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As pesquisas eleitorais são instrumentos importantes para a democracia e passam por constante aperfeiçoamento, dizem especialistas ouvidos pelo Jornal da AdUFRJ. No caso das atuais eleições, o governo Bolsonaro contribuiu para ampliar as divergências entre levantamentos e o resultado das urnas ao não atualizar o Censo Demográfico nos últimos dois anos e ao incentivar comportamentos anticientíficos.
“Os institutos de pesquisa montam suas amostras a partir dos dados conhecidos sobre a população. A fonte mais utilizada costuma ser o censo. O problema é que o último já tem mais de 10 anos, pois Bolsonaro impediu a realização dele”, afirma Theófilo Rodrigues, um dos coordenadores do Laboratório de Partidos e Política Comparada (LAPPCOM), vinculado ao Departamento de Ciência Política da UFRJ. “Ou seja, cada instituto atualizou o censo de um modo distinto. Essa é a principal razão das diferenças entre os institutos. Na eleição de 2024, não haverá esse problema”, completou.
As diferenças atuais não justificam a formação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito sobre o trabalho dos institutos, como pede o senador Marcos do Val (Podemos-ES). Ou o pedido de investigação à Polícia Federal do ministro da Justiça, Anderson Torres. Muito menos o projeto de lei protocolado pelo líder do governo na Câmara, Ricardo de Barros (PP-PR), que prevê pena de reclusão e multa dos responsáveis pelos institutos que divulgarem pesquisas em que o resultado das urnas fique fora da margem de erro prevista.
“Fiscalização demais nunca é problema. É saudável que institutos de pesquisas sejam fiscalizados. Mas uma CPI como instrumento de perseguição é exagero. Há temas mais importantes para serem alvos de CPI no Brasil”, argumenta o coordenador do Lappcom.
A Associação Brasileira dos Pesquisadores Eleitorais (Abrapel) também respondeu aos questionamentos bolsonaristas, esta semana. “Pesquisas de opinião são realizadas de maneira científica há décadas em democracias no mundo todo. São instrumentos fundamentais para o conhecimento da sociedade, para a formulação de políticas públicas e para a informação dos cidadãos”, diz um trecho. “Pesquisas de opinião apontam tendências e percepções e, no caso de eleições, de maneira alguma pretendem produzir prognósticos”.
Alessandra Maia, integrante do Lappcom e professora do Departamento de Ciências Sociais da PUC, concorda. “Os institutos precisam prestar contas. Mas cobrar é uma coisa, proibir é outra”, disse. “Passa pela discussão pública o fato de que é preciso aperfeiçoar os métodos. O nome já está dado: pesquisa. Que é baseada em acerto e erro. Quando ocorre algo que foge da situação controle, precisa ser avaliado para ser aperfeiçoado. A gente vive um momento muito anticientífico”.
A docente chama atenção para variáveis que fogem ao controle de qualquer modelo. “Ainda que a gente consiga estimar qual o percentual da população que vota em cada candidato, também é preciso pensar quem de fato vai votar. A pessoa diz que vai votar no fulano, mas no dia não vai votar. Em algumas regiões, tivemos até 25% de abstenção”, explica.
As pesquisas também prestam um papel pedagógico. “Se você mora num lugar que é muito bolsonarista, você acha que o Bolsonaro vai ganhar. Isso não necessariamente vai acontecer. A pesquisa também ajuda neste sentido, de trazer mais realidade para as pessoas de que há outros que pensam diferente”, avalia a professora.
MAIS TRANSPARÊNCIA
Professor do Departamento de Ciências Sociais da PUC e integrante do grupo de pesquisa Graphus, Antonio Alkmim é outro especialista contrário à criminalização dos institutos, mas cobra mais transparência das pesquisas. “As bases de dados precisam ser divulgadas até para verificar inconsistências. Isso não precisa ser no exato momento, mas pode ser uma semana depois. O instituto que fizer isso vai possibilitar a checagem pública da qualidade das pesquisas”, afirma. “Hoje, são divulgados os gráficos, a metodologia, os relatórios. A ‘planilha Excel’, digamos assim, sem a identificação das pessoas, você não tem. Posso ter um conjunto de informações cruzadas muito maior que o divulgado. Só divulgam a ponta do iceberg”.
Pesquisador aposentado do IBGE, Alkmim também cobra fortalecimento do instituto e a realização de um bom censo da população. “O que é o início dos parâmetros demográficos e sociais para que se desenhe uma boa e confiável amostragem dos eleitores”. Uma tarefa que deve envolver em parceria o Tribunal Superior Eleitoral, que tem problemas em seu cadastro. “Eu me mudo e não atualizo o título. Se morrer, demora duas eleições para sair do cadastro. Quando você se registra, dá o seu nível de instrução e isso fica lá. O TSE não sabe se você estudou mais”, exemplificou
O docente aponta o negacionismo como fator que pode ter contribuído para a subestimação dos votos nos bolsonaristas. Algo que também escapou do controle dos institutos. “Entrevistadores foram agredidos na rua. Pode-se apontar razoavelmente a hipótese de que as recusas (às pesquisas) estiveram mais provavelmente ligadas à raiva, ao ódio e ao negacionismo”.
RECORDE DE PESQUISAS
Nunca houve tantas pesquisas de intenção de voto no país. Segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral atualizados até este dia 7, foram realizadas 2.576. Em todo o 2018, houve 1.554 registros. Neste ano, a maioria ocorreu para os governos dos estados (1.537) e para o Senado (1.407). Os levantamentos para a presidência vêm em terceiro lugar, com 1.004. “Se considerarmos que informação é elemento-chave em uma democracia, quanto mais pesquisas houver, melhor para a democracia”, acrescenta Rodrigues.
Estela MagalhãesCom o fortalecimento do conservadorismo, as bancadas temáticas na Câmara dos Deputados têm maior peso para a direita. “Houve uma manutenção do tamanho da esquerda e um aumento de partidos à direita no lugar de partidos que operavam entre o centro e a direita”, analisa o professor Jorge Chaloub, de Ciência Política da UFRJ. O Partido Liberal, ao qual Jair Bolsonaro é filiado, detém a maior bancada na Câmara e foi o que mais cresceu, passando de 76 para 99 representantes a partir de 2023. “Ocorreu um crescimento de figuras e de partidos que têm se vinculado mais diretamente ao atual governo. Vemos uma caminhada da direita rumo a uma extrema-direita”, completa.
Para o professor, a agenda tradicional da extrema-direita será fortalecida, enquanto pautas mais progressistas perderão peso. “Pautas que ampliam os direitos individuais de minorias vão ter uma grande dificuldade nesta Câmara. Por outro lado, pautas que facilitam o acesso a armas e que reduzem a capacidade do Estado de atuar em políticas sociais para reduzir desigualdades terão mais facilidade”, indica.
Ainda assim, ele destaca a importância da renovação da liderança da esquerda a partir dessas eleições. “Mesmo que esses grupos não consigam construir uma maioria na Câmara para aprovar e barrar leis, a presença desses parlamentares faz muita diferença pela capacidade de localizar demandas, vocalizar pautas e modificar padrões de representação”, diz o professor.
Ainda distante de um reflexo igualitário da sociedade, a representação feminina na câmara foi de 15% para quase 18%. Para a professora Clara Araújo, de Ciências Sociais da Uerj, a luta das deputadas eleitas deve ser para preservar o que já foi conquistado. “É preciso considerar os compromissos ou não das deputadas em relação à igualdade de gênero”, lembra. A professora ainda destaca o conservadorismo do Congresso. “O PL, por exemplo, elegeu 17 mulheres. É pouco provável que haja um avanço da pauta de igualdade de gênero, a luta será para manter o que já foi conquistado”, analisa.
Dentre as mulheres eleitas estão Erika Hilton e Duda Salabert, as duas primeiras transsexuais a ocuparem a Câmara dos Deputados. “A eleição dessas deputadas é fruto de uma resistência muito intensa”, analisa a professora Jaqueline de Jesus, do IFRJ e da UFRRJ, ativista do movimento LGTBQIA+. “Temos uma situação muito grave de retrocesso no Brasil. Nós tínhamos um deputado federal declaradamente LGBT, que era o Jean Wyllys. E ele teve que sair do Brasil porque sua família foi ameaçada de morte”, lembra a professora. “É necessário um engajamento muito maior no contexto político brasileiro hoje de mulheres, negros, indígenas e LGBTs para estarem representados do que dos homens brancos, isso independentemente da esquerda ou da direita”, completa.
A representação negra também cresceu com essas eleições, chegando a 135 deputados pretos ou pardos. A professora Jaqueline atenta para o comprometimento dos deputados com as pautas de igualdade racial. “Para determinar a bancada antirracista, é preciso analisar as propostas dos deputados eleitos quanto à inclusão da população negra e da população indígena e acompanhar a legislatura”, diz.
O professor Wallace Moraes, de Ciência Política da UFRJ e integrante do Coletivo de Docentes Negros, ainda destaca a possibilidade de fraude na autodeclaração dos parlamentares. “Em função da obrigatoriedade de candidaturas negras que ganham mais dinheiro do fundo partidário, muitos corpos brancos têm se apresentado como negros de maneira sorrateira”, diz. “A maioria dos candidatos negros foram eleitos por partidos de direita que historicamente não compram a luta antirracista. É necessário retomar as ruas, porque assim conseguiremos impor nossas pautas independentemente de quem for governo”, completa.
RETROCESSOS
A bancada da bala e a bancada evangélica ganham força com o crescimento da direita na Câmara dos Deputados. O número de policiais eleitos saltou de 25, em 2018, para 37, em 2022. “A bancada da bala tem sido bastante forte e, com as articulações ao longo da legislatura, pode ainda aumentar muito”, diz José Moroni, da ONG Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc). “Está posta a agenda do armamento da população. Você ter arma não significa que você vai ter mais segurança, mas essa é a concepção da extrema-direita”, lamenta.
Além disso, onze parlamentares que usam identificações evangélicas como “pastor” e “missionário” foram eleitos. “Eles tendem a ter um papel propositivo, como toda bancada, de passar suas pautas, mas também o poder de veto, que não é menor e consegue impedir o avanço de pautas progressistas”, diz o professor Jorge Chaloub. “Eles representam uma base social mobilizada e interessada, então não são um desvio do nosso sistema representativo, mas uma marca da nossa sociedade”, completa.
AGRONEGÓCIO
A Frente Parlamentar do Agronegócio reelegeu 126 deputados dos 241 e a composição de bancada ruralista vai depender das articulações durante a legislatura. “Apesar de ter pontos em comum, o agro não é uniforme”, destaca o professor Jorge Chaloub. “Há uma bancada que defende basicamente o fim de qualquer regulação ambiental e outra que reconhece a necessidade de algumas limitações até para manter o acesso ao mercado internacional”, explica.
Em contrapartida, o Movimento dos Sem Terra conquistou três vagas na Câmara e Camilo Santana, do Coletivo Nacional de Juventude do MST, evidencia a importância cada vez mais forte da pauta ambiental. “Os deputados devem levar a luta para o Congresso enquanto a militância dos movimentos faz a luta nas ruas para avançarmos na nossa construção de direitos, dignidade, reforma agrária e demarcação de terras indígenas”, diz.
MULHERES
A bancada feminina cresceu de 77 cadeiras em 2018 para 91 a partir dessas eleições. As mulheres vão ocupar 17,7% das vagas na Câmara. “Temos um congresso mais conservador”, analisa a professora Clara Araújo. “A representação não pode ser vista só pela questão numérica. É preciso considerar os compromissos ou não das deputadas em relação à igualdade de gênero”, completa.
MINORIAS RACIAIS
O número de deputados autodeclarados pretos ou pardos cresceu de 124 para 135 em 2022. “As mudanças devem vir pela auto-organização dos movimentos sociais negros, que pressionam o Congresso majoritariamente conservador e racista”, ressalta o professor Wallace Moraes. A representação indígena também cresceu, agora com cinco cadeiras na Câmara.
LGBTQIA+
“Essas eleições mostram um reconhecimento por parte do eleitorado de que não basta apenas ter pessoas de esquerda, no caso homens brancos cisgêneros, representando”, diz a professora Jaqueline de Jesus. A eleição das duas primeiras deputadas federais transsexuais, Erika Hilton e Duda Salabert, indica uma resistência representativa num momento de conservadorismo.
RELIGIOSOS
A bancada evangélica deve representar 20% da Câmara dos Deputados a partir de 2023. Em 2018 ela tinha quase 17% das cadeiras. “Os grupos religiosos passaram a não somente influenciar, mas a eleger representantes para uma ação política direta. São uma marca da nossa sociedade”, analisa o professor Jorge Chaloub.
ARMAMENTISTAS
A bancada armamentista, também conhecida como bancada da bala, terá 23 representantes no Congresso, sendo 16 deputados e sete senadores. “Está posta a agenda do armamento da população como um elemento de liberdade de uma maneira muito distorcida”, diz José Moroni, membro da ONG Inesc.
Foto: Fernando SouzaEstela MagalhãesO jingle “Sem Medo de ser Feliz”, composto pelo publicitário Hilton Acioli, embalou a esquerda brasileira em 1989. Nas primeiras eleições diretas para presidente após a ditadura, a música chamava grande parte da população a votar no petista: “Lula lá, com toda a certeza pra você/Meu primeiro voto/Pra fazer brilhar nossa estrela”. Agora, mais de três décadas depois, é a vez da juventude defender a democracia.
O exercício da cidadania é inédito para milhões de jovens de 16 a 21 anos, e será inaugurado neste domingo. “Fico feliz em poder votar numa eleição como essa. Estamos num momento muito decisivo. De um lado, um discurso quase neofascista; e, de outro, uma luta para manter a democracia”, diz Karolayne Carvalho, de 20 anos, estudante de Relações Internacionais. “É muito importante ter voz nesse enfrentamento da instabilidade política e votar pela credibilidade da democracia”, completa.
A participação dos jovens nas urnas será decisiva para essas eleições, segundo pesquisa do Datafolha: 51% das pessoas de 16 a 29 anos têm preferência por Lula, enquanto apenas 20% preferem Bolsonaro. “É fundamental garantir que os jovens votem no presente para que eles também possam votar no futuro”, diz o professor Jorge Chaloub, da Ciência Política da UFRJ. “A própria ideia de juventude é muito mobilizada quando você quer pensar qualquer tipo de mudança e renovação no cenário político”, analisa. Para ele, os ataques às universidades e à educação contribuíram para uma articulaçãojovem desde 2019. “A eleição está sendo marcada por disjunções muito fortes. Vemos uma tendência de quem é homem, branco, mais velho ou tem a renda mais alta a votar no Bolsonaro. A juventude está votando contra”, completa.
“A movimentação importante desse eleitorado nas redes sociais, especialmente nesses últimos dias, com uma adesão da comunidade artística e de influencers, nos apontam para uma possibilidade de consolidação desse voto”, analisa a professora Elisa Guaraná, da UFRRJ. Segundo a professora de Ciências Sociais, a forma como o governo federal lidou com a pandemia foi um fator para o levante da juventude. “Chegamos em 2022 com muita disputa dos votos da juventude, que já estava se desenvolvendo em 2018. Não é só uma mobilização eleitoral que leva esses jovens a votar. Eu acho que é realmente um movimento de discussão na sociedade sobre o papel da presidência da República que o governo Bolsonaro acabou gerando”, diz.
A professora ainda lembra da primeira vez que votou para presidente: em 1989, votou Lula. “Eu já era estudante na UFRJ e fizemos uma campanha muito grande com professores e técnicos ali no centro da cidade”, recorda. “A juventude tem um papel fundamental na defesa da democracia e da população brasileira. Nesse primeiro turno, nós precisamos dizer um basta para o Bolsonaro e votar na perspectiva de um governo Lula que volte efetivamente a incluir a população pobre, jovem, mulheres, com toda a diversidade que a população brasileira tem, no acesso aos seus direitos básicos”, encerra.
CONTRA AS ATROCIDADES
“O meu voto é contra todas as atrocidades que a gente tem vivido nos últimos anos por conta de todas as violações que Bolsonaro comete contra os valores democráticos do nosso país. Vou convictamente votar no Lula e espero que a vitória seja no primeiro turno”, diz Fernanda Mendes, estudante de Jornalismo que irá às urnas eleger um presidente pela primeira vez aos 20 anos. “Quero fazer parte da mudança que eu espero que ocorra a partir do ano que vem com Lula na presidência”, completa.
“Precisamos problematizar essa ideia de que o jovem não estaria interessado em política porque a adesão ao voto seria mais baixa do que nos anos anteriores”, diz a professora Olívia Perez, da Ciência Política da Federal do Piauí. Ela recupera a atuação política dos jovens nas redes e a formação de coletivos com foco em questões sociais. “Há outros lugares de fazer política que não a política institucional, mas há uma descrença em relação à política parlamentar. De fato, os jovens são pouco inseridos em termos de representação. Eles são 27% da população e a representação na esfera municipal do Legislativo é em torno de 8% e vem caindo nas últimas eleições”, explica. Para a professora, é preciso investir na inclusão dos jovens no debate político. “Num contexto dominado por homens brancos e mais velhos, a juventude tem ensinado a importância da inclusão da diversidade nas decisões coletivas”, completa.
ESTELA Minha zona eleitoral fica a 560 km do Rio de Janeiro. Nasci, cresci e tirei meu título no Vale do Aço, interior de Minas Gerais, antes de vir estudar na UFRJ. Neste domingo, vou dar meu primeiro voto para presidente na escola que minha mãe estudou quando criança, no bairro que morei a vida inteira.
Meu primeiro voto carrega a esperança de quem cresceu no governo Lula, sonhando com uma universidade pública de excelência, e a raiva de quem foi às ruas pela primeira vez no início de 2019 em defesa da educação superior, minha conquista tão recente. Cheguei ao Rio caloura e com a incerteza se a UFRJ duraria até o fim do meu curso, por causa dos grandes cortes orçamentários.
Mas o recomeço está próximo. São nove horas de viagem até o abraço, de volta ao bairro que guarda todos os meus “primeiros”. Me alegra poder votar em casa e, pela primeira vez, votar em Lula. O equilíbrio do primeiro passo, a delicadeza do primeiro beijo, a potência do primeiro voto.
JOÃO A eleição de 1989 foi a primeira na qual votei para presidente. Eu tinha 29 anos e votei encantado no Lula, de estrelinha de metal e camiseta. Estava no meio do doutorado no Fermi Accelerator Laboratory, em Chicago. Fizemos uma grande campanha entre os brasileiros em Chicago para que todos votassem, mesmo que fosse no Collor. Naquela época, eu achava que era fundamental participar das eleições mesmo votando contra o meu candidato, para fortalecer a nascente democracia brasileira. Embora o Collor (Movimento Brasil Novo, lembra algo?), tivesse um discurso muito udenista, voltado para a “caça aos marajás” , muito agressivo contra o serviço público, a eleição era entre dois candidatos que supostamente participavam do campo democrático. Anteriormente, eu já havia participado de campanhas para deputados progressistas do PMDB, nas eleições de 1982, mas votar para presidente pela primeira vez, no Lula, longe do Brasil, foi uma experiência marcante que irei repetir no próximo domingo.
Arthur Lira, atual presidente da Câmara, recebeu em dois anos R$ 492 milhões do orçamento secretoSilvana Sá e Igor VieiraDos dez deputados federais que mais receberam recursos do orçamento secreto, nove deles ampliaram sua base eleitoral e foram reeleitos este ano. O campeão Arthur Lira, atual presidente da Câmara, recebeu em dois anos R$ 492 milhões. Levantamento realizado pelo Jornal da AdUFRJ descobriu que o parlamentar participou de mais de 30 eventos de lançamentos de obras de infraestrutura dos grandes e pequenos municípios de seu estado, Alagoas, a partir do ano passado.
De 2020 a 2022, foram distribuídos pela União R$ 52 bilhões via orçamento secreto. Todos os parlamentares analisados pela reportagem (veja quadro ao lado) tiveram apoio estreito sobretudo das prefeituras dos interiores. “O resultado desta eleição mostra a eficácia do orçamento secreto em alavancar essas candidaturas”, avalia o professor Ivo Coser, do Departamento de Ciência Política do IFCS. “As menores prefeituras, em geral, que mais precisam de dinheiro, são as mais sensíveis”.
A manobra, puramente discricionária, segundo o especialista, piora a nossa democracia , pois“foge do controle orçamentário e político”. “É um artifício que não se submete a um controle claro de distribuição e que depende apenas da vontade do presidente da Câmara”.
Para a professora Mayra Goulart, o orçamento secreto favorece o fisiologismo. “O que se observa é a manutenção das grandes elites políticas
nacionais. São aqueles políticos fisiológicos, que controlam bases territoriais”, diz a cientista política. “E que utilizam o orçamento secreto para alinhavar essas bases territoriais”, avalia.“O orçamento secreto, portanto, confirma o jogo político, que é dominado por essas elites locais”.
A professora Thais Aguiar, também da Ciência Política do IFCS, considera que, apesar do orçamento secreto, a nova legislatura da Câmara tem maior equilíbrio de forças, em comparação com 2018. “Embora o PL tenha a maior bancada na Câmara nos últimos 24 anos, temos outra força, do PT, que cresceu de 56 para 68 parlamentares”, destaca. “Temos grandes blocos que se mantêm em equilíbrio. O Centrão, que é pendular, é que requererá mais negociação”.
Fotos: Fernando SouzaHá muitas maneiras de fazer política e de confraternizar, e juntar as duas opções pode ser uma boa ideia. Na sexta-feira passada (23), a diretoria da AdUFRJ recebeu professores e professoras para conversar sobre a conjuntura política às vésperas da eleição, em clima de descontração. O “Sextou” reuniu os docentes no Fórum de Ciência e Cultura, em noite fria e chuvosa, com um debate animado e cheio de boas ideias.
Os professores de Ciência Política Mayra Goulart, vice-presidente da AdUFRJ, e Josué Medeiros foram os facilitadores da conversa, respondendo perguntas ou comentários dos presentes. A eleição, é claro, foi o tema principal do debate. “Essa eleição não é uma eleição normal. Porque ela não é uma eleição entre dois candidatos, mas entre continuar a ter democracia ou mergulhar no autoritarismo”, resumiu Josué.
O professor do IFCS/UFRJ se apoiou no trabalho sobre a crise da democracia e o monitoramento eleitoral feito pelo Núcleo de Estudos sobre a Democracia Brasileira (Nudeb), laboratório que coordena, para apontar dinâmicas peculiares do atual processo eleitoral. “Existem dinâmicas nessa eleição que apontam para mais autoritarismo, como, por exemplo, a bancada da bala. Ter muitos candidatos que defendem armamento é um sinal de que, mesmo que o Lula ganhe, vamos ter dinâmicas que defendem o autoritarismo ainda vivas”, explicou o professor. Por outro lado, ele apontou aspectos positivos, como candidaturas antirracistas ou a bancada do cocar, que ganharam bastante destaque na cena política da esquerda.
Mayra Goulart citou as mudanças na lei eleitoral feitas para aumentar a participação de mulheres e pessoas negras na política. Pelas novas regras, votos em candidatos destes grupos têm peso maior na divisão do fundo eleitoral. “Quando você atrela esse voto ao recebimento desses fundos, você faz com que esses partidos tenham viabilidade eleitoral”, explicou. Ela acredita que, no futuro, teremos um Congresso diferente, mas fez uma ressalva. “Não adianta querermos que sejam mulheres e pessoas negras com as quais a gente concorda. Não adianta fazermos cara de enojados se forem mulheres conservadoras”, defendeu.
Mayra foi além para explicar as motivações das mulheres conservadoras e o papel do campo progressista nessa disputa: “As mulheres conservadoras são a grande variável dessa eleição. A esquerda só teve penetração popular quando foi conservadora nos costumes. Pensamento progressista é pensamento de elite”, avaliou.
A conversa não poderia deixar de falar de atuação sindical, e foi Mayra quem respondeu uma pergunta sobre o que esperar dos movimentos sociais e sindicais em um eventual governo Lula. “Temos que fazer uma atuação muito consistente dentro do Andes, porque a política da atual diretoria do sindicato nacional é de ‘fora todos’, da condenação da política enquanto espaço de negociação e convivência de diferenças. No ambiente político, nós temos que conversar com pessoas que são divergentes, e a atual diretoria do Andes não é capaz de fazer isso”, ponderou. Para ela, com um governo que estará aberto a negociações, é preciso negociar. “Para isso é preciso superar um certo infantilismo, que às vezes permeia o movimento sindical”, defendeu.
Para o professor João Torres, presidente da AdUFRJ, o balanço do encontro foi positivo. “No início, fui reticente quanto à realização do Sextou. Mas, mesmo antes de a conversa começar, eu me dei conta que o movimento sindical não pode ser feito apenas no espaço do sindicato, durante reuniões e assembleias, mas também em outros espaços de convivência”, ressaltou. João lembrou que o momento é propício para confraternizações e encontros fora do espaço acadêmico. “Foram dois anos de isolamento. Nosso reencontro não pode acontecer só no sindicato ou nos corredores da UFRJ. Vamos repetir, talvez com outros formatos”, acrescentou.