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Milton Ribeiro; Jair Bolsonaro e Cláudia Toledo - Imagem: Reprodução do Twitter do ministroA nomeação da nova presidente da Capes, Cláudia Mansani Queda de Toledo, causou indignação na comunidade acadêmica. Ela é reitora do Centro Universitário de Bauru, antes Instituição Toledo de Ensino, fundado pela própria família, onde obteve o doutorado em Direito.
“A escolha se dá pelo seu compromisso com a comunidade acadêmica e científica em sua trajetória como reitora, coordenadora de pós-graduação e professora”, escreveu o ministro da Educação, Milton Ribeiro, em seu perfil no Twitter.
Os predicados acadêmicos indicam o contrário. Responsável pelo fomento e avaliação da pós-graduação stricto sensu no país, a Capes atribui nota 4 ao curso de doutorado da instituição. É o mínimo para funcionamento. O curso de mestrado, coordenado pela professora, recebeu nota 2 e foi descredenciado em 2017. Nas redes sociais, internautas também chamaram atenção que a nova presidente da Capes registra reuniões comuns com colegas de curso no Currículo Lattes.
Uma reportagem da Folha de S. Paulo de 2002 também não é favorável à família fundadora do centro universitário. À época, um integrante do clã, Mauro Toledo, compareceu espontaneamente ao Ministério Público e à Polícia Federal para denunciar os “negócios oblíquos” da família. A denúncia é de desvio de recursos para favorecimento dos Toledo. A nova presidente da Capes está entre os citados.
Mas há outra “pista” para a escolha. O ministro e o advogado-geral da União, André Mendonça, se formaram em Direito na instituição. Após assumir o cargo, no ano passado, Ribeiro ganhou uma medalha e uma foto no hall de entrada do centro universitário.
A Sociedade Brasileira de Física divulgou nota nesta sexta (16) em que cobra do MEC a revisão da nomeação e a indicação de alguém “com histórico profissional e formação mais adequados”. “Uma análise de seu currículo disponível na Plataforma Lattes mostra que a indicada não possui as qualidades esperadas para o cargo”, diz um trecho.
“A Capes, que completa 70 anos em julho, merecia mais respeito”, afirma o vice-presidente da AdUFRJ, professor Felipe Rosa.
O desalinhamento entre os calendários da graduação e da pós-graduação embaralha o cronograma de muitos professores. Aqueles que lecionam na pós continuarão em atividade ao longo do recesso de quatro semanas da graduação, aprovado recentemente pelo CEG (Conselho de Ensino de Graduação). Defendido pela AdUFRJ, o novo calendário conta com um intervalo maior (13/6 até 11/7) separando os semestres de 2020 e 2021, para facilitar a organização dos períodos e amenizar a exaustão da comunidade acadêmica. No entanto, o primeiro semestre letivo de 2021 da pós-graduação se inicia no dia 3 de maio, e ainda estará em curso durante esse recesso recém-estabelecido para a graduação.
O descompasso entre os calendários é o principal ponto em discussão. “Existe um posicionamento unânime do Conselho de Representantes para que os conselhos de Ensino da Graduação e da Pós-Graduação, CEG e CEPG, se reúnam para trabalhar em conjunto propostas de compatibilização e ajuste de calendário”, aponta a professora Eleonora Ziller, presidente da AdUFRJ. Ela acredita que a fragmentação das esferas acadêmicas é apenas mais um dos problemas que a pandemia agrava e expõe. “Essa é uma lição essencial. A definição do calendário precisa ser uma decisão conjunta da universidade, integrando a graduação e a pós, para que a UFRJ cresça e para que os professores possam produzir mais”, afirma Eleonora.
Um fator crucial para esse desencontro de calendários foi a data de retomada das aulas na pandemia. “A pós-graduação da UFRJ decidiu pelo ensino remoto muito antes da graduação. A resolução do CEPG foi em maio de 2020, pois sabíamos que os alunos precisariam ter integralização dos créditos para defender suas teses”, explica Denise Freire, pró-reitora de Pós-Graduação e Pesquisa (PR-2). Esse início mais imediato estava atrelado à preocupação do conselho com os prazos fornecidos pelas agências de fomento, como Capes e CNPq. Diferentemente da graduação, a pós não passou antes por um Período Letivo Excepcional (PLE) e, no dia 3 de agosto, deu início às aulas remotas relativas ao primeiro período de 2020. 
Para atender da melhor maneira possível os 133 programas que abrange, a pós-graduação da UFRJ atua com três calendários diferentes: um semestral, um bimestral e um trimestral. Durante a pandemia, foi estabelecido também um calendário trimestral alternativo, totalizando assim quatro calendários com datas de recesso distintas (veja o quadro). A pró-reitora ressalta que essa complexidade se dá pelo ritmo diferenciado de aulas na pós, que propicia flexibilidade e autonomia maiores. “Na pós-graduação, cada professor escolhe o seu período de dar aula. Dependendo do programa, ele pode lecionar por duas semanas seguidas direto, ao invés de dividir suas aulas ao longo de todo o período”, exemplifica.
Com esses calendários, aprovados em novembro pelo CEPG, a pró-reitora espera que no ano que vem a pós-graduação da UFRJ já esteja com seus períodos equalizados. Ela ressalta que a proposta foi amplamente discutida e aceita por todas as coordenações de cursos, mas lamenta que o alinhamento com o calendário da graduação só deva ocorrer em 2022. Entretanto, essa é uma questão de interesse da PR-2. “Existem muitos alunos que saem da graduação e entram imediatamente na pós. Por isso, é interessante que haja uma certa coincidência entre esses calendários, para facilitar a entrada desses estudantes nos programas”, diz Denise.
Os desafios da pandemia modificaram toda a lógica de pesquisa na universidade, tanto no que concerne à chegada de novos estudantes nos cursos de pós-graduação, quanto à formação de outros. A maioria dos prazos dados pelas agências de fomento, por exemplo, foi alterada. “A gente teve uma série de flexibilizações por parte das agências de fomento, que nos permitiram ter um pouco mais de tranquilidade quanto ao calendário. Mas logo começaram a surgir problemas, como o fato de a pandemia durar muito mais do que a extensão de algumas bolsas”, conta Denise.
Enquanto as agências prorrogaram o limite de defesa para a maioria de suas bolsas, muitos dos estudantes da pós que não são bolsistas se viram prejudicados. “O que está acontecendo na prática é que vários programas estão pressionando esses estudantes a defenderem em um prazo original”, critica Kemily Toledo, da Associação de Pós-Graduandos da UFRJ (APG). Segundo Kemily, que é estudante do Programa de Pós-Graduação em Educação da UFRJ (PPGE), a Resolução 03/2020 do CEPG suspendeu a contagem de prazos desde o dia 14 de março de 2020. “Uma luta muito importante nossa é que os programas respeitem essa suspensão da contagem de prazos, que é válida para toda a pós-graduação da UFRJ”, completa.
A crise sanitária que já levou a vida de mais de 360 mil brasileiros, estimulada por um governo federal inepto e negacionista, tem afetado de forma mais aguda as famílias mais necessitadas. São elas que tiveram o auxílio emergencial cortado no fim do ano passado, passaram os três primeiros meses deste ano sem qualquer apoio da União, e só agora começam a receber mais quatro parcelas de ajuda financeira, em valores insuficientes para manter condições dignas de sobrevivência. Diante desse quadro desolador, a AdUFRJ não poderia ficar de braços cruzados. Ao lado de outras entidades que rechaçam o governo genocida do presidente Jair Bolsonaro — como o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) e o Sindicato dos Trabalhadores em Educação da UFRJ (Sintufrj) — ou em ações próprias, o sindicato tem se mobilizado para dar apoio aos mais vulneráveis durante a pandemia da covid-19.
Da doação de água e cestas básicas à população do Amapá, estado que sofreu um longo apagão de energia em novembro do ano passado, ao apoio a famílias de alunos e terceirizados do Colégio de Aplicação, a AdUFRJ não tem medido esforços para alimentar a cadeia de solidariedade que se espalha pelo país, em contraponto à falta de empatia e ao descaso do Palácio do Planalto. Essa cadeia não é feita só de doações ou ajuda financeira. As imagens que ilustram esta página compõem uma série de cards feita pela AdUFRJ para divulgar essas ações solidárias nas redes sociais. Compartilhe e leve adiante esse pacto coletivo em favor da vida.





Diretoria da AdUFRJSim, a que ponto chegamos! O mundo sabe quem é o responsável principal pela perda de centenas de milhares de vidas brasileiras provocada pela covid-19, assim como se sabe que vermífugos não são eficazes no tratamento da doença. Mas, aqui no Rio de Janeiro, um deputado inexpressivo se acha no direito de intimidar a universidade, secundado por criminosos que usam a violência verbal e física para tentar silenciar o Sintufrj por conta de sua excelente campanha “Vacina no braço, comida no prato”. E tudo isso acontece na mesma semana em que é instalada no Senado Federal a CPI que vai justamente apurar a responsabilidade do governo federal na desastrada condução das ações do Ministério da Saúde no combate à pandemia.
Enquanto a reitoria caminha na corda bamba, tentando equilibrar suas posições e se proteger de alguma ação no âmbito jurídico, a comunidade universitária não tem dúvidas quanto ao seu papel neste momento. Somos uma instituição que só compreende sua existência se fundamentada na liberdade de expressão, num ambiente de pluralidade de pensamentos e com a mais ampla possibilidade de exercício crítico. Não temos dúvida de quem tenha cometido algum crime. Todas as entidades representativas da UFRJ, desde o primeiro dia da quarentena, em março do ano passado, vêm se ocupando em apoiar as ações orientadas por comitês técnico-científicos da universidade para o combate à covid-19. Nós distribuímos cestas básicas, ajudamos a produção de álcool em gel, acudimos emergencialmente o HU e o IPPMG, assim como apoiamos iniciativas para a testagem e controle da doença. Quem deve responder a alguma coisa neste país são as autoridades que estavam distribuindo kits ineficazes, enquanto o povo precisava de oxigênio para respirar. Não há fake news que esconda essa realidade.
Essa é, sem dúvida, a maior dívida do governo Bolsonaro com o povo brasileiro. Não é a única, mas não iremos aqui elencar todas elas, a não ser a mais recente, que afeta diretamente a nossa universidade. Ao fechar esta edição, tomamos conhecimento da nomeação da nova presidente da Capes, uma senhora que se graduou e fez doutorado numa instituição que pertence à sua família. E esta vem a ser a universidade na qual se graduou também o ministro da Educação. Até aqui, nada seria tão escandaloso que não pudesse ser absorvido pela comunidade científica. Mas se trata de uma docente que integra um curso que foi avaliado com nota 2 pela própria instituição que ela pretende dirigir. E mais, esse sim, o problema mais complicado: essa avaliação foi reavaliada para 4 pela presidência da instituição, ainda no governo Temer. Ora, temos aí nessa manobra todos os elementos da velha tradição conservadora brasileira de acordos familiares, personalismo e privilégios para grupos que se recusam a se submeter ao jogo republicano de respeito às regras impessoais e institucionais. Mas a crítica não era do “aparelhamento”?
Em todos os campos, em todas as áreas de atuação do governo, inclusive nas mais sensíveis e perigosas, como a Polícia Federal e as Forças Armadas, o que vemos é o aparelhamento e a perseguição àqueles que não se calaram. Até aqui, vamos cambaleando numa frágil estabilidade institucional. Tudo parece funcionar normalmente, mas nada é o que parece. Convivemos com vazamentos de impropérios, provocações de um presidente da República que não tem qualquer respeito pelas responsabilidades institucionais que pesam sobre ele, e tudo isso parece aceitável. A universidade, protegida pelo princípio constitucional da autonomia, não pode ceder nem um milímetro à exceção e ao arbítrio. Não haverá nada a proteger, se não formos capazes de nos contrapor aos absurdos cotidianos, seja nas grandes questões, seja naquelas mais diretas, que afligem o nosso dia a dia.
Antes da covid-19, a tuberculose era a doença infecciosa que mais matava no mundo, ceifando a vida de 1,5 milhão de pessoas por ano. “Agora, a covid-19 ocupa esse lugar, mas a tuberculose ainda mata muita gente, e o Brasil está entre os 30 países que detêm 90% do vírus mundial”, explica José Manoel Seixas, pesquisador da Coppe/UFRJ e colaborador de um projeto internacional que estuda as relações entre as duas doenças. A pesquisa é realizada no contexto de incidência da tuberculose em quatro dos cinco países que compõem o Brics, à exceção da China (Brasil, Rússia, Índia e África do Sul). No Brasil, o projeto é financiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e tem como objetivo final analisar as possíveis interações entre a tuberculose e a covid-19.
A principal forma de manifestação da tuberculose é a pulmonar, assim como a covid-19, que costuma atacar mais ferozmente o pulmão, objeto de estudos do grupo formado por pesquisadores dos cinco países do Brics. “Uma questão é a propensão à combinação das doenças. Um portador da tuberculose latente, que está infectado mas não desenvolve a doença, pode desenvolvê-la com a covid-19. Ou quem teve covid-19, pode pegar mais fácil a tuberculose”, afirma o pesquisador.
Seixas atua há 20 anos no Centro de Pesquisa em Tuberculose, ligado ao Hospital Universitário Clementino Fraga Filho, e nesse projeto desenvolveu modelos de inteligência artificial para facilitar o diagnóstico das doenças. “A inteligência artificial permite fazer um mapeamento entre as áreas, é um conhecimento que pode interagir com a área de saúde, que é prioritária no mundo”, reconhece o professor. “Nós temos uma oportunidade ímpar de agir coletivamente. Então as ações que a Coppe desenvolveu para atacar e dar ferramentas contra a covid-19 são uma oportunidade de fortalecer a ação multidisciplinar. É muito interessante”, completa.
Para Seixas, a aproximação dos países do Brics nesse tipo de estudo é promissora. “É uma vocação que a gente vinha trilhando e é muito importante pela similaridade dos países. O projeto traz fortes componentes dessa similaridade, pois Rússia, Índia e África do Sul são países em que a tuberculose possui incidência muito alta”, explica o professor.
No Brasil, Rio de Janeiro e Manaus são as capitais de maior incidência da tuberculose. Anete Trajman, pesquisadora visitante do Intituto de Medicina Social da Uerj e recém-aprovada como professora titular de Clínica Médica da Faculdade de Medicina da UFRJ, explica porque a tuberculose é comum no bloco Brics. “São países que têm condições políticas e econômicas semelhantes, em desenvolvimento. Possuem a carga de tuberculose enorme, pois há muita pobreza e umidade, e ela acomete principalmente as pessoas pobres que vivem em condições de desnutrição, de pouca ventilação, de aglomeração”, diz a pesquisadora.
Um banco de dados de pacientes que tiveram covid-19 e tuberculose nesse período de pandemia será utilizado pelos pesquisadores. “Vamos olhar os indicadores da tuberculose, ver o impacto do isolamento social para essas pessoas. Descobrir, por exemplo, quantas pessoas que tinham tuberculose foram testadas para a doença, olhar isso em diferentes momentos, e relacionar com as medidas de distanciamento social”, explica Anete.
Outro objetivo da pesquisa é avaliar a percepção da população sobre as medidas de distanciamento social. “Queremos descobrir o que as pessoas pensam sobre a melhor forma de lidar com a pandemia. Vamos usar essas respostas e os indicadores para fazer um exercício de modelagem e projetar o que pode acontecer em diferentes cenários”, afirma a médica. Ela acredita que o principal foco do projeto é elaborar uma proposta concreta sobre como lidar com uma pandemia como a da covid-19. “Essa pandemia estava sendo esperada pelo cientistas há muito tempo, só não sabíamos que seria de coronavírus. É inacreditável como o mundo estava despreparado para uma coisa que todos nós alertamos que viria”, reflete Anete.