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Foi uma injeção de ânimo. O ato em defesa da Educação de terça-feira (18) mostrou que quando as divergências são postas de lado em prol de um objetivo comum e urgente a chama da esperança se renova. Estudantes, professores e funcionários da UFRJ caminharam juntos do Largo de São Francisco à Cinelândia para gritar “Fora, Bolsonaro” e mobilizar a sociedade pela eleição de Luis Inácio Lula da Silva (PT) no segundo turno, como mostra nossa matéria nas páginas 4 e 5. No “esquenta” para o ato, em aula aberta em frente ao IFCS, o presidente da AdUFRJ, professor João Torres, convocou os manifestantes, estudantes em sua maioria: “Estamos aqui em um ato unificado, ninguém vai nos dividir. A história vai mostrar que nós escolhemos a opção correta. Vamos eleger Lula!”.
Para a AdUFRJ, o ato de terça-feira tem um significado especial, por sua amplitude e pela efetiva participação de outros setores da sociedade civil. Desde a campanha que a elegeu, a atual diretoria do sindicato dos professores da UFRJ vem defendendo o engajamento da base para a eleição do candidato do campo democrático com mais chances de derrotar o fascismo representado por Jair Bolsonaro. Quando o Andes decidiu pela neutralidade na eleição, em seu 65º Conad, escrevemos neste mesmo espaço, em nossa edição 1.237: “A diretoria da AdUFRJ compreende a gravidade histórica do momento, avalia que não há espaço para principismo infantil e que é dever de quem tem responsabilidade com o futuro deste país se engajar diuturnamente na campanha de Lula”.
Desde então, a AdUFRJ vem cumprindo o prometido e trabalhado pela mobilização em defesa da candidatura Lula. O sindicato participa desde maio do Comitê de Luta da UFRJ, de apoio à candidatura Lula. Em 11 de agosto, por exemplo, organizamos ao lado de outras entidades representativas de segmentos da universidade a leitura da Carta às Brasileiras e aos Brasileiros em Defesa do Estado Democrático de Direito, na área dos pilotis do CT do Fundão. Em 31 de agosto, o apoio político à candidatura Lula foi referendado por ampla maioria pelos professores da UFRJ, reunidos em assembleia. Em 8 de outubro, a AdUFRJ foi até a Quinta da Boa Vista, para dialogar com a população e mostrar o quanto o governo Bolsonaro destruiu a Educação. É com muito orgulho que defendemos o voto em Lula.
O mesmo orgulho que nos levou às ruas encorajou a estudante Rayca Borges, de 16 anos, a tremular da janela de sua casa, no Complexo do Alemão, a camiseta com o símbolo da UFRJ de sua prima Priscilla, aluna do curso de Odontologia da universidade, durante a passagem da comitiva de Lula pela comunidade, no último dia 12. Aluna do Ensino Médio, Rayca sonha em cursar Psicologia e ser mais uma das universitárias oriundas de camadas de baixa renda beneficiadas pelos programas de inclusão implantados nos governos Lula, como mostra nossa matéria da página 3.
Bolsonaro nunca apoiou as universidades — ao contrário, sempre as viu como inimigas. No primeiro debate presidencial do segundo turno, na Band, no domingo (16), o candidato do PL disse que não criara universidades em seu governo porque elas haviam ficado “fechadas na pandemia”. Nossa matéria da página 7 mostra que essa é mais uma mentira de Bolsonaro: as universidades não só continuaram funcionando como foram fundamentais no combate ao coronavírus.
Nesta reta final de campanha, a pouco mais de uma semana do segundo turno, uma das missões de quem apoia a eleição de Lula é justamente desmentir as mentiras em série produzidas pela fábrica de fake news da campanha bolsonarista. A reportagem da página 6 aborda o encontro dos comunicadores do campo progressista com Lula, em que o comando da campanha dá algumas dicas de como atuar nas ruas e nas redes nestes últimos dias de mobilização.
Vamos juntos, até a vitória!
Nota: Nesta sexta-feira (21), às 9h30, em modelo híbrido, teremos a assembleia da AdUFRJ que vai definir a delegação do sindicato ao Conad Extraordinário do Andes e debater uma nova campanha de sindicalização.
Igor VieiraMais de 500 cientistas brasileiros assinaram um manifesto a favor da candidatura de Lula, frisando avanços na Ciência promovidos em seus dois governos em contraponto aos sucessivos cortes na área feitos pelo governo Bolsonaro. O documento foi divulgado no dia 10 e é encabeçado pelos reconhecidos cientistas Ennio Candotti (veja perfil abaixo) e Renato Cordeiro, pesquisador emérito da Fiocruz.
O manifesto destaca: “Condenamos o atual governo por fomentar a ignorância contra a razão, devastar os ambientes e o viver juntos em nossa terra; por agredir o bom senso na grave pandemia da saúde; por tratar a covid-19 e suas vítimas com desprezo, estimulando o uso de terapias inócuas como ivermectina e cloroquina”.
De início, o manifesto era voltado para os conselheiros da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e de outras comunidades científicas. Mas as adesões se avolumaram, e foram abertas para membros da comunidade científica em geral, contando com a assinatura de expoentes como o ex-diretor do INPE Ricardo Galvão, a professora da UFRJ Ligia Bahia, diretora regional da SBPC no Rio de Janeiro, e o neurocientista Sidarta Ribeiro.
Professor emérito da UFRJ e ex-presidente da Academia Brasileira de Ciências (ABC), o físico Luiz Davidovich destaca os cortes na área da Ciência: “O governo prometeu liberar míseros R$ 2,7 bilhões no ano passado para o Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT), porém não foi liberado por furar o teto de gastos. Mas o bolsolão não fura”, critica. Para o cientista, o governo Bolsonaro foi um retrocesso: “Levou o Brasil para trás”.
Em contrapartida, o físico enaltece os feitos dos governos Lula. “Apoiamos Lula pois seu governo fez o oposto do que esse governo fez. Lula aumentou o alcance do ensino superior no país, acabou com o famoso contingenciamento de orçamento para Ciência”.
Sidarta Ribeiro diz que os dois governos Lula foram os melhores para o povo brasileiro: “Embora sejam legítimas as críticas feitas ao governo Lula, ele foi o melhor presidente que já tivemos em CT&I, Educação e Cultura. O manifesto é uma construção de amor e respeito a tudo que foi construído no passado”.
Para a professora Ligia Bahia, “é impossível ser racional, acompanhar o ocorrido na pandemia, e votar em Bolsonaro”. Ela defende o voto em Lula contra o fascismo. “As pessoas não podem se manter nessa posição de neutralidade, não é sempre que temos que ter uma posição ideológica, mas nesse caso é preciso. As ameaças são físicas, de expressão. Não é só em relação aos cortes, às carências, é algo muito maior que isso.”
Já Ricardo Galvão mostra preocupação também com o novo Congresso, e relembra os motivos da sua exoneração do Inpe, em 2019, por Bolsonaro. “Ele chamou toda a comunidade científica de mentirosa, disse que eu estava contra o Brasil. Tive discussões com o ‘desministro’ Salles, e ficou claro que o governo Bolsonaro e seu entorno têm os cientistas como inimigos”.
Para o ex-diretor do Inpe, a academia subestimou a força do bolsonarismo e os cientistas devem ter um papel mais atuante contra o negacionismo. “Não basta assinar o manifesto. Nós temos que atuar junto com os parlamentares que defendem a Ciência, manifestar fortemente nossa voz, pelas redes sociais e mídias”.
Outro manifesto divulgado nesta sexta-feira (14) — Ciência, Tecnologia e Inovação com Lula — foi idealizado para uma participação mais ampla de cientistas, professores, pesquisadores, técnicos, empresários, trabalhadores, servidores, pós-graduandos e gestores da área de CT&I, mas pode ser assinado por qualquer pessoa e está disponível em https://cienciacomlula.observatoriodoconhecimento.org.br/.
O documento fala do legado trágico do governo Bolsonaro e defende a eleição de Lula. “As propostas de Lula para o próximo governo recuperam e ampliam em muito o que seu governo anterior realizou. Pontos essenciais serão a recuperação econômica do país, a melhoria do sistema educacional e da saúde pública, a extinção da fome e a preocupação com o meio ambiente e com uma agricultura sustentável”, diz o texto.
Até o fechamento desta edição já haviam assinado o documento, entre outros, os professores Ildeu Moreira e Luiz Davidovich, da UFRJ, Paulo Artaxo, da USP, e Sergio Rezende, da UFPE.
O professor Ennio Candotti é um dos idealizadores do manifesto dos cientistas, ao lado de Renato Cordeiro, da Fiocruz. Nascido em Roma em 1942, Candotti veio para o Brasil dez anos depois, estudou na USP e regressou à Itália. A convite do Instituto de Física, voltou para lecionar na UFRJ e teve participação ativa no início da AdUFRJ.
Ex-presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) por quatro mandatos (1989-1991, 1991-1993, 2003-2005, 2005-2007), recebeu o título de presidente de honra da entidade. Atualmente, dirige o Museu da Amazônia (MUSA).
“Não é possível fazer ciência em uma sociedade tolhida, amarrada, tradicionalista, fechada. As três palavras: tradição, família e propriedade estão na base do charlatanismo. É preciso reconquistar o espaço histórico da Ciência para reconquistar a democracia plena no país”, disse, durante aula magna no Dia de Mobilização em Defesa da Ciência, em 2021.
Deputado Hugo LealOs escândalos envolvendo o orçamento secreto escancararam o modelo de corrupção da gestão Bolsonaro. O mais recente, no Maranhão, levou à prisão, no dia 14, de dois acusados de desvio de verba pública. A situação ilustra como a falta de transparência na execução orçamentária pode levar ao uso eleitoreiro do dinheiro público. Especialista em finanças públicas, a professora Esther Dweck, do Instituto de Economia, aponta que, em 2022, praticamente toda a fatia do orçamento secreto foi executada até julho. “É um indício de que esse dinheiro foi usado de forma eleitoral. O mais provável é que tenha sido rateado de forma não linear e isso beneficia a eleição de certos grupos políticos”, analisa.
A professora explica que o orçamento secreto se origina a partir de uma combinação de fatores. Um deles, o teto de gastos. A partir da Emenda Constitucional 95, os relatores passaram a ter a prerrogativa de fazer ajustes ao orçamento. “E cortar por dentro dos ministérios, já que o teto impõe uma concorrência de recursos entre as áreas”, justifica a professora.
As emendas do relator também competem com as emendas parlamentares impositivas. Isso modifica a configuração do orçamento das pastas. “No orçamento secreto, essa divisão fica personificada num parlamentar que se apropria, inclusive, do orçamento discricionário”, diz a especialista. “Esse mecanismo pode impactar o funcionamento da máquina pública”, alerta.
O Jornal da AdUFRJ fez um levantamento dos parlamentares do Rio de Janeiro que mais receberam recursos a partir de emendas do relator em 2022. E descobriu uma lista de “usuários externos” que levou parte importante do dinheiro.
Esse novo personagem – o usuário externo – foi criado este ano, depois que o Congresso aprovou normas para tornar mais transparente a destinação de recursos do orçamento secreto. Entre os usuários externos está Carlos Guilherme Pereira Junior, servidor da prefeitura de São Gonçalo, cidade gerida pelo prefeito bolsonarista Capitão Nelson, do PL-RJ. Sozinho, Carlos conseguiu R$ 120 milhões, mais até que o deputado Hugo Leal (PSD-RJ), relator do orçamento, que amealhou R$ 73,39 milhões em 2022.
Outro nome, Almeida Neto, foi subsecretário de Planejamento da prefeitura de Duque de Caxias e é atual secretário parlamentar do deputado Gutemberg Reis (MDB-RJ). Reis recebeu R$ 8,85 milhões, enquanto seu assessor obteve R$ 34,5 milhões.
Se Lula vencer, o orçamento secreto pode estar com os dias contados, avalia o professor Ivo Coser, do IFCS. “O STF deve julgar ação sobre o tema. Se Bolsonaro for derrotado, o orçamento secreto pode ser considerado inconstitucional”. Veja a lista dos campeões do Rio.

Carlos Guilherme Pereira Junior
R$ 120 milhões
Quem é?
Servidor da Prefeitura de São Gonçalo, que é liderada pelo bolsonarista Capitão Nelson,
do PL-RJ
Larissa Malta
Storte Ferreira
R$ 39,9 milhões
Quem é?
Secretária municipal de Saúde de Magé, município liderado por Renato Cozzolino, do PP-RJ
Almeida Neto
R$ 34,5 milhões
Quem é?
Foi subsecretário de Planejamento Estratégico da prefeitura de Duque de Caxias. Atual
secretário parlamentar do
deputado federal Gutemberg Reis (MDB-RJ)
Getulio Jose Pereira
R$ 27,5 milhões
Quem é?
Médico no município de Barra Mansa, cuja prefeitura é de Rodrigo Drable, do PROS-RJ. Provedor da Santa Casa de Misericórdia da cidade. Também atua como médico do trabalho em clínica particular
Wladimir Barros Assed Matheus De Oliveira
R$ 25 milhões
Quem é?
Prefeito de Campos dos
Goytacazes, filho de Anthony Garotinho e Rosinha Matheus, filiado ao PSD-RJ
Rafael Muzzi De Miranda
R$ 12 milhões
Quem é?
Prefeito de Cachoeiras de
Macacu filiado ao PP-RJ
Leandro Luiz Leitão Dos Santos
R$ 9,6 milhões
Quem é?
Secretário Municipal de Habitação de São João de Meriti. Tem empresa desde 2004 situada no município de Mesquita. O CNPJ está bloqueado na Receita Federal por falta de apresentação de declarações de transparência. A empresa é considerada “inapta” desde junho deste ano. Prefeitura liderada por Dr. João, do PL-RJ
Marcelo Jandre Delaroli
R$ 9,16 milhões
Quem é?
Prefeito de Itaboraí
filiado ao PL-RJ
Cintia Gonçalves Duarte
R$ 8 milhões
Quem é?
Fundadora da Ong Con-tato Centro de Pesquisas e de Ações Sociais e Culturais, localizada no Grajaú. Também é sócia-proprietária de um restaurante da franquia Koni
Nicodemos De Carvalho Mota
R$ 7,35 milhões
Quem é?
Presidente da ONG Instituto Carioca de Atividades, localizado na Barra da Tijuca. O instituto autodefine sua atuação na “gestão e execução de projetos de várias naturezas” e define como uma das fontes de recursos as emendas parlamentares
Júlia FernandesA hashtag #OrgulhoDeSerUFRJ, que encabeça cada página do Jornal da AdUFRJ, não poderia ser mais apropriada para esta notícia. Apesar de todos os obstáculos à ciência produzida no Brasil, um projeto do Instituto de Física ganhou um prêmio da prestigiada revista britânica Nature, dia 11. O “Tem Menina no Circuito” foi o vencedor da edição 2022 do Nature Awards For Inspiring Women in Science, em Science Outreach. A categoria engloba iniciativas que apoiem jovens a estudar ciências naturais, tecnologia, engenharia, matemática e medicina, ou que aumentem a quantidade de mulheres nessas carreiras.
“Ganhar o prêmio nesse momento em que estão tentando desacreditar a ciência, e em que as universidades estão sendo atacadas e sofrendo cortes, é motivo de muito orgulho, e um incentivo para a gente continuar resistindo”, relata a professora Elis Sinnecker, uma das coordenadoras do projeto. “Mais que incentivar essas meninas para a carreira das ciências exatas, o que a gente acaba fazendo é a inclusão social pela ciência”, completa.
Desde o início, em 2013, o projeto atua em escolas públicas situadas em regiões periféricas do Rio de Janeiro. “Nessas escolas, é comum a gente encontrar meninas que nunca saíram do entorno de onde moram. Muitas não sabem que as universidades federais têm excelência no ensino, e que são públicas. Elas desconhecem o programa de cotas e de assistência estudantil”, afirma.
“O Tem Menina no Circuito está direcionado a lugares da cidade e do Estado do Rio em que há pouca oferta de atividades culturais e científicas. São locais com baixo Índice de Desenvolvimento Humano (IDH)”, reforça Tatiana Rappoport, também integrante da coordenação. Além do local, também se destaca a importância de incluir essas meninas na área das ciências. “Estamos muito preocupadas com a inclusão. É preciso mostrar que elas podem fazer o que quiserem, inclusive seguir uma carreira de exatas em uma universidade pública”, acrescenta.
“Acho que a conquista em si é importante para o projeto e para a extensão da UFRJ em qualquer momento que viesse. É um reconhecimento internacional da qualidade do que estamos fazendo. Claro que, em um momento onde a universidade e a ciência são ameaçadas, onde também está em jogo o papel da mulher na sociedade, o prêmio é ainda mais importante”, explica Rappoport.
FINANCIAMENTO INSTÁVEL
A falta de estabilidade no financiamento é um dos problemas. Hoje, o projeto recebe verbas da FAPERJ e do Instituto Reditus — uma associação privada, sem fins lucrativos, formada principalmente por alunos e ex-alunos da UFRJ. Porém, de 2017 até o ano passado, quase não houve recursos. Foi o momento mais difícil do “Tem Menina no Circuito”. “Na ocasião, tivemos um apoio importante da pró-reitoria de Extensão, com algumas bolsas para as nossas monitoras, que são as meninas que vão às escolas semanalmente fazer as atividades com as alunas”, diz Elis.
Segundo ela, os editais governamentais não atendem às necessidades exigidas por este tipo de projeto. “A gente traz as estudantes para fazer atividades dentro da universidade, para que elas conheçam e sintam a sensação de pertencimento ao local, o que é muito importante. Mas é essencial, também, alimentar essas meninas, e nenhum edital do governo contempla lanche, que é algo superbásico”, explica.
Na cerimônia de premiação realizada em Londres, a professora Thereza Paiva, outra coordenadora, fez questão de dedicar o resultado às participantes e ex-participantes do projeto. Muitas delas ingressaram nas universidades. “A gente tem meninas que frequentaram o curso de Física, Engenharia Química, mas também outras que fizeram Letras, Arquitetura, Odontologia, e vários outros cursos”, informa Elisa. “No nosso projeto, a gente não trabalha só com quem gosta de exatas, mas com qualquer uma que queira participar. Com isso, a gente acaba trabalhando com meninas que têm diferentes habilidades e que acabam indo para a universidade em diversas carreiras”, afirma a docente. Uma formanda da primeira turma, no entanto, seguiu a área de exatas, e fez licenciatura em Física. “Hoje, ela é professora em uma escola no ensino médio”, acrescenta Thereza.
O investimento está diretamente relacionado ao sucesso do projeto. “Ao longo dos anos, observamos que a motivação das meninas para a ciência e a busca pelo ensino superior são maiores em época de maior financiamento. É quando conseguimos trazê-las com mais frequência para a UFRJ e proporcionar atividades fora da escola”, conta Thereza. “Essa conquista mostra a resiliência da comunidade universitária”, completa.
A docente espera que iniciativas como o “Tem Menina no Circuito” se multipliquem pelo país. “É muito importante que mais cientistas se engajem em atividades de divulgação científica de qualidade. O movimento antivacina e o retorno de doenças praticamente erradicadas, como a poliomielite, nos mostram os enormes e graves riscos da falta de letramento científico da sociedade”, conclui.
Foto: Alessandro CostaSilvana Sá e Igor VieiraPassado o primeiro turno das eleições, é hora de analisar o que as urnas nos dizem. Em âmbito nacional, um dos dados que chama atenção é o aumento de votantes no ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e no PT. Desde 1989, o partido e o candidato vêm numa crescente conquista do eleitorado. Houve oscilação para baixo apenas em 2014 e 2018.
“Essa votação é importante porque nos mostra que não devemos aderir a discursos derrotistas, nem a nada que venha tornar essa campanha reativa”, analisa a professora Mayra Goulart, vice-presidente da AdUFRJ e docente do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais. “Essa é uma campanha proativa. Estamos apresentando e defendendo uma visão de sociedade”, argumenta.
Para a cientista política, o desempenho de Lula no primeiro turno tem dois qualificadores. Um deles é o fato de seu oponente ser o atual presidente da República. “É uma vitória sobre um presidente incumbente”, diz. “Além disso, Bolsonaro faz algo inédito: ele injeta um grande volume de recursos de forma descoordenada, com propósito eleitoral mais imediato possível”, analisa Mayra. “Ele usa a máquina pública contra seu adversário, não só em relação ao dinheiro, mas no uso político de ministérios, por exemplo, para criticar as pesquisas eleitorais”.
O outro fator é que o PT aumentou sua votação sem sinalizações à direita. “Esse ano não teve ‘carta aos brasileiros’, não houve apresentação de um Ministério da Economia prévio já comprometido com determinadas pautas, como o teto de gastos”, observa a professora. “O PT está se apresentando como um partido de esquerda. Defendendo seu legado de inclusão social e distribuição de renda”, afirma.
Ao mesmo tempo, Bolsonaro perdeu pequeno percentual de seu eleitorado. A docente acredita que essa queda seja resultado da má condução da pandemia, mas a maior tendência é de fidelização de seus eleitores. “Quem vota em Bolsonaro está satisfeito porque ele entregou o que prometeu, algo muito abstrato que é a ‘manutenção da ordem’, da família tradicional”.
Também professora do IFCS, a cientista política Thais Aguiar analisa o quadro legislativo. Na Câmara, a docente acredita que se manteve um equilíbrio entre forças que já disputavam a casa. A novidade mesmo é o Senado. “Já houve uma ofensiva do PL, se entendendo como partido majoritário, de galgar à presidência do Senado”, diz. “Isso coloca em risco projetos de leis progressistas e acaba com as questões dos freios e contrapesos dos Poderes”, acredita a professora. “A própria Damares (Alves, ex-ministra de Bolsonaro) falava, quatro meses antes das eleições, que disputaria a presidência do Senado”, lembra. “Rodrigo Pacheco (atual presidente do Senado) estava servindo até agora como uma barreira de contenção a esses propósitos”.
COMPARATIVO DE OUTRAS ELEIÇÕES
1989
1º turno
eleitorado:
82.074.718
comparecimento:
72.290.216 (88,08%)
Abstenção:
9.784.502 (11.92%)
votos válidos:
68 milhões (93,5%)
brancos e nulos:
5 milhões (6,5%)
Collor - PRN:
20.611.030 votos (30,48%)
Lula - PT:
11.622.321 votos (17,19%)
1994
1º turno
eleitorado:
94.732.410
comparecimento:
77.898.464 (82,23%)
abstenção:
16.833.946 (17,77%)
votos válidos:
63.262.331 (81,21%)
brancos e nulos:
14.636.133 (18,79%)
Fernando Henrique PSDB:
34.350.217 votos (54,24%) ELEITO
Lula - PT:
17.112.255 votos (27,07%)
1998
1º turno
eleitorado:
106.100.596
comparecimento:
83.297.773 (78,50%)
abstenções:
22.802.823 (21,49%)
votos válidos:
67.722.303 (81,30%)
brancos e nulos:
15.575.470 (18,7%)
Fernando Henrique PSDB:
35.936.382 votos (53,06%)ELEITO
Lula - PT:
21.475.211 votos (31,71%)
2002
1º turno
eleitorado:
115.253.816
comparecimento:
94.805.583 (82,25%)
abstenção:
20.448.233 (17,74%)
votos válidos:
84.952.512 (89,60%)
brancos e nulos:
9.850.438 (17,75%)
Lula - PT:
39.455.233 votos
(46,44%) - 2º turno
José Serra - PSDB:
19.705.445 votos
(23,19%) - 2º turno
2006
1º turno
eleitorado:
125.912.935
comparecimento:
104.820.459 (83,25%)
abstenção:
21.092.675 (16,75%)
votos válidos:
95.996.733 (91,58%)
brancos e nulos:
8.823.726 (8,42%)
Lula- PT:
46.662.365 votos
(48,60%) - 2º turno
Geraldo Alckmin - PSDB: 39.968.369 votos
(41,63%) - 2º turno
2010
1º turno
eleitorado:
135.804.433
comparecimento:
111.193.747 (81,88%)
abstenção:
24.610.296 (18,12%)
votos válidos:
101.590.153 (91,36%)
brancos e nulos:
9.603.594 (8,64%)
Dilma Rousseff- PT:
47.651.434 votos
(46,91%) -2º turno
José Serra - PSDB:
33.132.283 votos
(32,61%) - 2º turno
2014
1º turno
eleitorado:
142.822.046
comparecimento:
115.122.611 (80,61%)
abstenção:
27.699.435 (19,39%)
votos válidos:
104.023.543 (90,36%)
brancos e nulos:
11.099.068 (9,64%)
Dilma Rousseff- PT:
43.267.668 votos
(41,59%) - 2º turno
Aécio Neves - PSDB:
34.897.211 votos
(33,55%) - 2º turno
2018
1º turno
eleitorado:
147.306.295
comparecimento:
117.364.654 (79,67%)
abstenções:
29.941.171 (20,33%)
votos válidos:
107.050.749 (91,21%)
brancos e nulos:
10.313.159 (8,79%)
Jair Bolsonaro-PSL:
49.276.990 votos
(46,03%) - 2º turno
Fernando Haddad - PT: 31.342.051 votos
(29,28%) - 2º turno
2022
1º turno
eleitorado:
147.918.483
comparecimento:
123.682.372 (79,05%)
abstenções:
32.770.982 (20,95%)
votos válidos:
118.229.719 (95,59%)
brancos e nulos:
5.452.653 (4,41%)
Lula - PT:
57.259.504 votos
(48,43%) - 2º turno
Jair Bolsonaro - PL:
51.072.345 votos
(43,20%) - 2º turno