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WhatsApp Image 2026 02 13 at 21.15.36 17A AdUFRJ paga pouco mais de R$ 100 mil por mês ao Andes, sem contar os valores desembolsados compulsoriamente como rateio dos custos de cada congresso e Conad. Somadas, as quantias chegam à impressionante cifra de R$ 1,5 milhão anual e são motivo de preocupação para a diretoria da AdUFRJ, que tem a missão de tirar do papel um sonho antigo: construir a sede da Associação dos Docentes da UFRJ.
O projeto está em fase de elaboração. O custo estimado do empreendimento – apresentado em assembleia no fim do ano passado – pode chegar a R$ 4 milhões. A expectativa é de que a obra fique pronta até o final de 2026. De acordo com o contrato de cessão onerosa do espaço, assinado em dezembro com a reitoria da universidade, o aluguel do terreno terá um custo mensal de R$ 8 mil. Já os valores necessários à manutenção da sede são estimados em R$ 45 mil.
Para estudar melhor os gastos internos, compreender os impactos das contribuições da AdUFRJ ao Andes e buscar um diálogo acerca desses valores, a diretoria pediu, em ofício enviado em 16 de dezembro, informações financeiras do Sindicato Nacional.
Fizeram parte dos questionamentos ao Andes a relação de receitas e despesas dos últimos cinco anos, as contribuições de todas as seções sindicais no mesmo período, inclusive as da AdUFRJ, e as previsões orçamentárias desde 2021. “Enviamos esse ofício no ano passado solicitando informações para balizar negociações entre a AdUFRJ e o Andes”, explica a presidenta Ligia Bahia. “Acreditamos que a transparência contribui para fundamentar bases de diálogo profícuo”.
A resposta demorou dois meses. Chegou nesta sexta-feira, 13 de fevereiro. O e-mail com 24 documentos anexados apresenta a lista de receitas e despesas do Sindicato Nacional dos últimos anos, mas não atende integralmente à demanda da AdUFRJ. Faltam aos extensos anexos a evolução de pagamentos das seções sindicais ao longo dos últimos anos. O Andes só apresentou a lista referente a 2024.
Segundo o dado de 2024, a AdUFRJ é a seção sindical que mais direciona recursos ao Andes. Somente outras três Ads em todo o país têm volume de contribuição próximo ao desempenho da AdUFRJ. São elas: Adusp (R$ 1,12 milhão), Apufpr (R$ 1,11 milhão), ADUFC (R$ 953 mil). Todas, no entanto, abaixo da destinação executada pelos professores da UFRJ. Esses números dão uma dimensão da participação da AdUFRJ, mas ainda são insuficientes, na avaliação da diretoria.
A ausência de informações completas dificulta o planejamento da diretoria da AdUFRJ. “Solicitamos informações detalhadas sobre os critérios de cálculo das contribuições das seções sindicais, com discriminação por ADs. O objetivo era simples e legítimo: verificar a isonomia contributiva e afastar dúvidas historicamente existentes sobre eventuais assimetrias”, analisa o professor Daniel Negreiros Conceição, 1º Tesoureiro da AdUFRJ. “Até o momento, essas informações não foram disponibilizadas de forma satisfatória. Sem transparência ativa, torna-se impossível ao tesoureiro cumprir plenamente sua função de avaliar a adequação e a proporcionalidade dos repasses realizados”, defende.
O docente reafirma o compromisso com a responsabilidade a um patrimônio que pertence a todos os professores da UFRJ. “A prudência financeira, nessas condições, não é um gesto de confronto, mas de responsabilidade institucional”, afirma o dirigente, que ainda aguarda mais detalhamentos da diretoria nacional. “Democracia não pode ser reduzida à obediência acrítica a regras quando estas se afastam de sua finalidade maior: garantir participação, pluralidade e legitimidade. Da mesma forma, solidariedade sindical não pode prescindir de transparência e confiança mútua”, conclui.

ADUFRJ BUSCA NEGOCIAÇÃO COM O ANDES SOBRE VALORES DOS REPASSES MENSAIS

Há quatro meses a AdUFRJ busca negociar valores de seus repasses mensais ao Andes. Enquanto a negociação não acontece de fato, a cota associativa junto ao Andes foi suspensa. A dívida corresponde aos exercícios de outubro, novembro e dezembro de 2025, e janeiro de 2026. O valor total, considerando o desconto proporcional ao cálculo do 13º salário, soma R$530.830,80.
A preocupação central é a saúde financeira da associação, já que a sede da AdUFRJ mobilizará alto volume de recursos. “Nós decidimos suspender temporariamente os repasses para o Andes porque estamos muito empenhados com a construção da sede”, justifica a presidenta Ligia Bahia. A diretoria tenta abrir com a direção nacional uma via de diálogo. “Queremos conversar com a diretoria do Andes sobre a possibilidade de redução do montante durante a obra”.
Essa negociação ainda não começou. O ofício com solicitações iniciais sobre as finanças do sindicato nacional demorou dois meses para ser respondido. Enquanto isso, seguem os esforços para a revisão das contas internas. Tesoureiro da AdUFRJ, o professor Daniel Negreiros Conceição afirma que a gestão da qual faz parte busca conduzir as decisões com base nos princípios da democracia substantiva, transparência institucional e responsabilidade fiduciária. “Consideramos esses princípios indissociáveis. É nesse marco que se insere a decisão de suspender temporariamente os repasses financeiros ao Andes”, explica. “Essa decisão não é trivial, nem tomada com leviandade, tampouco motivada por razões meramente contábeis”, pondera o dirigente.
Ele afirma que a diretoria e, a tesouraria, em especial, zela pela saúde financeira da AdUFRJ. “A construção da nova sede da seção sindical representa um esforço financeiro extraordinário, planejado e amplamente debatido. Trata-se, no entanto, de um investimento estrutural, cujos benefícios extrapolam a AdUFRJ, fortalecendo a infraestrutura e a capacidade organizativa do movimento docente como um todo”, analisa. “Nesse contexto, é legítimo — e responsável — discutir a redistribuição temporária dos esforços financeiros entre instâncias do movimento sindical”, defende. Daniel reforça, no entanto, que a pausa nos repasses tem caráter provisório. “Não configura ruptura, nem negação da importância histórica e política do Andes. Trata-se de uma medida provisória, condicionada à recomposição de um ambiente mínimo de confiança, transparência e diálogo”.
A diretoria da AdUFRJ permanece aberta à negociação sobre critérios de cálculo das contribuições; reconhecimento do caráter estratégico dos investimentos realizados pela seção sindical; e formas de redistribuição temporária dos encargos financeiros durante o período de obras. “Assumimos esse caminho com serenidade, firmeza e disposição para o diálogo — certos de que fortalecer a democracia interna é condição indispensável para fortalecer o movimento docente nacional”.

WhatsApp Image 2026 02 11 at 12.14.54As chuvas dos últimos dias provocaram um novo alagamento no Palácio Universitário do campus Praia Vermelha, detectado esta semana, que afetou equipamentos de som e iluminação da Sala Oduvaldo Viana Filho (Vianinha) da Escola de Comunicação (ECO) da UFRJ. O problema foi descoberto por acaso pelo professor José Henrique Moreira, de Direção Teatral e Iluminação Cênica da ECO, na terça-feira (10), quando ele foi buscar alguns documentos na universidade. "Ainda estamos avaliando os estragos, mas o cenário é triste", disse o professor. O alagamento também atingiu dependências da Faculdade de Educação, no piso acima da Sala Vianinha.

Na manhã de quarta-feira (11) ainda era possível ver as goteiras no teto da sala, e as marcas de umidade nas paredes. Em uma delas, na qual a pintura já está descascando, fica o quadro de força, que foi desligado para evitar um curto-circuito, com risco de incêndio. O professor convocou bolsistas do Sistema Universitário de Apoio Teatral (SUAT), do qual é coordenador, para inspecionar o espaço e fazer proteção preventiva dos equipamentos. São alunos de vários cursos da UFRJ que recebem bolsas do Programa de Apoio às Artes do Fórum de Ciência e Cultura.

Com a ajuda de secadores de cabelo e de panos de chão, a equipe retirou a umidade de dimmers, cabos e equipamentos de alimentação de energia e de mesas de controle de luz e som. As luminárias suspensas no teto, algumas delas digitais, tiveram de ser cobertas com plásticos. Baldes e latas de lixo foram colocados para aparar as goteiras, mas a água já se infiltrou no piso de madeira em vários pontos. "O alagamento vem da semana anterior, e ainda estamos nesse estado. Se vierem novas chuvas, nem sei o que será. As aulas começam em 9 de março, mas essa data está ameaçada com esse problema, até porque a água vai continuar drenando pelo teto", lamentou o docente.

Para o diretor da ECO, professor Cristiano Henrique, o alagamento "é crônica de uma morte anunciada": "Se fosse feita regularmente a poda das árvores, como os abricós-de-macaco, que estendem seus galhos para acima do telhado, já reduziríamos bastante o acúmulo de folhas nas calhas. E, claro, temos que ter a limpeza das calhas. A gente pede a poda de três em três meses. Não temos autonomia para cuidar disso".

A professora Ana Paula Moura, diretora da Faculdade de Educação, concorda: "A questão tem mais a ver com o telhado e com a limpeza de calhas, já estamos sofrendo com isso há algum tempo. Com as chuvas mais intensas, as calhas e as partes do telhado que não estão em boas condições começam a infiltrar a água para as nossas salas, que por sua vez passam para as salas da ECO. Esse alagamento na Sala Vianinha veio de nossa sala de Atividades Gerenciais, inclusive danificando alguns aparelhos", pontuou Ana Paula.

A direção da FE comunicou o problema na segunda-feira (9) à decania do CFCH. Segundo o decano, professor Vantuil Pereira, tudo indica que o alagamento decorreu da falta de limpeza das calhas. “Essa situação será regularizada em breve, com o início do novo contrato de manutenção predial, previsto para o dia 23/2, que contempla esse tipo de serviço. No momento, infelizmente não há equipe própria para realizar a limpeza imediata e uma eventual contratação emergencial, mesmo por dispensa de licitação, demandaria prazo superior ao necessário para o início do contrato já programado”, explicou o decano.

Diretor da ADUFRJ, o professor Michel Gherman se encontrou hoje em Brasília com o chefe da Assessoria Especial da Presidência da República, Celso Amorim. O objetivo da reunião foi tratar da conferência que o ex-ministro e diplomata fará na UFRJ em 2 de março, com o tema "O Brasil e o cenário internacional para 2026: desafios e oportunidades". O evento, organizado pela ADUFRJ, será no Salão Pedro Calmon, campus da Praia Vermelha, às 18h.

No próximo Congresso do Andes, a diretoria da AdUFRJ defenderá a participação ativa e autônoma nas eleições de 2026; a revisão do modelo de ajuste fiscal e descompressão do investimento público em ciência e a soberania nacional em todas as suas dimensões. A delegação ao evento — que acontecerá entre 2 e 6 de março, em Salvador (BA) — será eleita em assembleia marcada para amanhã (veja detalhes aqui). "Lutamos por políticas públicas universais, includentes e novas formas de estarmos juntos, cooperar e imaginar", afirmam todos os diretores, que assinam a íntegra do texto abaixo. 

A AdUFRJ e o 44º Congresso do Andes

O contexto que se abre para 2026 exige posicionamentos dos docentes das instituições de ensino superior sobre diversos temas, como os da soberania nacional, as emergências climáticas, o enfraquecimento das políticas de cooperação técnico-científica, do multilateralismo científico e em relação às ações de extermínio e brutalidade da extrema direita, produzidas no Brasil e em diversas partes do mundo. Nós, docentes da UFRJ, vivemos em uma unidade da federação, cujas autoridades governamentais estaduais, não por mera coincidência, promovem chacinas contra populações vulneráveis, ao mesmo tempo que aviltam a Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj).

Exercemos atividades de ensino, pesquisa e extensão em uma Universidade que ampliou acesso, mas não recebe recursos compatíveis com as necessidades de modernização e expansão de sua capacidade instalada e apoio efetivo a docentes e alunos, desafiados por pressões salariais e dificuldades de frequentar integralmente cursos de graduação e pós-graduação. Nossa carreira tem se tornado pouco atrativa e incentiva uma concorrência predatória entre áreas de conhecimento e mesmo entre colegas em torno da disputa de recursos para pesquisa e bolsas.

Além disso, o processo acelerado de expansão do ensino superior trouxe alterações no modelo de circulação de recursos públicos, hoje concentrado no padrão acrítico de produtividade e inserção nos circuitos científicos internacionais. Contemporaneamente, institutos privados de pesquisa se tornaram lócus de inserção de pesquisadores destacados de universidades públicas. Defendemos que os esforços para intensificar a conexão da Universidade com a formulação, implementação de políticas públicas e movimentos sociais não devem se opor às iniciativas para avaliar qualidade e reforçar a pesquisa e a produção científica nas universidades públicas.

Mais recursos e prioridade para o ensino público gratuito, laico e de qualidade em todos os níveis requerem unidade em torno da luta contra a privatização, indissociabilidade entre educação, ciência, tecnologia e inovação, soberania nacional e isolamento da extrema direita.

É nesse sentido, de resistência e possibilidades de avanços efetivos na educação brasileira, que a AdUFRJ se perfila ao lado da SBPC, ABC e grupos de pesquisas para participar ativa e altivamente nas eleições de 2026.

Atuaremos tanto na formulação de proposições para a entrega aos candidatos, quanto nas campanhas para a eleição de candidaturas majoritárias no primeiro turno e na defesa intransigente dos princípios e valores do direito à educação pública e de qualidade. Não será uma disputa trivial. Estão em jogo violações jurídicas, apropriação de recursos naturais e informações, relativização de direitos constitucionais, massacres e assassinatos perpetrados por forças oficiais. A lista de violações é extensa. Tal como afirmaram manifestantes em Minnesota: “recuar não é uma opção”.

Democracias contemporâneas estão sendo corroídas pela normalização da crueldade, exclusão e pelo negacionismo da história. Extermínio e limpeza étnica são horrores que estão de volta. O recrudescimento do fascismo mobiliza tecnologias digitais, redes sociais e símbolos culturais, que antagonizam valores de solidariedade, cuidado e consciência cívica. Corrupção e terrorismo de Estado sustentam o autoritarismo e a desesperança. Lutamos por políticas públicas universais, includentes e novas formas de estarmos juntos, cooperar e imaginar.

No 44º Congresso do Andes, a AdUFRJ e seus delegados defenderão:

1. participação ativa e autônoma nas eleições de 2026;

2. revisão do modelo de ajuste fiscal e descompressão do investimento público em ciência, cujo retorno econômico, social e ambiental tem sido amplamente comprovado;

3. a soberania nacional em todas as suas dimensões. Desde a revogação definitiva das tentativas de licenciamento ambiental destrutivas e militarização, inclusive do ensino, passando pela soberania digital e inserção do país em entidades multilaterais contra o hegemonismo imperialista.

Andrea Pereira Parente, Daniel Negreiros Conceição, Ligia Bahia, Luisa Andrea Ketzer, Maria Tereza Leopardi Mello, Michel Gherman, Pedro Lagerblad de Oliveira

CONFIRA AQUI O TEXTO DA ADUFRJ EM PDF

CONFIRA AQUI O CADERNO DE TEXTOS DO ANDES

WhatsApp Image 2026 01 22 at 19.43.13 4Foto: Fatemeh Bahrami/Anadolu/picture allianceO governo do Irã enfrenta protestos em todo o país desde o fim de dezembro. Os manifestantes foram às ruas contra as dificuldades econômicas e as restrições de liberdade impostas pelo regime dos aiatolás. Já o governo responsabiliza inimigos estrangeiros pelos protestos, sobretudo o presidente norte-americano Donald Trump, a quem acusa de infiltrar agentes entre os manifestantes.
Em quase quatro semanas de manifestações, o número de mortos pelas forças de segurança é incerto. O governo restringiu o acesso à internet e às comunicações. A ONG norte-americana HRANA divulgou um total de 3.308 mortos no último sábado (17). Uma fonte do governo iraniano citada pela agência Reuters no domingo (18) falou em 5 mil mortos.
O furor dos protestos arrefeceu nos últimos dias. Por um lado, a forte repressão das forças de segurança parece ter levado muitos a ficarem longe das ruas. O governo também desistiu de executar um jovem manifestante de 26 anos preso nos protestos na cidade de Karaj. Ainda paira no ar a ameaça de uma intervenção dos Estados Unidos no país persa, à qual o Irã promete reagir com força, o que pode levar a um conflito generalizado no Oriente Médio.
Diante de tantas incertezas, o Jornal da AdUFRJ ouviu três professores iranianos que atuam na UFRJ — todos são do Instituto de Matemática. Dois deles foram reticentes em comentar a crise em seu país natal, sobretudo porque se preocupam com suas famílias que estão no Irã. Hamid Hassanzadeh só sabe que seus parentes estão bem porque sua irmã conseguiu sair do país e passar as notícias. “O país está sem internet e sem contato telefônico. Só eu e minha irmã estamos fora, os outros parentes estão no Irã, em Isfahan e outras cidades do interior. Estão todos bem”, disse Hamid. A professora Maral Mostafazadehfard tem família em Teerã e recebeu a notícia de que estão todos em segurança: “Estou muito triste pela situação, e confesso que estou um pouco confusa e ainda não sei de que forma posso ajudar os povos no Irã”, resumiu.
Já o professor Hamidreza Anbarlooei fez um emocionante relato, que reproduzimos a seguir, sobre o reencontro com sua família. O docente também escreveu um artigo (veja abaixo), em que expressa a visão sobre a crise que assola seu país natal.

DEPOIMENTO
professor Hamidreza Anbarlooei

WhatsApp Image 2026 01 22 at 19.43.13 5Eu vinha planejando visitar meus país neste mês de janeiro há cerca de seis meses. Mesmo naquela época, a situação no Irã já não era boa, então decidimos nos encontrar na Turquia, onde as coisas estavam mais tranquilas. Meus pais e eu compramos as passagens com base nesse plano.
Cerca de uma semana antes do voo, no entanto, a situação piorou repentinamente. Um dia, enquanto conversávamos pelo WhatsApp sobre o hotel e as coisas que pretendíamos fazer na Turquia, a conexão foi interrompida de forma abrupta. Depois disso, não houve mais nada — sem internet, sem celulares, sem telefones fixos. Tudo ficou fora do ar.
Estávamos ouvindo notícias muito ruins e não havia nenhuma maneira de saber se nossas famílias estavam seguras. Durante cinco dias, não tive informação alguma. Então, um amigo meu que havia deixado o Irã por terra, de carro, conseguiu me ligar. Ele me disse que minha mãe havia conseguido avisá-lo de que eles estavam bem e ainda planejavam viajar. Essa foi a única notícia que tive.
Diante disso, decidi ir para a Turquia e esperar por eles, embora estivesse ouvindo notícias terríveis e testemunhando um grande número de voos cancelados. Eu acompanhava constantemente o FlightRadar, observando quais voos ainda sobrevoavam o Irã e tentando adivinhar se meus pais conseguiriam sair do país.
Cheguei à Turquia no horário e fiquei esperando, observando com ansiedade o painel de chegadas para ver se o voo deles apareceria. Após um dia longo e estressante, eles finalmente chegaram — mas em outro voo. Eles conseguiram comprar novas passagens, muito mais caras, e deixar o país.
Quando aterrissaram e me ligaram pelo WhatsApp, minutos antes eu estava convencido de que tudo tinha acabado e que não conseguiria encontrá-los desta vez. Mas, de repente, eu tinha tudo o que queria.
Jornalistas estão falando em um massacre e relatando que o número de manifestantes mortos pode ter chegado a 12.000. Não sei se esse número é verdadeiro ou não, mas é evidente que o número real de pessoas mortas é muito alto. Todos no Irã estão ansiosos agora, e a situação é completamente instável.

ARTIGO

O Irã Chegou ao Ponto de Não Retorno

O Irã enfrenta um colapso nacional. Esta não é uma crise temporária. Este é um ponto de não retorno.
Apenas nos últimos três meses, a moeda iraniana perdeu cerca de 90% de seu valor. Nos últimos cinco anos, desvalorizou-se aproximadamente 15 vezes e, desde o início do atual regime, a moeda entrou em colapso por mais de 22 mil vezes. A inflação está fora de controle, enquanto os salários se tornaram praticamente inúteis. A maioria das pessoas já não consegue acompanhar o custo básico de vida.
O governo controla quase todos os grandes setores econômicos e bloqueia sistematicamente a atuação de indivíduos independentes, empreendedores e empresas privadas. A riqueza é distribuída apenas entre os leais ao regime. O restante da sociedade sobrevive com migalhas.
As sanções, ao contrário do que muitos pensam, tornaram-se um presente para o regime. Como o petróleo não pode ser vendido por canais legais e transparentes, ele é comercializado no mercado negro, onde não há fiscalização. O nível de corrupção nesse sistema é extraordinário. O desaparecimento de 20 bilhões de dólares é tratado como algo normal.
Isso criou uma sociedade profundamente dividida: uma pequena elite ligada ao governo vive como ricos da Europa e dos Estados Unidos, enquanto a maioria dos iranianos luta diariamente para sobreviver. Hoje, muitas pessoas precisam de empréstimos para comprar alimentos básicos como laticínios, arroz e carne, ou até medicamentos essenciais. O desemprego está fora de controle. Não há perspectiva de futuro. A população chegou ao limite.

Como o Irã Chegou a Esse Ponto?
O Irã é um país rico em recursos naturais, mas essa riqueza foi usada para fantasias ideológicas, e não para o bem-estar da população. Bilhões de dólares foram gastos no fortalecimento de grupos regionais aliados, com o objetivo de influenciar a política externa e perseguir metas irreais — como a declarada intenção de eliminar Israel.
O regime armou grupos militantes em todo o Oriente Médio, desperdiçando somas gigantescas na Palestina, Síria, Iraque, Iêmen, Venezuela e outros lugares. Esses investimentos se basearam em uma visão ideológica ultrapassada, facilmente neutralizada por tecnologias militares modernas. O resultado não foi força, mas isolamento — e, por fim, uma guerra com Israel. Dois países separados por várias fronteiras foram arrastados para um conflito, enquanto o povo iraniano paga o preço.
O programa nuclear é outro exemplo. Ao longo de 45 anos, o regime gastou trilhões de dólares nesse projeto. Apesar de enormes sacrifícios e sanções severas, não houve nenhum benefício civil real. Em vez disso, os iranianos perderam acesso ao sistema bancário internacional, a medicamentos, à educação, aos mercados globais e à dignidade. Gerações inteiras viram sua riqueza desaparecer ano após ano. Se esse prejuízo for somado ao longo de quatro décadas, resta quase nada hoje.
O regime também se aliou a agressores globais. Drones iranianos foram enviados à Rússia para atacar a Ucrânia. Para os iranianos, isso é profundamente humilhante. Há mais de 250 anos, a Rússia é vista como um adversário histórico do Irã — e, ainda assim, o regime escolheu apoiá-la militarmente.

Repressão e Brutalidade
Muitos no mundo se lembram dos protestos após a morte de Mahsa Amini e da imposição do uso obrigatório do hijab. A brutalidade do Estado foi visível. Mas o que recebeu menos atenção foi o uso de agentes químicos: gases que provocavam sintomas semelhantes aos da Covid-19 e que foram utilizados contra escolas de meninas durante e após os protestos, como punição coletiva às mulheres.
Imagine um governo usando armas químicas contra suas próprias crianças.
Os protestos atuais são sobre tudo: colapso econômico, autoritarismo religioso, falta de liberdade, desemprego, política externa, guerra e o futuro. Todo iraniano tem pelo menos um motivo para estar nas ruas.
Esses protestos não são estimulados por países estrangeiros, por Israel ou pelos Estados Unidos. Anos antes das tensões regionais atuais, os iranianos já haviam demonstrado repetidamente o desejo de derrubar esse regime. Em 2019, durante protestos contra o aumento do preço dos combustíveis, o governo matou 1.500 pessoas em apenas três dias — um número de mortos comparável ao de uma guerra de vários dias.

Mas desta vez é diferente.
Os iranianos entenderam que esta é a última linha. Se a mudança não acontecer agora, não haverá futuro.
Protestos massivos tomaram conta de todo o país — das grandes cidades a cidades pequenas que muitos fora do Irã sequer conheciam. Todos estão nas ruas.
O governo cortou todo o acesso à internet, às redes de celular e às linhas telefônicas. Um apagão total. Nenhuma comunicação. Nenhuma informação. Com base em experiências anteriores, tememos que, nas próximas semanas, o mundo descubra a dimensão da violência cometida durante esse silêncio.

Uma mensagem ao povo brasileiro
Pedimos urgentemente ao povo do Brasil que fique ao lado do povo iraniano. Pressionem seu governo para que enxergue o que realmente está acontecendo. Não permitam que a propaganda da República Islâmica distorça a realidade — não deixem que os iranianos sejam retratados como agentes estrangeiros ou inimigos da estabilidade.
Os verdadeiros herdeiros do Irã são seu povo. Eles lutam por dignidade, liberdade e sobrevivência.
O silêncio de hoje será lembrado amanhã.

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