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Um momento singular na história da UFRJ. Assim descreveu o professor Vantuil Pereira, um dos idealizadores do Coletivo de Docentes Negros da UFRJ, movimento recém-criado que, na última segunda-feira, 22, entregou à reitoria um manifesto com uma série de reivindicações para reduzir o racismo na universidade e ampliar a participação negra na vida acadêmica. “Estamos todos em casa, com mais de 300 mil mortos. É um momento singular na história. Mas nesse mesmo momento é possível propor uma universidade antirracista, e nós temos essa oportunidade de dar um passo adiante”, afirmou Vantuil. “Queremos enfrentar o racismo na universidade, mas também pensamos para fora da UFRJ. O exemplo que for dado aqui poderá ser dado a outras universidades”, explicou.
O manifesto foi assinado inicialmente por 59 professores negros das mais diversas áreas – a única pessoa branca que assinou foi a presidente da AdUFRJ, Eleonora Ziller, representando o sindicato dos professores. O documento ainda está disponível para mais adesões e o link está no fim desta reportagem.
O texto propõe uma série de medidas, entre elas, a criação da Comissão de Acompanhamento e Desenvolvimento de Políticas Antirracistas da UFRJ, vinculada ao gabinete da reitora, realização de mapeamento étnico-racial da comunidade acadêmica e implantação de cotas em todos os concursos e na pós-graduação.
Jorge Marçal, um dos coordenadores do Coletivo, acredita que o primeiro ponto é entender o lugar da UFRJ na luta antirracista. “As instituições de ensino são instituições de produção política, que no seu dia a dia promovem formas de ser e estar no mundo. A UFRJ tem necessidade de tomar posição nessa questão internamente”, qualificou. Para Marçal, o debate racial é prioritário na universidade. “A gente está numa conjuntura em que essa pauta não pode mais ser ignorada, é uma pauta que vem sendo lembrada sempre nos conselhos superiores”, afirmou.
Há mais de 20 anos lecionando na UFRJ, Nedir Espirito-Santo, do Instituto de Matemática, quer agilidade nas questões propostas pelo Coletivo. “É preciso um trabalho árduo para termos rapidamente um quadro da questão racial na universidade”, explicou. A professora lembrou que as mudanças políticas referendadas pelo manifesto irão envolver várias pró-reitorias. “É um movimento que vai contribuir para a criação de grupos que irão estabelecer elementos para uma mudança estrutural na universidade”, disse.
A reitora Denise Pires de Carvalho demonstrou apoio ao movimento, e acredita que, em relação à política racial, a universidade está no meio do caminho. “Temos um fórum de politicas raciais associado à PR-4 e às comissões de heteroidentificação. Vamos conversar com muita tranquilidade, garantir os avanços e não permitir retrocessos”, declarou. Para a reitora, é fundamental que essa institucionalização aconteça de uma forma que sobreviva para além da sua gestão.
LEVANTAMENTO
No Consuni da quinta-feira (25), o professor e conselheiro Vantuil Pereira falou sobre o manifesto entregue à reitora. Ele pediu que o documento fosse encaminhado aos conselheiros e que esteja aberto a subscrições “de todos aqueles que entendem que a luta antirracista é uma luta da universidade, de todos aqueles que almejam um Brasil justo, igualitário para todos e todas”. No levantamento étnico-racial feito pelo professor com o apoio da PR-4, dos 1.560 docentes que responderam ao questionário, 323 se consideram pretos ou pardos. Ou seja: 20% do corpo docente é parte inerente desta luta. Para assinar o manifesto, acesse (https://bit.ly/3w1EvD6).
PRINCIPAIS REIVINDICAÇÕES
1. Criar Comissão de Acompanhamento e Desenvolvimento de Políticas Antirracistas da UFRJ, vinculada ao gabinete da reitora, com representações do Coletivo de Docentes Negras/os, da Câmara de Políticas Raciais e da Comissão de Coletivos Negros discentes.
2. Realizar mapeamento étnico-racial para identificar a distribuição de docentes negras/os e indígenas entre as diferentes unidades da UFRJ, e também de bolsistas de extensão, de iniciação científica e de pós-graduandos.
3. Ampliar e fortalecer políticas públicas para destinar bolsas de extensão e de iniciação científica, artística e cultural para estudantes de graduação negras/os
4. Garantir acompanhamento e implementação da resolução do Consuni 15/2020, que torna efetiva a reserva de 20% das vagas em concursos de magistério superior para negras/os, prevista pela Lei 12.990/2014
5. Tornar obrigatória a reserva de vagas para negras/os e indígenas nos processos seletivos para ingresso de discentes em todos os programas de pós-graduação da UFRJ.
6. Constituir, no âmbito da PR-2, uma comissão de acompanhamento das ações afirmativas na pós-graduação
7. Propor ações de visibilização, de reconhecimento e de valorização da memória da produção acadêmica e tecnológica de docentes negras/os e indígenas da UFRJ
8. Demandar inclusão de disciplinas e conteúdos destinados a preparar estudantes de licenciatura da UFRJ para implementar o artigo 26 da Lei 9394/1996, que instituiu a obrigatoriedade do ensino de história e cultura afro-brasileira e indígena em todo o currículo escolar.
9. Inserir políticas de acolhimento de saúde mental para docentes negras/os e indígenas da UFRJ.
10. Atuar de forma ativa e intencional, visando à promoção de articulação, sobretudo no que for discutido pela Comissão de Acompanhamento e Desenvolvimento de Políticas Antirracistas da UFRJ.
DE MINERVA A DANDARA
Para além das mudanças estruturais sugeridas pelos docentes negros da universidade, a emblemática Minerva centenária foi repaginada pelo grupo. O símbolo, criado em 1935, com a figura da deusa romana das artes e da sabedoria, recebeu alterações mais compatíveis com a pluralidade racial da universidade. Alexandre Brasil Fonseca, professor e diretor do Instituto Nutes, foi quem concebeu a nova marca em diálogo com outros docentes. Em sua criação foi mantido o suporte na parte inferior, numa referência à tradição europeia-colonial que esteve na origem e permanece até os dias de hoje na universidade, marca de sua branquitude. No lugar da Minerva, com as cobras e a efígie da cabeça de Medusa em sua armadura, foi colocada Dandara, mulher preta com colares, brinco, turbante e pintura corporal indígena e que segura um Mbaraká. Saiba mais em: https://conexao.ufrj.br/2021/01/22/uma-marca-para-docentes-negras-e-negros-da-ufrj/
O verbo é esperançar. Como é possível ter uma mensagem otimista diante do caos social, humanitário e econômico que passa bem diante dos nossos olhos? É difícil enxergar um alento, mas ele existe a cada ação desempenhada por pessoas — voluntárias ou profissionais — que atuam no combate à pandemia. E nas que recebem a vacina. Aos 72 anos e vacinado, o médico Leôncio Feitosa coordena o Complexo Hospitalar da UFRJ. Sua experiência de vida e de atuação na saúde nos ensina a olhar o mundo sob múltiplas perspectivas.
“Este é um ano de tristeza, são quase 300 mil mortos. Temos um governo inoperante, com um grau de iniquidade muito grande, negacionista. Mas o sentimento não é só de pessimismo”, ele diz. “Há um misto de satisfação pelo fato de a UFRJ ter tantas ações que mostram a universidade pujante”.
Uma dessas ações de impacto é a vacinação no Rio de Janeiro. A UFRJ coordena três postos drive-thru, em que a pessoa recebe a dose do imunizante no carro. Um deles é na Praia Vermelha, outro funciona no Fundão e, um terceiro, no Sambódromo. “A contribuição dos voluntários no drive-thru é fenomenal”, orgulha-se o médico. “Os postos são um sucesso. Mas falta vacina. Estamos com 5% da população (da cidade) vacinada, mas poderíamos estar com 30%, e já haveria redução importante no impacto da doença nos hospitais”.
A coordenadora dos postos é a professora Carla Araújo, diretora da Escola de Enfermagem Anna Nery. Em sua equipe ela conta com 2.510 alunos voluntários de diferentes cursos e períodos, prontos a contribuir para a imunização da sociedade. “A vacinação vem como alento num mar de dor. A gente vê muito isso nos drive-thrus. Na semana passada, um senhor de 86 anos nada falava, mas quando aplicamos a vacina, ele chorou. Vimos ali a esperança, a vacina como possibilidade de manter-se vivo”, lembra a docente. “Neste contexto em que estamos vivendo, estar vacinado faz toda a diferença”.
A AdUFRJ fez uma campanha de auxílio a docentes sindicalizados de 80 anos ou mais para levá-los aos postos de vacinação, na primeira fase da imunização. Foram contactados cerca de 150 sindicalizados. “Eles ficaram muito surpresos e gratos, mas as famílias já estavam providenciando a locomoção e não foi preciso nossa atuação”, conta Belini Souza, funcionário do sindicato. “Somente uma, que morava sozinha, precisou de apoio. Chegamos a agendar o serviço, mas um dia antes ela caiu e acabou sendo vacinada em casa”, revela. A docente passa bem.
Aos 90 anos, o professor emérito Edwaldo Cafezeiro, um dos idealizadores da AdUFRJ, conta a emoção em receber o imunizante. “Eu me senti muito bem, aliviado. Estava com receio de não ter a vacina”, lembra. Totalmente imunizado, o docente continua se cuidando e deixa um recado. “Eu recomendo que todas as pessoas tomem a vacina para que tenhamos segurança e para que essa doença acabe logo”.
Alívio e esperança também são sentimentos que embalam o professor e ator José Steinberg. Ele recebeu a segunda dose da vacina no dia 16 de março, um ano após o início da quarentena no Brasil. “Tirei uma preocupação de mim. Tenho 88 anos e outras doenças, então estou muito aliviado”, conta o docente aposentado da Faculdade de Letras. “Embora a gente saiba que a vacinação não foi organizada como deveria, é um momento de todos fazerem o esforço de irem procurar a vacina”.
A esperança é uma via de mão dupla e a gratidão não é só dos vacinados. “É uma satisfação poder levar à população uma oportunidade mais eficaz de se proteger do vírus. Faz parte da função social da universidade e nossa, como servidores e profissionais de saúde”, avalia a professora Carla Araújo.
O momento também é de aprendizado. “Para os estudantes, é uma oportunidade maravilhosa. Um exercício de cidadania. Uma formação que está para além da academia. Atendemos pessoas com Alzheimer de diferentes perfis — prostrados, sem expressão, agressivos. Eles aprendem a humanização do cuidado”, exemplifica. “Trazer para esses estudantes a importância de medidas desenvolvidas na atenção primária e como elas reduzem os impactos e custos na saúde secundária e terciária, é algo fundamental”, afirma. “Eles estão ajudando a população e, por outro lado, estão adquirindo vivências, experiências que jamais teriam em sala de aula”.
Silvana Sá
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Aulas síncronas, assíncronas, novos termos que foram adicionados ao vocabulário dos estudantes. Além disso, provas, trabalhos, seminários… tudo mediado por uma tela de computador. Às vezes, de celular. Assim tem sido a realidade dos estudantes da UFRJ, desde o início das aulas remotas. “O que mais me incomoda é a instabilidade da rotina. Alguns professores gravam aula, outros não gravam e organização no dia a dia é complicada”, desabafa Antônia Velloso, do sexto período de História. Além dos compromissos para sua formação, Antônia, de 21 anos, é representante discente. Participa do DCE, é conselheira do CEG e integra os GTs Pós-Pandemia e Volta às Aulas. “É uma das coisas que mais me ensina na vida”, ela diz. Mas isso tem um preço. “Fico com dificuldades de puxar determinadas disciplinas, então tenho procurado professores que gravam conteúdos, para conciliar todas as minhas atividades. Pego disciplinas de manhã, de tarde e de noite, a depender das vagas disponíveis. Normalmente, estudo entre os turnos, de 12h às 14h ou de 17h às 19h”, conta.
O ensino remoto a afastou dos colegas. “Não tem as conversas nos corredores, é um prejuízo muito grande”, avalia. Já com os professores, há o risco de não conhecê-los pessoalmente. “Agora, nesta fase do curso, eu já começo a pensar em orientação para meu TCC, mas não consigo encontrar aqueles que fazem pesquisas na minha área de interesse”, lamenta. Mas nem tudo é prejuízo. “O ensino remoto possibilitou também novas experiências de aprendizado, que trazem para a gente a reflexão sobre como melhorar ou criar novas possibilidades de ensino”.
Danielle Ramires, de 23 anos, cursa o sétimo período de Letras (Português-Francês) e acredita que o ensino remoto foi bom para sua organização. “Ajudou, de certa forma, não precisar de deslocamento”, diz. Mas o desgaste com o uso do computador afetou sua saúde. “Não tenho um sono de qualidade, porque a gente fica muito, muito, muito tempo diante da tela. Estou tendo enxaqueca rotineiramente”, revela.
As duas semanas de descanso entre os semestres letivos não foram suficientes, para a estudante. “Acho estranho, no meio de uma pandemia, a gente ter um calendário que afeta ainda mais nosso emocional e nossa saúde física”, critica. “Pra mim, foi muito simbólico começar a inscrição de disciplinas no primeiro dia de recesso. Tenho a sensação de que estou correndo uma maratona enquanto estou sentada numa cadeira. É impossível dar conta de todo o conteúdo do semestre em três meses de uma forma saudável”.
Juliana Bittencourt, de 23 anos, entrou na reta final de seu curso. No oitavo período de Rádio e TV, a estudante divide seu tempo entre a faculdade e o trabalho, também na modalidade remota. “Gastava três horas pelo menos de deslocamento entre a minha casa, o trabalho e a ECO. Então, ‘ganhei’ três horas no meu dia. Pude cursar matérias de outras habilitações, disciplinas em outros horários e enriqueci mais a minha formação”, avalia. Ela também destaca a adaptação das disciplinas de seu curso para o meio virtual. “Houve uma adaptação de fato nas disciplinas e os professores entenderam que algumas matérias não poderiam ser ofertadas no modelo remoto”, elogia a aluna. “Óbvio que o presencial não pode ser substituído, mas não podemos descartar os aspectos positivos dessa experiência remota. Mas falo de um lugar muito particular, de alguém que não tem dificuldades de conexão, que dispõe de espaço para estudar e de equipamentos para acompanhar as aulas”.
Lucas Abreu
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Quando todos procuraram se isolar, eles foram ao trabalho. Profissionais de saúde da linha de frente de combate à pandemia têm se desdobrado pelo Brasil para salvar vidas. Na UFRJ não foi diferente. Desde a criação do GT Coronavírus, a universidade assumiu seu papel social na defesa da vida, e preparou-se para receber pacientes com a covid-19. Leitos de CTI foram abertos no Hospital Universitário Clementino Fraga Filho, outras unidades de saúde se prepararam para o aumento da demanda e a universidade criou o Centro de Triagem Diagnóstica (CTD).
No Hospital Universitário, as adequações para receber os pacientes de covid-19 no começo da pandemia não foram simples. “Pouco se sabia sobre como seria a evolução da doença, qual seria o pico de casos, quanto tempo durava. Então fazíamos mudanças constantes, quase que diárias, no fluxo de trabalho e nas estratégias”, contou o professor Marcos Freire, diretor do HU. Ele explicou que houve uma adaptação do espaço, para que os setores de atendimento de pacientes com covid-19 ficassem isolados dos demais. O hospital chegou a abrir 60 leitos de CTI para o atendimento durante a pandemia. Hoje, são 32 de CTI, todos ocupados até o fechamento desta edição, e 34 de enfermaria exclusivos para a doença. “Estamos nos preparando para abril e maio, que devem ser meses complicados”, informou o professor.
Para Marcos Freire, o trabalho feito pelo HU no último ano foi muito importante, especialmente se analisados os resultados. Com base nos dados do painel informativo criado pelo HU, até a quarta-feira (17), haviam sido atendidos 997 pacientes com suspeita de covid-19, dos quais 760 foram confirmados. O índice de letalidade de pacientes internados com a doença na unidade foi de 32,5%. “Fomos uma das únicas unidades do país a ter essa transparência nos dados, e uma das menores mortalidades”, exaltou o professor. “Acredito que somos uma das melhores unidades na pronta resposta ao atendimento na pandemia”, defendeu o professor, que aproveitou a ocasião para exaltar toda a equipe do hospital.
A diretora médica adjunta do HU, Rosana Lopes Cardoso, também engrandeceu o empenho de toda a equipe. “Não só a equipe assistencial, que brilhou e fez um ótimo trabalho, mas toda a estrutura administrativa, que é gigantesca, teve um comprometimento enorme”, defendeu a professora. “O sistema público é tão desacreditado, mas esses servidores públicos e terceirizados exerceram um serviço público sob as maiores adversidades”, contou Rosana, que atribui ao empenho de todos os funcionários do HU o êxito no atendimento durante a pandemia.
“Sabemos da pressão no sistema de saúde. Entramos na guerra porque sabíamos que a guerra chegaria até nós, mas também por entender o nosso papel social. O papel do hospital público é atender a população”, contou Rosana, lembrando que a decisão de receber pacientes com coronavírus foi da UFRJ. Médica intensivista, a diretora médica adjunta é chefiada pelo infectologista Alberto Chebabo, diretor médico do hospital. “São as especialidades mais afins ao enfrentamento da pandemia”, disse a médica.
Rosana Lopes Cardoso falou também do trabalho intenso da equipe médica do HU no último ano. “A rotina de quem está no CTI de covid-19 é exaustiva. Os pacientes têm um quadro grave, a taxa de mortalidade dos pacientes em ventilação mecânica chega a 60%. Então é muito pesado”, desabafou. “Ter que tomar a decisão de intubar um paciente, ou outros horrores que vemos nas redes sociais, são coisas que acontecem diuturnamente”. As condições de saúde de um paciente de covid-19 exigem atenção permanente da equipe. “A taxa de ventilação mecânica em um CTI é normalmente 30%. Em um CTI de covid-19, de 80% a 100% dos pacientes estão intubados, e quanto mais suportes avançados de vida, maior o trabalho para os profissionais de saúde. Nesse cenário não há perspectiva de descompressão. Se acontecer no Rio o que está acontecendo no resto do país, vamos passar por muita pressão”. Ventilação mecânica é o suporte oferecido, por meio de um aparelho, ao paciente que não consegue respirar espontaneamente.
Em março do ano passado, a UFRJ montou o Centro de Triagem Diagnóstica (CTD), que funciona em parceria com o Laboratório de Virologia Molecular, e atende a profissionais da rede pública de saúde e a comunidade universitária. “A implementação do CTD mostra que a universidade é capaz de dar uma boa resposta à sociedade”, disse Rafael Galliez, coordenador adjunto da unidade e professor de Infectologia na Faculdade de Medicina.
O CTD funciona no Bloco N do Centro de Ciências da Saúde (CCS). As atividades são mantidas por professores, alunos, técnicos e voluntários de outros centros. Em um ano, já foram feitos mais de 30 mil testes e 25 mil atendimentos. “Respondemos do ponto de vista do acesso ao diagnóstico para os profissionais de saúde que precisaram manter suas atividades durante esse período, e desenvolvendo uma série de pesquisas, o que é o papel da universidade”, contou Rafael, que também mencionou que as amostras coletadas no CTD ajudaram a identificar a variante do coronavírus que tornou-se mais comum no Rio de Janeiro.
Fez diferença a velocidade com que a UFRJ agiu. Essa é a avaliação de Leôncio Feitosa, coordenador do Complexo Hospitalar. “Antes mesmo de a OMS decretar a pandemia, a reitoria já tinha criado um comitê de crise sobre o coronavírus, que se tornou um grupo de trabalho coordenado pelo professor Roberto Medronho”, explicou.
O GT Coronavírus foi criado em fevereiro do ano passado. Iniciativas como o CTD, a preparação do HU para receber pacientes com covid-19 e as pesquisas de tratamentos e testes diagnósticos começaram a ser discutidas dentro do grupo. “O grande papel da UFRJ é aprofundar o conhecimento e desenvolver linhas de pesquisas para contribuir para o melhor entendimento dessa doença. Produzir conhecimento e oferecer assistência à saúde dos pacientes infectados pelo vírus”, explicou o professor Roberto Medronho, que coordena o GT.
Para Leôncio Feitosa, a UFRJ teve uma atuação exemplar entre as universidades públicas, e mais poderia ter sido feito se houvesse apoio do governo federal. “A UFRJ talvez tenha sido a universidade que melhor agiu no combate à covid-19, justamente pela quantidade de suas frentes de atuação. Abrir dezenas de leitos de CTI específicos para a covid-19 não é pouca coisa. É um feito. Imagina fazer tudo isso e ter um governo apoiando as ações?”, indagou o dirigente.
Este é um número especial de nosso jornal. Para fazer um retrospecto desse ano da pandemia, buscamos o olhar de quem viveu o dia a dia da universidade, numa batalha silenciosa e dedicada. Acompanhando o depoimento dos professores e as reportagens, uma linha do tempo nos lembra os principais eventos desses meses: as batalhas que travamos e os desastres negacionistas do governo, as perdas e os crescentes números de uma tragédia que, infelizmente, ainda irá nos desafiar por um bom tempo. As ilustrações são de nossas alunas e de nossos alunos do 5º ano do CAp, numa colaboração inédita e que nos enche de esperança. O profundo desalento que muitas vezes experimentamos ao vivermos trancados em nossas casas só encontra remédio ao firmarmos os olhos no futuro. No futuro que se gesta em cada criança e em cada sopro de vida que teima em não se apagar. É aí que buscamos a força para permanecer. Talvez o objetivo seja grande demais, mas queríamos um jornal que afirmasse a vida em cada uma de suas páginas, num momento em que mergulhamos num dramático e desastroso quadro de crise sanitária jamais visto em nossa história.
Depois faremos um balanço mais detalhado das políticas institucionais, de como a UFRJ atuou e do que precisamos para avançar ainda mais. Também precisamos rever com mais cuidado o que conseguimos criar nessa nossa militância sindical virtual, o que ficará de lição para o futuro, o que poderemos levar para o nosso cotidiano, quando voltarmos a ocupar os campi e as ruas.
Mas, nesse momento, escolhemos dividir o espaço com quem fez a universidade existir, seja por quem mal chegou e teve que encarar o ensino remoto, ou por quem estava afastado para pós-doc, para quem tem filhos pequenos, para quem acumula suas atividades acadêmicas com cargos administrativos, porque a universidade se faz principalmente por quem nela trabalha. O vazio dos prédios contrasta com a intensa atividade de cada um de nós e tentamos dar voz a essa nova forma de vida que nos moldou nos últimos doze meses.
Fizemos uma outra escolha difícil: o principal do nosso assunto não é o presidente da República nem seus crimes. Ao menos nesta edição, não será ele e nem suas estúpidas declarações que irão ocupar o centro de nossas páginas. Não podemos silenciar nossa experiência e deixar que se escute apenas as sandices do pior governo do planeta. Mesmo que seja para criticá-las. Faremos isso, sim, mas não aqui. Aqui falam os que lutaram para manter a universidade funcionando. Na maior parte das vezes, anonimamente. Essa é a nossa homenagem. Também aos nossos mortos, vítimas da fatalidade, mas também da insensatez que parece reger a vida pública nacional. Na próxima semana, voltaremos à carga. O governo é responsável por uma política genocida, sim! Dezenas de milhares de mortes poderiam ter sido evitadas no país. Repetindo: dezenas de milhares de mortes poderiam ter sido evitadas no país. Não recuaremos, seguiremos lutando por autonomia e pela liberdade de cátedra nas universidades, pelas liberdades democráticas e pela vida em nosso país.
No momento, a tarefa maior é abraçar as iniciativas unitárias, reencontrar parcerias, construir ainda mais pontes e abrir portas. Temos a convicção de que o horror passará. A vitalidade das forças sociais que construíram a universalidade do SUS, que defenderam a educação pública e gratuita, garantiram a Constituição de 1988 irá se sobrepor à pulsão de morte que hoje, como se fosse uma rede, cai sobre nossas cabeças e tolhe nossos movimentos. A questão
principal é: quantas vidas poderemos poupar, quantas pessoas poderão encontrar abrigo e segurança nas próximas semanas?