de constantes ataques do governo Bolsonaro. No mês passado, o cientista político e professor de Filosofia Renato Janine Ribeiro foi eleito para a presidência da SBPC. Nesta entrevista exclusiva ao Jornal da AdUFRJ, o professor defendeu que é preciso “o leque mais amplo de alianças que deem importância à Ciência e à Educação, mas também à Cultura, à Saúde e ao Meio Ambiente”.

O paulista Renato Janine Ribeiro é professor titular de Ética e Filosofia Política da FFLCH-USP e foi ministro da Educação no governo Dilma Rousseff (2015). Na entrevista, o presidente eleito — que toma posse no próximo dia 23 — defendeu o papel histórico da SBPC na defesa dos direitos humanos, fez um balanço da gestão da Educação do governo Bolsonaro e falou dos principais direcionamentos que deverão balizar sua gestão à frente da SBPC.

ENTREVISTA I RENATO JANINE RIBEIRO

  • Jornal da AdUFRJ — Qual é a importância de celebrar o Dia Nacional da Ciência e do Pesquisador em um contexto de ataques tão fortes à Ciência?
    WhatsApp Image 2021 07 09 at 21.57.402Renato Janine Ribeiro — Estamos em uma situação muito difícil. Há toda uma campanha contra a Ciência. Há um descaso com a Ciência por parte do próprio governo, com afirmações às vezes sem base científica nenhuma, falta de uso de máscara, as aglomerações que o presidente promove. Como pode haver alguém que seja contra a Ciência? Podem existir polêmicas e divergências dentro das ciências, mas ser contra é outra história. Por que não estamos na catástrofe de 1920? Naquela pandemia, morreram entre 50 e 100 milhões de pessoas, em um mundo que tinha 25% da população atual. Morreram de 3 a 5% das pessoas que viviam na época, 5% dos mortos de 1920 equivaleriam a 400 milhões de mortos hoje. Nós tivemos até agora 4 milhões de mortes. Um número deplorável, mas inferior ao que foi em 1920. E por que tivemos tão menos mortos? Em boa parte, graças ao avanço científico e tecnológico e à internet. Um avanço científico gigantesco, que permitiu o desenvolvimento dessas vacinas. Termos conseguido uma dúzia de vacinas, no espaço de 12 meses, é uma coisa totalmente sem precedentes. Ninguém poderia imaginar termos vacinas tão rápido para uma doença desse porte. São grandes ganhos. É fantástico. É muito espantoso haver uma resistência à Ciência.

Quais foram as estratégias de retórica usadas pela extrema direita para associar a Ciência à esquerda e desacreditá-la?
A Ciência, 30 anos atrás, estava vinculada à bomba atômica. Foi o que ela fez de mais importante nos anos 1940 e 1950. A Ciência estava ligada à guerra. Hoje, ao falar de Ciência, se fala de meio ambiente. Mudou completamente o vínculo da Ciência, pelo menos o vínculo público. Tínhamos uma Ciência ligada ao Pentágono e às forças armadas soviéticas. O avanço da Ciência, até os anos 1980, estava estritamente ligada com o meio militar. E hoje, quando você ouve um cientista se manifestando, ou é sobre a covid-19, ou é sobre o meio ambiente. O físico Paulo Artaxo, por exemplo, que foi eleito para a vice-presidência da SBPC, fala muito sobre meio ambiente. A Ciência ficou muito vinculada com causas éticas. Se há 60 anos a Ciência estava vinculada à guerra, hoje ela está ligada à paz. Essa é uma mudança grande. A SBPC, desde praticamente a sua fundação, assumiu todas as causas éticas no Brasil. A luta contra ditadura, a luta pelo impeachment de Collor. A SBPC é uma sociedade voltada para a promoção das ciências vinculadas com causas éticas.
 
Os ataques à Ciência estão mais evidentes com a pandemia, mas as ciências humanas são alvo desses ataques há mais tempo. Essa vinculação das ciências humanas aos direitos humanos facilitou esse discurso anticiência?
Facilitou, claro. As ciências humanas inevitavelmente vão lidar com o fenômeno da desigualdade social. E quando você lida com a desigualdade social, você se defronta com questões da miséria, uma coisa profundamente injusta, e com a desigualdade de oportunidades. Uma sociedade capitalista é uma sociedade de desigualdade. Mas dentro do capitalismo há sociedades onde as pessoas têm mais oportunidades, podem prosperar pelo mérito e uma série de fatores, e há sociedades nas quais as pessoas sequer têm condições de descobrir suas vocações. Essas vocações são assassinadas no berço. Isso não tem como você mascarar. Qualquer trabalho de ciências humanas vai mostrar. Temos no Brasil uma situação de tal injustiça, que não tem como ser ocultada. Mesmo os cientistas sociais mais de direita não têm como ocultar a desigualdade.

A sua gestão como presidente da SBPC vai trazer a desigualdade e os direitos humanos para o centro das discussões?
A SBPC sempre tratou dessas questões, e elas vão continuar sendo tratadas. Isso não é novidade e não vai se modificar. Na atual gestão, do professor Ildeu [de Castro Moreira], a SBPC está sempre em diálogo com a OAB, com a CNBB, com a Associação Brasileira de Imprensa e com a Comissão Arns. Todas essas entidades têm em comum a defesa dos direitos humanos. Vamos continuar trabalhando assim, não vai ser uma novidade.

A Educação brasileira vive uma crise sem precedentes. O senhor foi ministro da Educação. Pode fazer um diagnóstico da crise e quais seriam as possíveis saídas para ela?
Eu poderia dizer que, basicamente, temos uma crise por falta de projeto. O atual governo não tem um projeto para a Educação. Desde o governo Itamar Franco, há uma ênfase muito grande na educação básica. Essa era a principal preocupação do MEC. O que se percebe, desde os anos 1990, é que se o governo federal não entrar na educação básica, vai ser muito difícil. No governo Fernando Henrique começou o Fundef, e o governo Lula expandiu, chamando de Fundeb e ampliando de oito para 14 os anos escolares cobertos pelo fundo. Uma série de políticas que foram conduzidas desde os anos 1990, e que tiveram continuidade nos governos Lula e Dilma, e até mesmo com o Temer, embora tenha começado aí uma certa crise desse modelo. No tocante às universidades, a diferença era muito grande, porque o PSDB sempre defendeu mais o setor privado no ensino superior, e o PT o ensino público. Com a chegada do Bolsonaro estamos diante de uma falta de projeto para a Educação. Se você vê a lista de projetos apresentados por Bolsonaro depois da posse, o único vinculado à educação é o de homeschooling, uma causa que afeta cinco mil famílias em um universo de 40 milhões de alunos da educação básica. Quando eles assumiram, falaram o óbvio de priorizar a educação básica. Há 30 anos se diz isso. Eles não sabiam o que dizer, então pegaram o que está em todos os textos. Não à toa, quando veio a pandemia, o governo não exerceu nenhuma liderança na Educação, como não exerceu na Saúde. Temos um governo federal que não tem políticas sociais.
 
No domingo, a Capes completa 70 anos, vivendo talvez um dos seus momentos mais difíceis, sem recursos para a pesquisa. Esse quadro tem reversão?
Tem, mas quanto mais tempo demora para reverter, mais caro vai ser e com efeitos irreversíveis. Quando as bolsas são cortadas, o bolsista, se tiver condições, vai tentar ir para o fora do país e continuar sua pesquisa lá. Com isso perdemos um cérebro que estamos formando desde a infância. E pode ser que ele não volte. Hoje se fala cada vem mais na perda de cérebros. Podemos perder porque o pesquisador foi embora, ou porque ele desistiu da carreira.

Como planeja que seja a sua gestão à frente da SPBC?
São dois pontos básicos que temos que manter. Um é a luta em defesa de todo o patrimônio que o Brasil construiu. Esse é o ponto prioritário. Nesse momento temos que conseguir o leque mais amplo de alianças que deem importância à Ciência e à Educação, mas também à Cultura, à Saúde e ao Meio Ambiente. Isso é muito difícil, até porque, nesse ano e meio que falta de governo, ainda pode piorar muito a situação. Outro ponto que temos que deixar muito claro é que apesar do pessimismo da inteligência, tem que haver o otimismo da vontade, para usar a frase célebre do escritor francês Romain Rolland. Precisamos pensar que qualquer desenvolvimento vai precisar da Ciência, do Meio Ambiente e da Cultura. O Brasil conseguiu muita projeção mundial graças à sua cultura. O Brasil tem um potencial que foi inutilizado nesses últimos anos, mas que tem que ser recolocado com vigor. E a SBPC é importante nesse projeto.

WhatsApp Image 2021 06 30 at 18.08.35Professora Margarida - Fotos: acervo pessoalA afirmação do título é de Margarida Thereza Nunes da Cunha Menezes, 96 anos, patrimônio vivo da Educação Física e da UFRJ. A professora emérita ingressou na instituição — ainda com o nome de Universidade do Brasil — como aluna, em 1943. E só saiu em 1994 por aposentadoria compulsória, aos 70 anos.
A Minerva a que se refere é o símbolo da UFRJ. A imagem da deusa grega da sabedoria está presente nos canais de comunicação da universidade, nos documentos timbrados e na parede da sala dos colegiados superiores. Em todos os espaços, aparece de perfil. Mas nem sempre foi assim, como ensina a professora Margarida.
Em 12 de junho de 1957, a reitoria organizou uma solenidade de recepção ao então presidente de Portugal, Craveiro Lopes, que visitava o país. Medalhas comemorativas foram confeccionadas em bronze e entregues a todos que participaram do evento. Margarida enviou fotos do mimo recebido à reportagem: de um lado, os brasões das repúblicas, os rostos de Rui Barbosa e Camões, a data e a ocasião; do outro, uma imponente Minerva, olhando para a frente.WhatsApp Image 2021 07 02 at 22.42.03
Margarida não esteve na recepção. Ganhou a medalha depois. “Por tabela”, brinca. “O professor Pedro Calmon, então reitor da Universidade do Brasil, sabia que eu gostava dessas coisas”. A residência dela é uma prova incontestável. “Moro num apartamento muito grande. Tenho mais de dez mil pins, escudos e medalhas pendurados nas paredes”.
A professora se apressa em dizer que divulga a medalha sem a intenção de mudar a Minerva atual. “Mas acho importante que ela faça parte da história da universidade. A bandeira da universidade também tinha essa Minerva olhando de frente”, informa. “O povo tem uma memória muita fraquinha. Eu, com 96 anos, ainda tenho alguns resquícios de memória”, diz.
A professora emérita não sabia, mas está para completar uma década de existência a Divisão de Memória Institucional da UFRJ, que trabalha justamente para difundir os mais variados acervos documentais que representem a história e a memória da instituição. E que manifestou interesse imediato na medalha, assim que soube da história.
“Linda de morrer. Se ela quiser doar, irá para a coleção Memória UFRJ”, explica Paula Mello, coordenadora do Sistema de Bibliotecas e Informação (SiBI), ao qual está vinculada a Divisão de Memória. Curiosamente, a coleção fica localizada na Biblioteca Pedro Calmon, no campus da Praia Vermelha.
Paula começou este trabalho de “formiguinha”. “Eu via coisas importantes sendo dispersas. Comecei a pegar e levar para a biblioteca”, diz. A coordenadora do SiBI não podia ver o material comemorativo de alguma unidade ou centro que já pedia um exemplar. “Era cartaz, livro, documento de uma pró-reitoria com o catálogo de cursos. Tudo isso tem utilidade”. Depois, as próprias unidades começaram a mandar as peças para o SiBI. “Quando houve uma oportunidade, criei a Divisão de Memória Institucional, em 2011”.
“A divisão cresceu e se consolidou. É um trabalho do qual me orgulho muito. A universidade sabe que tem um lugar com pessoas que se preocupam com a preservação e divulgação da história da UFRJ. Isso me deixa muito feliz”.

FACILIDADE PARA PESQUISADORES
Antes de se tornar professor da Faculdade de Administração e Ciências Contábeis, Antonio José Barbosa trabalhou no SiBI como técnico e conhece bem a origem da Divisão de Memória Institucional. “Os três primeiros seminários de que participei possibilitaram que as pessoas se conhecessem. Ali havia a interdisciplinaridade tendo a história e memória como lugar comum”, afirma. “As pessoas da universidade passaram a ver no SiBI e, depois, na Divisão de Memória Institucional um lugar de convergência para diversos estudos e projetos”, completa.
Hoje diretor eleito da FACC, Antonio José disse que sua preparação para a seleção do doutorado e para o concurso docente estava totalmente ligada ao trabalho que desenvolvia no SiBI. O título da tese defendida na UniRio, em 2011, não deixa dúvida: “A casa de Minerva: entre a ilha e o palácio - Os discursos sobre os lugares como metáfora da identidade institucional”.
“Na minha época, procurava muitas coisas soltas numa sucessão de achar ou não achar. De dar sorte ou não. Hoje em dia, com a estruturação da Divisão de Memória Institucional, qualquer pessoa da universidade ou de fora dela tem pelo menos uma referência de por onde começar suas pesquisas”, elogia.

DIVISÃO DE MEMÓRIA COMEMORA 10 ANOS EM SETEMBRO

WhatsApp Image 2021 07 02 at 22.42.23Ainda sem a possibilidade de uma festa presencial, a Divisão de Memória Institucional (DMI) vai comemorar os 10 anos de sua institucionalização com um seminário virtual. O evento está marcado para os dias 15 e 16 de setembro e será transmitido pelo canal do Fórum de Ciência e Cultura no Youtube. Será a oportunidade para refletir sobre esta década de trabalho voltada para a UFRJ.
Uma dedicação que se expressa em múltiplas atividades, como a identificação de todos os acervos e núcleos de memória que existem na gigantesca e fragmentada UFRJ. A diretora da Divisão, Andrea Queiroz, fala sobre a importância da tarefa por experiência própria.
A historiadora pesquisava imprensa alternativa para o seu doutorado. “E eu não precisava, como fazia, ir à Biblioteca Nacional para ver, por exemplo, a coleção do Pasquim, que está quase completa no IFCS”.
Andrea faz questão de destacar que não existe nenhuma intenção de centralizar acervos na Divisão. “As unidades têm autonomia. E certas coleções precisam ser preservadas nelas. O importante é fazer uma interlocução entre estes diferentes espaços, fortalecer os sistemas integrados”.
Se alguma unidade pretende criar um espaço de memória, a Divisão também pode auxiliar na empreitada, como fez recentemente na Escola de Enfermagem Anna Nery. “Não precisa contratar ninguém de fora”, explica Andrea. A expertise da UFRJ já ultrapassou seus muros. “Quando a Fiocruz começou a pensar a preservação da memória institucional, eles nos procuraram”.
A divisão também investe na formação em pesquisa dos estudantes que participam dos seus projetos. Todo ano, os trabalhos deles são premiados na Semana de Integração Acadêmica da UFRJ como melhores ou recebem menção honrosa. “A minha primeira bolsista está terminando o doutorado agora”, orgulha-se Andrea.

DEPOIMENTOS DOS EX-REITORES
A história oral da universidade, a partir dos depoimentos dos ex-reitores, é um dos projetos da Divisão. Alguns mais idosos não puderam conceder a entrevista, como Clementino Fraga Filho — que faleceu em 2016, aos 98 anos. O interventor do MEC na UFRJ José Henrique Vilhena (gestão 1998-2002) recusou o convite. E um dos registros mais aguardados não foi adiante por uma fatalidade. “A gente queria homenagear o professor Aloisio Teixeira (2003-2011). Mas, na semana em que a gente marcou a entrevista, ele faleceu (em 23 de julho de 2012)”, lamenta Andrea. Está disponibilizada na Divisão uma entrevista concedida por Aloisio a um ex-aluno da Escola de Comunicação. Já o depoimento do professor Carlos Lessa, reitor entre 2002 e 2003, é um dos mais procurados. “Fomos muito solicitados, após a morte do Lessa (em 2020), por pesquisadores de dentro e fora da instituição”, completa. Os interessados podem pedir acesso à transcrição da entrevista. Os áudios são preservados.
E, em breve, o início da história da AdUFRJ vai constar dos registros da Divisão. A iniciativa de colher depoimentos dos professores será continuada com aqueles que contribuíram para o movimento de resistência à ditadura na instituição. O primeiro entrevistado será o professor Luiz Pinguelli Rosa, primeiro presidente da então associação
Outro serviço muito utilizado, especialmente durante a pandemia, é a Biblioteca Digital de Obras Raras. “É a nossa menina dos olhos”. Andrea cobra mais investimentos do governo federal em pessoas e equipamentos para a preservação deste e outros espaços. “O meu concurso, em 2008, foi o último para cargo de historiador na UFRJ. E, antes, praticamente não existiu”.

bolsonaroDiretoria da AdUFRJ

Na esteira de mais uma rodada de grandes manifestações contra o governo federal – que, ao que tudo indica, estava mais preocupado com o bem-estar do vírus Sars-Cov-2 do que com o da população brasileira –, tivemos mais uma semana atribulada para o presidente. Na segunda-feira, dia 5, tivemos a divulgação de áudios da ex-cunhada de Bolsonaro, Andrea Siqueira Valle, dizendo com todas as letras o que todos nós já sabíamos e que agora se tornou inegável: o “01” é o comandante do infame esquema de “rachadinhas” que permeia a família inteira. Além disso, tivemos na quarta-feira, dia 7, a primeira prisão de um depoente na CPI da Covid: Roberto Dias, ex-diretor de logística (sempre ela) do Ministério da Saúde, implicado pelo cabo da Polícia Militar Luiz Paulo Dominguetti em denúncia de propina no valor de R$ 2 bilhões. E agora?

Bom, primeiro convém uma hierarquização dos fatos. A prática de “rachadinhas”, tão desprezível quanto seja, está no banco de trás agora. Mesmo levando-se em conta que os milhões de reais amealhados pela família Bolsonaro demonstram cabalmente que essa Bratva à brasileira jamais se incomodou um iocto com a prática de corrupção; a negociação de propina na compra de vacinas, no meio de uma pandemia que já levou mais de 500 mil brasileiros, é algo tão repugnantemente desumano que toma absoluta precedência. Para que fique claro: estamos falando de pessoas que, enquanto morriam brasileiros aos milhares, se recusaram a adquirir vacinas de instituições com representação no Brasil para então serem “forçadas” a recorrer a intermediários com os quais pudessem conectar os propinodutos. Ou seja, não era “apenas” negacionismo, isso era só o molho. A refeição mesmo estava sendo preparada pelo chef Ricardo Barros, com aval do dono do restaurante.

Tais escândalos estão fazendo efeito: pesquisas recentes mostram um Bolsonaro mais impopular do que nunca, com sua rejeição chegando aos 50%. O patético bufão não deu um pio desde que apareceram as denúncias envolvendo superfaturamento na compra da vacina Covaxin, há quase duas semanas, e está claramente acuado. Ainda assim, a rota para a sua queda é tortuosa. Conforme ilustrou a ridícula nota assinada pelo ministro da Defesa, General Walter Braga Neto, e os comandantes das Forças Armadas contra o presidente da CPI, senador Omar Aziz, Bolsonaro ainda controla os militares na rédea curta. Some-se a isso o fato de que o governo “abriu a carteira” para o Centrão e, por isso, conta com o apoio dos pusilânimes chefes das duas casas, deputado Arthur Lira e senador Rodrigo Pacheco, e mais o apoio de setores que lucram com, por exemplo, a agressiva postura antiambientalista do Brasil, e temos uma conjunção de forças plenamente capaz de segurar um mandatário criminoso no poder. Por outro lado, se o impeachment parecia uma impossibilidade há menos de um mês, hoje ele já está acima da linha do horizonte. Jair Bolsonaro começou a balançar. Temos agora de fazer a nossa parte, e empurrar para o lado certo.

WhatsApp Image 2021 07 02 at 22.37.24MICHEL GHERMAN e UALID RABAHA mais recente escalada de violência entre Israel e o Hamas, em função dos despejos de famílias palestinas de Sheikh Jarrah — bairro fora dos muros da Cidade Velha de Jerusalém —, mobilizou o cineclube mensal organizado pelo Grupo de Educação Multimídia da UFRJ e pela AdUFRJ, na quarta-feira (30). O encontro reuniu o coordenador do Núcleo Interdisciplinar de Estudos Judaicos da UFRJ, Michel Gherman, e o presidente da Federação Árabe Palestina do Brasil, Ualid Rabah, para diferentes visões sobre o conflito que se arrasta por décadas. Cultura e território foram os aspectos mais valorizados.
“Até os anos de 1960, o conceito de resistência esteve exclusivamente associado à questão armada. Mas depois ela vai encontrar um sentido mais amplo. O simples ato de educar um filho, dentro de um contexto como o do Gueto de Varsóvia, pode ser considerado um ato de resistência”, observa Gherman. Nesse sentido, afirma ele, o cinema cumpre um papel importante para a formação de memória e como “alternativa às bolhas narcísicas criadas pelas redes sociais”. “Quando você vê uma cena como as de Suleiman, em que um tanque acompanha um palestino que está tirando o lixo de casa, você entende o que é a ocupação. Israel é isso”, avalia o professor.
Historiador por formação, Gherman enfatiza os riscos do negacionismo contemporâneo, especialmente, para as universidades. E rejeita comparações entre o conflito em torno de Israel hoje com o nazismo, expresso em classificações como “holocausto palestino”. Para o docente do IFCS, “a solução para a questão palestina passa pelo reconhecimento, ressarcimento e reparação, assim como na África do Sul”.
Sob a perspectiva árabe, Ualid Rabah retoma a base socioeconômica da disputa. “Se há refugiados é porque havia antes um lugar onde essas pessoas estavam, e que não existe mais”, frisa ele, em relação às progressivas anexações de áreas palestinas por Israel, desde a década de 1940. “Estamos falando de território e propriedades, estamos falando de todo um PIB palestino”, acrescenta.
A liderança deu sua contribuição ao cineclube por meio de um vídeo gravado, em função de compromissos familiares. Nele, Rabah analisa a estética cinematográfica que – em sua visão – ainda retrata a resistência palestina de forma estigmatizada. “Afinal, quando é civilizado matar? Contanto que seja com por um exército bem arrumado?”, questiona.
A universidade também não foi poupada da crítica pelo racismo. “Talvez a academia, que tanto gosta do Edward Said, não tenha entendido o sentido de orientalismo quando deprecia um [Yasser] Arafat, narigudo, de turbante, guerrilheiro, de nome árabe”, alfinetou.
A FIXAÇÃO COM ISRAEL
Durante o debate, a professora do Instituto de Psicologia da UFRJ Cristal Oliveira de Aragão quis saber sobre a relação entre a ultradireita brasileira e o estado de Israel. A curiosidade partiu da recorrente presença de bandeiras em manifestações de rua com pautas conservadoras.
Segundo o coordenador do Núcleo de Estudos Judaicos, a referência corresponde “mais a uma Israel imaginária do que atual”. Gherman destacou quatro pontos de atração de um setor do neopentecostalismo por Israel. Um deles diz respeito a uma afinidade com o Reinado de Salomão, “quando a relação de Deus com o cotidiano era direta, sem mediações”, explica. Outra vertente encontra afinidade com o modelo econômico ultraliberal. Um terceiro grupo se espelha no belicismo. E por fim há ainda grupos que atribuem a Israel – contraditoriamente – uma supremacia branca.

Palestina e Brasil
O Estado da Palestina é reconhecido por 138 dos 193 membros da ONU — Israel, por 164. O reconhecimento brasileiro aconteceu em 2010, no segundo mandato do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A Argentina fez o mesmo dias depois. Os dois países foram os primeiros ocidentais no gesto. Até então, o Estado palestino havia sido reconhecido por cerca de 100 países da Ásia e da África.

PARA ASSISTIR E REFLETIR

Os quatro filmes que serviram de pano de fundo para a edição “Questão palestina” do cineclube foram:

1. “Noite e nevoeiro”
(Alain Resnais, 1956),

2. “Paradise Now”
(Any-Abu Assad, 2006),

3. “Valsa com Bashir”
(Ari Folman, 2008),

4. “O que resta do tempo”
(Elia Suleiman, 2010).

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