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MUDANÇA Nicolle diz que perfil dos alunos nas salas de aula mudouCriada em 2012 e adotada pela UFRJ em 2014, a Lei de Cotas promoveu, numa das maiores universidades da América Latina, a mudança estrutural que faltava. Segundo um levantamento feito pelo portal de notícias G1, de 2013 para 2020 o número de estudantes autodeclarados pretos e pardos dentro da universidade aumentou em 71%. Se, em 2013 (um ano antes da adoção da lei pela UFRJ), as pessoas pretas e pardas eram minoria (21,3 mil), hoje elas são 36,6 mil, ocupando espaços científicos e administrativos dentro da universidade, que a cada dia aprimora estratégias para lidar com o racismo institucional, como a Câmara de Políticas Raciais e as Comissões de Heteroidentificação.
“A UFRJ foi uma das últimas universidades a aderir às cotas raciais. Num primeiro momento, ainda havia resistências, e também incompreensões. A academia se dividiu, houve manifestações contrárias e favoráveis. Ficou, durante um tempo, introjetada a questão meritocrática”, lembra Denise Góes, servidora que coordena a Câmara de Políticas Raciais. Para ela, o aumento de pessoas pretas e pardas na universidade ajudou a fazer crescer a consciência, de maneira geral, da importância da população afrodescendente ocupar espaços institucionais. “A entrada de um jovem ou pessoa mais velha, negra, modifica e altera o status quo. O fato de estar pisando na universidade é muito importante, tem uma qualidade espetacular”, acredita.
Denise é uma das pessoas empenhadas em tornar o acesso pelas cotas justo, sem fraudes. Na experiência com as Comissões de Heteroidentificação, ela reconhece que ainda existem caminhos a serem buscados para aperfeiçoar a entrada de estudantes negros. “O caminho a percorrer é fazer da lei um instrumento que garanta a vaga, e das comissões um instrumento para o sujeito de direito. A autodeclaração continua sendo importante. É preciso que as políticas de assistência estudantil sejam aprofundadas. É uma dicotomia permitir o acesso e ceifar a assistência estudantil”, afirma a servidora. “A UFRJ, como maior da América Latina, tem que criar um plano B para garantir a expansão e aprofundamento das políticas de permanência. Senão é como ficar com sede no deserto”, completa.
DIVERSIDADE
O secretário geral da Associação de Pós-Graduandos (APG) e docente do CAp-UFRJ, Jorge Marçal, é um dos muitos beneficiados pela Lei de Cotas. “Fui de uma das primeiras turmas de cotas na Biologia. Entrei em 2015.1, e peguei o começo dessa discussão na universidade, o início da formação dos coletivos de estudantes negros”, conta. “Me marcou muito estar na universidade no início desta experiência, porque as pessoas ainda estavam se adaptando, algumas discussões ainda estavam tomando força e eu pude participar dessas movimentações formando o coletivo de estudantes negros e negras da Biologia, que promovia eventos e fez parte do início da discussão das Comissões de Heteroidentificação”, completa.
Para Jorge Marçal, racismo institucional não é algo que se relaciona somente ao contexto interno das instituições, mas ao modo como as instituições respondem aos desafios que estão postos, de maneira geral, na sociedade. “O contexto político em que aprovamos as cotas raciais era outro, em relação ao que estamos agora. É um contexto de desmonte das universidades públicas e da assistência estudantil”, lembra. Jorge acredita que o reconhecimento institucional das pessoas pretas e pardas ainda precisa aumentar. “Nos conselhos superiores, ainda é uma presença negra muito tímida. Nas categorias docentes, essa representatividade ainda é menor. É uma discussão para se enfrentar com mais veemência”, reflete.
Na coordenação da APG, Jorge vê desafios no que considera o último reduto da universidade em que não se tem, de maneira institucionalizada para todos os programas da pós, as cotas raciais. “Temos que garantir que a Lei de Cotas continue existindo na reavaliação que será feita no ano que vem. A universidade precisa tomar isso como uma pauta sua, não só do movimento negro, dos coletivos”, considera. Em 2022, quando a lei completa dez anos, o Congresso Nacional vai rediscutir a legislação. Para ele, os dados do levantamento do G1 são cristalinos, e mostram o quanto a universidade mudou. “Havia também aquela preocupação com a redução da excelência da universidade, e isso não se concretizou. Os cotistas, de maneira geral, têm um desempenho melhor que os não cotistas”, diz. “Os dados mostram que as cotas são positivas para a universidade, e retirá-las seria um balde de água fria”, completa.
Prestes a se formar em Publicidade e Propaganda pela Escola de Comunicação, Nicolle Araújo sentiu o impacto da Lei de Cotas apenas quando ingressou na universidade, em 2017. “Antes de fazer pré-vestibular e pensar em entrar na faculdade, não entendia muito bem a importância das cotas. Não sabia o real peso disso tudo. Depois que entrei, hoje, quase me formando, consigo sentir a importância das cotas serem inseridas no processo de admissão”, conta. “Por mais que eu tenha tido uma educação bem estruturada, tive o privilégio de estudar em colégios públicos muito bons, consigo ver que se não tivesse usado a cota, talvez não conseguisse entrar”, afirma. Nicolle reconhece que a mudança nas salas de aula é perceptível, mas acha que ainda há muito a ser melhorado. “Houve um aumento de diversidade, tanto no quesito renda como na raça, na universidade como um todo. Porém vejo muitas pessoas que usam o benefício de maneira errada, fraudadores, o que ainda dificulta a entrada de pessoas que realmente têm esse direito”, acredita.
O professor Vantuil Pereira, diretor do NEPP-DH e um dos idealizadores do Coletivo de Docentes Negros e Negras da UFRJ, também sente o impacto das cotas na sala de aula. Quando começou a lecionar na universidade, em 2010, havia apenas três alunos negros na matéria que ministrava no curso de Relações Internacionais. Hoje, a realidade é outra. “Há uma combinação das cotas com o Sisu e o Reuni. É um movimento que aconteceu todo junto e levou ao crescente aumento de alunos. Em termos de professores, também está acontecendo, mas em menor proporção. Uma coisa que percebo é que há um grande numero de professores negros na universidade por conta do Reuni. Se agora temos cerca de 15% de professores negros, é por conta do Reuni, gente que saiu da pós-graduação entre 2005 e 2008, em um contexto de formação anterior às cotas. E agora temos essa feliz combinação, quando comparamos com o número de alunos”, diz.
Diretoria da AdUFRJO retorno presencial imediato, imposto pela Justiça, é o tema central desta edição do Jornal da AdUFRJ. Embora não estivesse na pauta original, foi também o assunto dominante da sessão do Consuni de quinta-feira (11), em que se discutiram formas de retomar as atividades presenciais de maneira segura e gradual. No Consuni, o presidente da AdUFRJ, professor João Torres, descreveu os esforços de um conjunto de entidades para garantir que esse retorno ocorra com segurança e acolhimento para a comunidade acadêmica da UFRJ. Entre esses esforços estão a divulgação de uma carta pública em repúdio à imposição judicial de retorno imediato — assinada por AdUFRJ, Andes SN/RJ, Adecefet/RJ, Adunirio, Adur, SINDSCOPE, DCE Mário Prata, APG/UFRJ e Fenet — e um encontro com um procurador do Ministério Público Federal no Rio de Janeiro, na quarta-feira (10), para tratar da questão. Toda a movimentação da semana em torno desse tema — incluindo o recurso da UFRJ contra a decisão — você confere nas páginas 3, 4 e 5.
Como um contraponto à tensão dos últimos tempos — e dos que virão —, temos a estreia da coluna Equilíbrio, na página 8. Assinada pela vice-presidente da AdUFRJ, Mayra Goulart, professora de Ciência Política (IFCS/UFRJ) e de Yoga, a coluna se propõe a ser um espaço de reflexão sobre nosso bem-estar físico e mental — algo que ficou particularmente abalado na pandemia. Um espaço de acolhimento, que pretende tratar de medos, traumas e sentimentos, e discutir formas de reduzir o sofrimento por meio de práticas que aumentem nossa conexão com o mundo e que estimulem nossa consciência.
Vamos também tratar nesta edição de dignidade. Na matéria da página 7, abordamos a reação da comunidade científica aos expurgos políticos perpetrados pelo presidente Jair Bolsonaro contra os cientistas Adele Schwartz Benzaken e Marcus Vinícius Guimarães de Lacerda, excluídos, depois de agraciados, da lista da Ordem Nacional do Mérito Científico de 2021. Marcus foi excluído porque conduziu um dos primeiros estudos clínicos que comprovaram a ineficácia da cloroquina no tratamento precoce de pacientes com covid-19. E Adele perdeu a comenda porque, quando era funcionária do Ministério da Saúde, elaborou uma cartilha com instruções de prevenção contra o vírus HIV para pessoas trans. No Consuni de quinta-feira (11), o conselheiro e professor Ricardo Medronho, diretor da AdUFRJ, falou sobre a perseguição política contra os dois cientistas e divulgou uma carta de repúdio, já assinada por 57 professores eméritos da UFRJ, que reproduzimos na íntegra em nossa matéria.
Falaremos, por fim, de diversidade. Em nossa matéria da página 6 aprofundamos a pesquisa, divulgada este mês pelo portal de notícias G1, que mostra um aumento significativo no número de alunos pretos e pardos na UFRJ desde a adoção do sistema de cotas, em 2014: 71%. O avanço dessa política de inclusão é motivo de comemoração. Em 2013, um ano antes da adoção do sistema, os alunos que se autodeclaravam negros e pardos somavam 21,3 mil, e esse número saltou para 36,6 mil em 2020. O percentual entre alunos negros e pardos em relação aos alunos brancos também mudou bastante. Em 2013, os negros e pardos representavam 24,7% do total, contra 51,2% de brancos; em 2020, esses percentuais foram de 35,5% e 40%, respectivamente.
Boa leitura!
Fotos: DivulgaçãoMuitas comunidades da cidade do Rio de Janeiro sofrem com os deslizamentos de terra, sobretudo aqueles gerados por fortes chuvas. Para disseminar informações sobre esses desastres, que já geraram tragédias históricas na capital fluminense, o projeto Encosta Viva (https://encostaviva.poli.ufrj.br/), da Escola Politécnica da UFRJ, vem percorrendo, desde outubro deste ano, algumas escolas públicas do município para levar informações a crianças e jovens que, muitas vezes, já sentiram na pele o peso desse problema nas comunidades onde vivem.
Coordenado pelo professor Marcos Barreto de Mendonça, o projeto já levou suas oficinas às escolas Reverendo Martin Luther King, na Praça da Bandeira, e Thomas Mann, no Cachambi, ambas na Zona Norte. “Nessas duas escolas, atendemos um total de 30 turmas, em torno de 600 alunos, desde a Educação Infantil até o nono ano. Foi uma experiência incrível, sobretudo com as crianças pequenas. Tivemos de adaptar até o linguajar para interagir com elas, e a resposta foi positiva”, comemora o professor Marcos.
No início do ano que vem, será a vez da Escola Municipal Laudimia Trotta, na Tijuca, bairro da Zona Norte onde há várias áreas de risco para deslizamentos de encostas. “O público-alvo dessa escola é formado por moradores do Salgueiro, da Formiga e do Borel, três áreas de encosta e com risco alto de deslizamentos”, explica a professora Maria de Fátima Abrantes, que dá aulas de Geografia na escola e é uma das coautoras do projeto. “A gente espera que isso se multiplique na comunidade, com rodas de conversa com os pais dos alunos, com as associações de moradores. E que os alunos sejam multiplicadores desse conhecimento”, diz Fátima, chamada pelos alunos de Fatinha.
AS OFICINAS envolvem professores e alunos extensionistas, que interagem com alunos da Educação Infantil ao nono ano do Ensino Fundamental, sob a coordenação do professor Marcos Barreto (em primeiro plano)
O entusiasmo da professora pelo projeto é tanto que ela ingressou no Programa de Engenharia Ambiental da Escola Politécnica para desenvolver uma pesquisa sobre a metodologia das oficinas. “No doutorado, a ideia é desenvolver e avaliar essa metodologia em sua eficácia na construção do conhecimento e do desenvolvimento da percepção de risco dos alunos em relação aos deslizamentos. Existem poucos trabalhos nessa linha”, destaca a professora.
ESPAÇO CIÊNCIA VIVA
Marcos trabalha há muito tempo com o tema. Engenheiro civil formado pela Uerj, com mestrado e doutorado na Coppe/UFRJ na área de Geotecnia, ele trabalhou na Prefeitura de Petrópolis, onde teve uma forte vivência com deslizamentos de encosta, principalmente depois das chuvas de 1988 que castigaram a cidade serrana. Também atuou nessa área na iniciativa privada por mais de uma década. “Quando entrei na UFRJ, em 2010, vi a oportunidade de trabalhar com algo que sempre quis, a educação para a redução de desastres associados a deslizamentos. E comecei a apresentar projetos nessa área a agências de fomento”, conta o professor.
Após alguns projetos pontuais de pesquisa em comunidades e escolas, Marcos vislumbrou a chance de ter um projeto contínuo sobre os deslizamentos: o Espaço Ciência Viva (ECV), um museu interativo aberto ao público e que lida com divulgação científica. “Entramos lá em 2015, nas oficinas dos Sábados da Ciência, com até mil visitantes por oficina. Foi um divisor de águas, porque o ECV tem experiência em oficinas educativas. E isso nos levou, em 2019, a inscrever um projeto no CNPq para integrar a universidade (UFRJ), escolas públicas e o ECV, que é o facilitador da passagem desse saber do ensino superior para escolas públicas. E nasceu o Encosta Viva”, lembra Marcos.
A professora Eleonora Kurtenbach, chefe do Laboratório de Biologia Molecular e Bioquímica de Proteínas do Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho, presidente do Espaço Ciência Viva e diretora da AdUFRJ, exalta o Encosta Viva como um desdobramento natural das atividades do ECV. “Eu estou lá desde 1984, quando ainda era estudante de mestrado. O ECV (http://cienciaviva.org.br/) é uma ONG criada por vários grupos de pesquisadores e professores de várias universidades. É um museu interativo de Ciências montado num galpão remanescente das obras do Metrô na Tijuca. E estabelecer essa interação entre os cientistas e o público sempre foi o nosso objetivo”, diz a professora.
Eleonora recorda que o Encosta Viva se desenvolveu muito desde 2015, quando o tema dos deslizamentos foi introduzido no ECV pelo professor Marcos. “Em 2000, começamos a fazer os Sábados da Ciência, eventos temáticos abertos ao público. Foi assim que o professor Marcos chegou com seu projeto ao ECV. A partir daí começamos a escrever projetos juntos, com esse olhar sobre as desigualdades. As oficinas nas escolas com alunos de extensão são uma experiência muito rica, o projeto tem um viés social importante”, sustenta Eleonora.
PERTO DA REALIDADE
Isadora Fortuna, aluna do projeto de extensão, atesta a riqueza da experiência. Ela é uma das mediadoras das oficinas, em que os alunos das escolas públicas são apresentados ao tema com o auxílio de uma maquete que simula um deslizamento de terra em uma encosta. Problemas comuns a várias comunidades, como escavações irregulares do solo, desmatamento e acúmulo de lixo, são abordados nas aulas. As oficinas mostram também os mecanismos de alerta existentes na cidade, como as sirenes.
“O Encosta Viva consegue unir três vertentes que me interessam muito: a educação, a questão social e a Engenharia Civil. Tive a oportunidade de ajudar na estruturação das maquetes, de todos os materiais usados nas oficinas. O que mais me envolve e motiva é a relação com os alunos, com os professores, e ainda mais tratando de um tema que é tão próximo da realidade deles. Acho que ele tem que ir para todas as escolas do Rio de Janeiro, a gente vê o interesse dos alunos, principalmente os mais novos”, conta Isadora, que é aluna de Engenharia Civil na Escola Politécnica.
Para a também aluna de Engenharia Civil e extensionista Isabela Cardoso, a proximidade com o tema é ainda mais profunda. Ela foi aluna da professora Fatinha na escola Laudimia Trotta e é moradora do morro do Salgueiro. “Logo que entrei na UFRJ, teve uma apresentação para os calouros sobre os projetos de extensão. E o Encosta Viva me encantou, falava da escola em que eu estudei, da professora Fatinha, que me deu aulas de Geografia. Tem tudo a ver comigo. Moro no Salgueiro, já morei também no Borel, onde vi isso de perto. A gente sabe que as pessoas não escolhem morar em comunidades com áreas de risco, elas não têm outro lugar para viver”, diz Isabela, que está vencendo sua timidez nas oficinas. “Consigo ver na carinha das crianças que elas entendem quando a gente fala. Estou indo agora para o segundo período, me sinto a criancinha do projeto. Que eu possa amadurecer junto com ele”.
Diretoria da AdUFRJNa semana em que perdemos Nelson Freire, o pianista que emocionava muito além dos prelúdios e que, entre muitos títulos, carregava o de “Doutor Honoris Causa da UFRJ”, tentamos fazer um jornal parecido com a universidade.
Nas próximas páginas, oferecemos um resumo da potência criativa, responsável e diversa da comunidade universitária. Tratamos da ciência à arte. Da pesquisa à extensão. Do compromisso com o meio ambiente na COP26, na Escócia, ao retorno presencial seguro no Fundão.
Nas páginas 4 e 5, registramos as primeiras horas de retorno dos servidores ao trabalho presencial, no último dia 3. A data, definida pelo Consuni, reafirma o princípio constitucional da autonomia da universidade, e marca a forma como iremos reocupar os campi. Iremos devagar, como num samba do mestre Paulinho da Viola, no compasso do respeito aos protocolos sanitários, aos colegas e à ciência. Espaços mapeados, sinalizados e com distanciamento resguardado marcaram essa volta gradual.
A ciência, aliás, é o tema da alvissareira notícia publicada aqui ao lado. A matéria se debruça sobre o trabalho incansável dos profissionais da UFRJ em Macaé e mostra que a cidade fluminense conquistou os melhores índices do estado do Rio no combate à covid-19. Os dados foram registrados na prestigiada Nature, em artigo assinado por 21 professores do campus da universidade. Graças ao trabalho do Nupem na testagem, monitoramento (com geolocalização) e acompanhamento dos casos, Macaé tem hoje a menor taxa de letalidade (2,1) entre os municípios com mais de 500 mil habitantes do estado.
A preocupação com a qualidade de vida da população também é tema do projeto de extensão Encosta Viva, que ilustra a página 6. O projeto da Escola Politécnica está percorrendo escolas públicas da cidade do Rio de Janeiro com oficinas onde os alunos da Educação Infantil ao nono ano podem conhecer mais sobre os deslizamentos de terra que assolam várias comunidades da capital. O projeto já chegou a cerca de 600 estudantes, muitos deles moradores de comunidades com áreas de risco, e vai prosseguir em 2022.
A responsabilidade da UFRJ com todo o planeta também aparece nessa edição. Na página 7, mostramos o trabalho da Coppe na Conferência do Clima. A professora Suzana Kahn, vice-diretora da unidade, está na Escócia e, de lá, concedeu entrevista exclusiva com um balanço dos primeiros dias do evento. O debate da COP26 conta com participação ativa dos pesquisadores da universidade. A Coppe coordenou a elaboração do relatório “Clima e Desenvolvimento - Visões do Brasil em 2030”, que apresenta alternativas para um futuro alicerçado no desenvolvimento sustentável. O documento, com a contribuição de mais de 250 especialistas, se baseia na economia de baixo carbono, na justiça e na inclusão social.
E, com arte e saudade, terminamos o jornal com o resgate da cerimônia em que a UFRJ concedeu o título de Doutor Honoris Causa ao pianista Nelson Freire, em 2011, na Escola de Música. Foi o primeiro título acadêmico da história desse fascinante artista que morreu na última segunda-feira e nos deixou ainda mais órfãos de delicadeza e talento. Que a saudade de Nelson e de outros tantos que partiram nessa interminável pandemia ilumine o compasso de nosso reencontro na universidade.
Na última semana, o discurso da indígena Txai Suruí na COP26, em Glasglow, na Escócia, tocou o mundo sobre a importância dos saberes tradicionais para enfrentar a crise climática. A filha do cacique Almir Suruí é a primeira integrante do povo Suruí a cursar Direito na Universidade Federal de Rondônia (Unir), e é também fundadora do Movimento da Juventude Indígena de Rondônia. Na linha de frente do grupo, ela já liderou atos pedindo a saída do presidente Jair Bolsonaro e também denunciou o avanço da agropecuária sobre a Terra Indígena Uru-Eu-Wau-Wau. Em seu discurso — ela foi a única brasileira a falar na abertura da cúpula das Nações Unidas, que vai até o próximo dia 12 —, Txai enfatizou a necessidade de tomar outros caminhos, “com mudanças corajosas e globais”, para frear a crise climática que afeta de maneira devastadora as terras onde nasceu e cresceu.
“Os saberes indígenas não são só diferentes, mas são saberes que se relacionam de outra maneira com o meio ambiente e o mundo”, sustenta o professor de História do CAp-UFRJ e doutorando do Programa de História Social, João Gabriel Ascenso. “Os indígenas têm uma relação com o meio ambiente em que se reconhece a subjetividade dos elementos da natureza. Reconhecem que a natureza não são só bens para serem consumidos, não têm essa distinção de sujeito e objeto. Por reconhecer a subjetividade contida nos elementos naturais, não os destroem sem motivo. As cosmovisões desses povos representam uma alternativa à crise global que está acontecendo”, acredita João.
O desenvolvimento sustentável, uma das bandeiras do “eco-capitalismo” atual, é uma das dificuldades para a mudança, acredita o doutorando. “É possível ter um desenvolvimento sustentável? Muitas vezes o discurso parece ser: como fazer para continuar crescendo desse jeito e não destruir o mundo. A questão é que não dá. O mundo não está aguentando isso”, acredita. “Se a gente tem que crescer e produzir o tempo inteiro para economia continuar crescendo, não tem alternativa”, completa.
Para o ex-presidente da Fundação Nacional do Índio (Funai), Mércio Pereira Gomes, o discurso traz a pauta da demarcação de terras indígenas. “É muito importante. O que for possível ser segurado, precisa ser segurado. E o que pode ser reflorestado, também precisa ser”, afirma o antropólogo. “Sou a favor que a humanidade pense em conjunto, que possa refletir caminhos e opções que consigam compatibilizar os povos que precisam de desenvolvimento e melhoria das condições econômicas”, diz.
Gomes não acredita que o mundo pode acabar em pouco tempo, por consequências da crise climática. “Quanto a essa história de fim do mundo, para mim é muita retórica. Acho que a Terra já foi muito devastada, temos que compatibilizar a realidade de quase oito milhões de pessoas que precisam ser alimentadas, e ao mesmo tempo num regime social que está sempre crescendo cada vez mais”, explica. “É preciso encontrar caminhos que perturbem cada vez menos a natureza”, conclui.
Txai Suruí alertou, também, sobre o assassinato de Ari Uru-Eu-Wau-Wau, seu amigo de infância encontrado morto em abril de 2020 na Linha 625 de Tarilândia, em Rondônia. “Sobre assassinatos de ativistas indígenas, isso é profundamente lamentável”, afirma o antropólogo Cesar Gordon, professor do IFCS/UFRJ. “Não é um fenômeno contemporâneo, muito pelo contrário, isso já ocorre há várias décadas, e tem muito a ver com o problema geral da impunidade brasileira”, explica. “Principalmente nas regiões mais afastadas dos centros urbanos, isto é, nas franjas da atuação do Estado brasileiro, regiões que ficam praticamente sem lei, é um fenômeno recorrente, não me parece que isso esteja ligado ao agravamento da crise”, acredita.
O DISCURSO
"Meu nome é Txai Suruí, eu tenho só 24, mas meu povo vive há pelo menos 6 mil anos na floresta Amazônica. Meu pai, o grande cacique Almir Suruí me ensinou que devemos ouvir as estrelas, a Lua, o vento, os animais e as árvores.
Hoje o clima está esquentando, os animais estão desaparecendo, os rios estão morrendo, nossas plantações não florescem como antes. A Terra está falando. Ela nos diz que não temos mais tempo.
Uma companheira disse: vamos continuar pensando que com pomadas e analgésicos os golpes de hoje se resolvem, embora saibamos que amanhã a ferida será maior e mais profunda?
Precisamos tomar outro caminho com mudanças corajosas e globais.
Não é 2030 ou 2050, é agora!
Enquanto vocês estão fechando os olhos para a realidade, o guardião da floresta Ari Uru-Eu-Wau-Wau, meu amigo de infância, foi assassinado por proteger a natureza.
Os povos indígenas estão na linha de frente da emergência climática, por isso devemos estar no centro das decisões que acontecem aqui. Nós temos ideias para adiar o fim do mundo.
Vamos frear as emissões de promessas mentirosas e irresponsáveis; vamos acabar com a poluição das palavras vazias, e vamos lutar por um futuro e um presente habitáveis.
É necessário sempre acreditar que o sonho é possível.
Que a nossa utopia seja um futuro na Terra.
Obrigada!"
VICE-DIRETORA DA COPPE AVALIA PRIMEIROS DIAS DA CONFERÊNCIA
DivulgaçãoVice-diretora da Coppe, a professora Suzana Kahn participa da Conferência da ONU sobre Meio Ambiente e Clima (COP26), em Glasgow, Escócia, como representante da UFRJ na Aliança Global de Universidades sobre o Clima (GAUC, da sigla em inglês) e como Diretora do Centro Brasil-China.
Já é possível registrar alguma surpresa, positiva ou negativa, nesses primeiros dias da Conferência?
Surpresa em termos de avanço com o “livro de regras” do Acordo de Paris não houve. A surpresa foi a quantidade de pessoas que compareceram à COP em Glasgow, no meio de uma pandemia, num dos países mais caros do mundo, com uma série de restrições. O que mostra o interesse do mundo em resolver a questão.
Como avalia a participação do governo brasileiro e, em especial, a meta anunciada de reduzir a emissão de gases pela metade até 2030?
Não espero nada do governo atual. Não cumpriu suas metas, que eram absolutamente factíveis. Ao contrário, aumentou sua emissão de carbono. Portanto, não acredito no que anunciam. Aliás, nem eu, nem a imprensa daqui. O país está completamente desacreditado.
O que achou do pedido de demissão do coordenador-executivo do Fórum Brasileiro de Mudança do Clima, Oswaldo Santos Lucon, durante a COP?
Nunca entendi como ele aceitou ficar tanto tempo! (Lucon, que é pesquisador, havia sido nomeado por Bolsonaro para o cargo em maio de 2019). (Kelvin Melo)