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A Covid-19 levou mais um dos grandes da História da UFRJ. Morreu hoje o professor emérito do Instituto de Economia e ex-reitor da universidade Carlos Lessa, vítima de uma pneumonia causada pelo novo coronavírus. Lessa era uma referência no pensamento econômico desenvolvimentista brasileiro. Eleito reitor em 2002, deixou o cargo em 2003 para assumir um desafio ainda maior, a presidência do BNDES. Em sua passagem pelo banco defendeu com vigor seu pensamento econômico de que o Estado deve ter um papel importante como motor da economia do país. Era um intelectual apaixonado pelo Rio de Janeiro. Trabalhou pela restauração de prédios históricos no Centro da cidade e escreveu o livro “O Rio de todos os brasis”, uma análise profunda da história da cidade. Seu mandato como reitor da UFRJ foi curto, mas deixou um legado: foi o criador do bloco Minerva Assanhada. Sua influência na história da universidade e do pensamento econômico brasileiro não podem ser medidos em um breve obituário. “Meu amado pai foi hoje às 5h da manhã descansar. A tristeza é enorme. Seu último ano de vida foi de muito sofrimento e provação”, publicou seu filho, Rodrigo Lessa, em uma rede social. “O legado que ele deixou não foi pequeno. Foi um exemplo de amor incondicional pelo Brasil, coerência e honestidade intelectual, espírito público, um professor como poucos e uma alma generosa que sempre ajudou a todos que podia quando estava a seu alcance, um grande amigo.”

A Reitoria decretou luto oficial de três dias, dado o reconhecimento às suas contribuições para a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e a sociedade brasileira.

O Conselho Universitário aprovou, no início da tarde de terça (2), a resolução sobre o trabalho dos servidores da UFRJ durante a pandemia. O documento teve 46 votos favoráveis e apenas um contrário.

(Atualização) Confira a íntegra, já divulgada no site do Consuni:

RESOLUÇÃO N°07, DE 02 DE JUNHO DE 2020
 
Aprova as diretrizes para o desenvolvimento das atividades laborais no âmbito da Universidade Federal do Rio de Janeiro durante o enfrentamento da pandemia de COVID-19
 
- Considerando a Lei nº 13.979, de 06 de fevereiro de 2020, que dispõe sobre as medidas para enfrentamento da emergência de saúde pública de importância internacional decorrente do Coronavírus,responsável pelo surto iniciado ainda em 2019;

- Considerando a Portaria do Ministério da Saúde nº 356, de 11 de março de 2020, que estabelece as medidas para enfrentamento da emergência de saúde pública de importância internacional decorrente do Coronavírus;

- Considerando o Decreto Presidencial nº 10.282, de 20 de março de 2020, e suas alterações, que regulamenta a Lei nº 13.979, de 6 de fevereiro de 2020, para definir os serviços públicos e as atividades essenciais;

- Considerando o Decreto do Governador do Estado do Rio de Janeiro nº 46.973, de 17 de março de 2020, e suas alterações, que reconhece a situação de emergência na saúde pública no estado do Rio de Janeiro em razão do contágio e adota medidas de enfrentamento da propagação decorrente do novo Coronavírus;

- Considerando a Portaria nº 2.291, de 17 de março de 2020, que constitui o Gabinete Emergencial de Crise da UFRJ, com a finalidade de avaliar e definir ações e rotinas a serem adotadas no âmbito da UFRJ enquanto persistirem as recomendações de prevenção ao contágio e de enfrentamento da emergência em saúde pública de importância internacional decorrente da COVID-19, por parte das autoridades sanitárias federais e estaduais;

- Considerando as notificações expedidas pela Reitora da UFRJ de medidas protetivas e de orientação aos(às) técnico-administrativos(as), publicadas em 13 de março de 2020, e a de suspensão das aulas presenciais por tempo indeterminado, publicada em 23 de março de 2020 e a Portaria UFRJ Nº 2.562, de 1º de abril de 2020, com o Plano de Contingência para Enfrentamento da Pandemia Causada pelo Novo Coronavírus (COVID-19) no Âmbito da Universidade Federal do Rio de Janeiro;

- Considerando as demais orientações normativas e demais dispositivos legais emanados pelos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário referentes ao tratamento das questões sanitárias e de atividades no serviço público do Brasil;
 
O Conselho Universitário da Universidade Federal do Rio de Janeiro, reunido em sessão extraordinária em 2 de Junho de 2020, RESOLVE:

Art. 1º A Universidade Federal do Rio de Janeiro, em decorrência do isolamento social necessário ao enfrentamento da doença causada pelo novo Coronavírus (COVID-19), consoante com seus fins e objetivos expressos no seu Estatuto e ouvido o Grupo de Trabalho (GT) Multidisciplinar para Enfrentamento da COVID-19, estabelece as seguintes normas laborais relativas ao trabalho dos(as) servidores(as).

Parágrafo único. Para fins da adoção dos procedimentos relativos ao funcionamento das atividades de ensino, de pesquisa e de extensão, administrativas e assistenciais na UFRJ, considera-se:

I – Atividades presenciais: são serviços públicos indispensáveis ao atendimento das necessidades inadiáveis da Comunidade e da Universidade, assim destacados aqueles que, se não prestados, colocam em perigo a infraestrutura, o acervo material e científico, a segurança da população e da UFRJ, as atividades de saúde e a sobrevivência da comunidade, dentre outras a serem definidas pelo órgão colegiado da Instância Acadêmica ou Administrativa; e

II – Atividades não presenciais, ou remotas: todos os demais serviços públicos não enquadrados no disposto no Inciso I deste Artigo.

Art. 2º Caberá ao(à) gestor(a) de cada Instância Acadêmica ou Administrativa, onde os(as) servidores(as) docentes e técnico-administrativos(as) em Educação estejam lotados(as), cabendo recurso ao respectivo órgão colegiado, a caracterização das atividades que desempenham, de acordo com o estabelecido no Artigo 1º desta Resolução.

§1º O(A) servidor(a) em atividade presencial, que se enquadrar em alguma das condições abaixo poderá, se assim o desejar e se houver viabilidade, executar suas atividades na forma não presencial:

I – ter sessenta anos ou mais;

II – ter imunodeficiência ou doença crônica ou grave, relacionadas em ato do Ministério da Saúde;

III – ser responsável pelo cuidado de pessoa com suspeita ou confirmação de diagnóstico de infecção por COVID-19;

IV – apresentar sinais e sintomas gripais, enquanto perdurar essa condição;

V – ser pessoa com deficiência;

VI – ter filho(a) em idade escolar, cuja escola não tenha retomado as atividades normais;

VII – ser gestante ou lactante;

VIII – estar encarregado(a) do cuidado de pessoa que necessite de atenção especial, mesmo que não esteja contaminada ou com suspeita de Covid-19;

IX – coabitar com pessoa que se enquadre nos incisos anteriores; ou

X – ter restrição de acesso ao local de trabalho, em decorrência de barreiras sanitárias e decretos locais que restrinjam a circulação de meios de transportes.

§ 2º Os(As) servidores(as) que desejarem gozar das prerrogativas que constam no § 1º deste Artigo, deverão comunicar sua decisão ao(à) gestor(a) da Instância Acadêmica ou Administrativa, juntamente com documento comprobatório, se couber, encaminhando sua decisão ao setor de pessoal, resguardado o direito de sigilo quanto às informações pessoais.

Art. 3º Os(As) servidores(as) caracterizados(as) em atividades presenciais deverão manter, preferencialmente, os procedimentos usualmente adotados de cumprimento dos horários.

Art. 4º Em caráter excepcional, ficam autorizadas as atividades não presenciais, as atividades intermitentes e as atividades em horário flexível, respeitados os limites estabelecidos pela legislação vigente, abrangendo a totalidade ou parte das atividades desenvolvidas pelos(as) servidores(as).

§1º Os(As) servidores(as) referidos no caput deste Artigo, serão considerados(as) em efetivo exercício de suas funções e orientados(as) e equipados(as) de forma a garantir as medidas de prevenção e redução da transmissibilidade da pandemia.

§2º As atividades referidas no caput deste Artigo ocorrerão sem a necessidade de compensação de jornada e sem prejuízo da remuneração.

§3º As atividades referidas no caput deste Artigo serão realizadas em local que permita o pleno cumprimento das orientações de isolamento social, de acordo com aquelas que os(as) servidores(as) já desempenham usualmente no espaço físico da UFRJ.

§4º Os(As) servidores(as) que, em razão da natureza das atividades desempenhadas ou de limitações de meio, não puderem executar suas atribuições remotamente terão sua frequência abonada.

Art. 5º Para os(as) servidores(as) em atividade presencial não haverá alterações nos registros de frequência e, para aqueles(as) em atividades não presenciais, os registros de frequência serão caracterizados de acordo com o Artigo 2º desta Resolução, observado o estabelecido pela legislação
específica:

I – no Parágrafo único do Artigo 44 da Lei nº 8.112/1990 (Regime Jurídico Único);

II – no §3º do artigo 3º da Lei nº 13.979/2020, que dispõe sobre as medidas para enfrentamento ao COVID-19; e

III – no Artigo 6º do Decreto nº 1.590/1995, que dispõe sobre a jornada de trabalho dos(as) servidores(as).

Art. 6º O planejamento e execução do trabalho remoto serão desenvolvidos pelos(as) servidores(as), tendo em vista os planos de trabalho cadastrados no Programa de Avaliação de Desempenho (AVADES) e a Resolução CONSUNI nº 08/2014.

Art. 7º Os(As) servidores(as) que não possuam as condições materiais necessárias para o desempenho de suas atividades em caráter remoto deverão reportá-las aos(às) gestores(as) de suas respectivas Instâncias Acadêmicas ou Administrativas, para as devidas providências.

§1º Os(As) servidores(as) que não tenham acesso à internet, fora das dependências da UFRJ, ou plano limitado de acesso, deverão comunicar imediatamente aos(às) gestores(as) de sua Instância Acadêmica ou Administrativa, para avaliar uma possível redefinição de suas atividades laborais.

§ 2º Fica autorizada, a critério do(a) gestor(a) da Instância Acadêmica ou Administrativa e da disponibilidade orçamentária, a aquisição de meios para prover os(as) servidores(as) de acesso remoto para o efetivo exercício de suas funções.

Art. 8º Caberá à Pró-Reitoria de Gestão e Governança a orientação de procedimentos junto às empresas contratadas, que preservem e protejam a saúde física e mental dos(as) trabalhadores(as) terceirizados(as).

Art. 9º O acesso remoto aos equipamentos, sistemas, processos e demais documentos deverá observar os procedimentos relacionados à salvaguarda de informações de natureza sigilosa, nos termos da Política de Segurança da Informação da UFRJ e da legislação vigente.

Art. 10. Fica reconhecido o efetivo exercício das atividades dos(as) servidores(as) no período da epidemia no Estado do Rio de Janeiro conforme os dispositivos previstos nesta Resolução, que terão vigência até que o Conselho Universitário da UFRJ estabeleça novas diretrizes.

Art. 11. Esta Resolução se aplica aos(às) demais empregados(as) públicos(as) sob a gestão da UFRJ.

Art. 12. Esta Resolução entra em vigor na data de sua publicação no Boletim da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
 
Profª Denise Pires de Carvalho
Reitora

09WEB menor1130Assessoria a prefeituras do Norte Fluminense, estudo de cenários epidemiológicos, treinamento de profissionais, apoio aos mais vulneráveis e divulgação correta de informações. A UFRJ Macaé mostra sua força e atua, com sucesso, em diversas frentes contra a pandemia.
O Grupo de Trabalho Covid-19 UFRJ Macaé mobiliza 23 subgrupos. A estrutura é multidisciplinar e horizontal. “É um processo muito dinâmico, que todo dia se atualiza, seja pela chegada de novas informações científicas, seja por novas parcerias criadas pelos pesquisadores”, diz o professor Leonardo Moreira, um dos integrantes da rede. Mais de cem docentes desenvolvem projetos voltados para a crise. O número representa cerca de 25% do quadro total.
“Nesse momento de emergência, quem não sabe o que está acontecendo não consegue fazer políticas públicas”, avalia Kathleen Tereza da Cruz, professora do curso de Medicina e coordenadora do GT. O foco, explica a docente, é subsidiar a tomada de decisão dos gestores com consistente base científica. As prefeituras de Macaé, Rio das Ostras e Quissamã entenderam a mensagem e estão alinhadas com a universidade e as diretrizes das autoridades sanitárias interancionais.
Um exemplo está na análise dos pesquisadores Bernardo Tavares e Habib Montoya, publicada na página eletrônica da universidade, desde o início de maio.  O estudo mostra o impacto dos decretos da prefeitura de Macaé, entre o final de março e início de abril, e indica o efeito positivo da opção pelo isolamento social, com “achatamento da curva” de infectados a partir de 21 de abril. Os cenários epidemiológicos para a pandemia em Rio das Ostras e Quissamã mostram resultados semelhantes
Uma das frentes trabalho do GT de Macaé é a construção de um painel online que aponte as principais tendências epidemiológicas dos municípios da região. O diferencial do projeto da universidade, segundo a coordenadora do GT, é a capacidade de análise por meio do cruzamento de informações. “Os painéis sobre a Covid-19 que encontramos hoje só mostram dados absolutos, por exemplo, número de internações ou de óbitos. Mas o que isso quer dizer para aquela cidade afinal? É muito, é pouco?”, questiona Kathleen.
Sala de Situação é o nome do painel de acompanhamento, que considera indicadores de saúde como mortalidade, incidência, números de casos confirmados, de óbitos, distribuição por bairros. O trabalho é realizado em parceria com o curso de Computação da Universidade Federal Fluminense (UFF), em Rio das Ostras.
A ideia é que a plataforma atenda todas as cidades do Norte Fluminense. Mas isso depende da colaboração das prefeituras para fornecer os dados. “Muitos municípios não dão atenção à produção e análise das informações sobre saúde, limitando-se à prestação de contas obrigatórias por lei. Alguns não querem abrir os dados, outros nem têm”, observa.
 Até o momento, o projeto-piloto é Quissamã. O município foi o primeiro a assinar uma cooperação institucional com a universidade para enfrentamento do coronavírus. Além do painel, o acordo inclui um conjunto de ações em parceria para conjugar saúde e educação. E as equipes de profissionais de saúde que atuam na pandemia recebem especial atenção, desde a formação permanente para construção de protocolos que reduzam riscos de adoecimento, até teleacolhimento para cuidar da saúde mental.
 “Como orientar casos suspeitos, teleatendimentos, acompanhamento de profissionais de saúde afastados, critérios para alta. Tudo é construído a partir das realidades trazidas pelos gestores. Esse diálogo é bom para eles e para a universidade”, relata a coordenadora do GT. Para a docente, a pandemia confirmou o acerto da interiorização da universidade. “Nós moramos e trabalhamos aqui. Conhecemos toda a região. Certamente, isso permite à universidade outro nível de atuação no território”.    

Comunicação é tudo
09aWEB menor1130Aproximar a população da produção científica é outra trincheira da UFRJ contra a Covid-19. Além da desinformação, há uma preocupação especial com a disseminação de informações erradas. Cartilhas educativas foram produzidas.
Mas, para a diretora de extensão do Nupem, professora Mirella Pupo, o caminho deve ser mais criativo. Ela e outros três docentes “traduzem” artigos científicos publicados diariamente em revistas científicas, como a Nature, sobre a pandemia, para uma linguagem simples. O bastante para gerar um card, uma publicação curta e ilustrada, para ser difundida pelas redes sociais. Também participam da empreitada uma técnica-administrativa e dez estudantes. No Facebook, a proposta ganhou rapidamente dois mil seguidores.
 “Não é uma coisa simples, porque, além da tradução, fazemos toda uma discussão sobre o conteúdo com os alunos. Em geral, usamos mais de uma literatura para esgotar o tema e não repetir assunto. O trabalho gera certo atraso em relação às notícias do dia, mas vale a pena”, diz. “Se a comunidade científica não se atualizar na forma de comunicar, serão apenas cientistas falando para cientistas”, acredita.
Os cards trazem assuntos diversos relacionados à pandemia, como alcance e velocidade da propagação do vírus, eficácia de drogas, produtos para limpeza, tempo para manifestação de sintomas, entre outros. Os temas são escolhidos levando em conta o interesse da população. As máscaras, por exemplo, ganharam duas publicações, o que não é comum.

Pós-pandemia
O cuidado com os laboratórios mobiliza os pesquisadores. “Temos algo em torno de 60 pesquisas, sendo que pelo menos 20 delas utilizam modelos com animais diversos, como camundongos, peixes, mosquitos etc”, explica a diretora adjunta de Pesquisa do Nupem, Cintia Barros. As escalas nos laboratórios são orientadas pela administração da universidade para manter a segurança no espaço de confinamento. Laboratórios com equipamentos ópticos também recebem manutenção frequente. “Estamos muito perto do mar, o risco é de fungos”, explica a diretora. “Se todo esse material for perdido, o retorno às atividades ficará muito  mais comprometido”.

Quem mais precisa
Macaé mantém ativa uma rede própria de solidariedade aos mais vulneráveis. Sete ações de doações já foram articuladas pela comunidade desde o início da pandemia. Além de cestas básicas, as doações incluem itens extras como material de higiene pessoal, máscaras, álcool líquido e em gel. Em casos especiais, o pacote contém também material de proteção individual, leite, fraldas infantis e geriátricas.
O público-alvo atendido é composto por funcionários terceirizados da UFRJ, idosos de asilos próximos à universidade e estudantes com baixa renda familiar. O Nupem realiza ainda atividades educativas sobre prevenção. A ação é coordenada pelo professor Pedro Hollanda Carvalho (Nupem), com colaboração da Adufrj.

03WEB menor1130Já são mais de dois meses em isolamento social com mudanças profundas na rotina. Estamos distantes de nossos locais de trabalho, transformamos nossas casas em escritórios, suspendemos os encontros com amigos e familiares, nossos filhos não vão para a escola. A vida social e profissional agora está confinada em aparelhos eletônicos. O trabalho dobrou, as incertezas triplicaram e a saúde mental está por um fio.         
    “Há uma série de consequências, a começar pelo aumento da ansiedade, que altera o ritmo da vigília e do sono e leva muita gente a trocar o dia pela noite”, explica a professora Maria Tavares Cavalcanti, professora do Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da UFRJ. “É importante construir uma nova rotina”.
Na prática, significa reorganizar o tempo, preservando os limites entre as atividades.  “É bom ter hora para acordar, para fazer exercícios, comer, e ter tempo para o lazer”, explica. “Ainda assim, essa nova rotina pode não ser o suficiente, então é preciso ter um objetivo forte para perseguir”.
Ex-diretora do Instituto de Psiquiatria da UFRJ (Ipub), Cavalcanti pondera que essa perspectiva tem um corte social. “Estou falando das pessoas da classe média, que em muitos dos casos estão isoladas e seguras”, ponderou. “Entre pessoas mais pobres pode ser muito pior. Há mais gente morando na mesma casa. Pessoas sem nenhuma renda garantida, ou que precisam sair para ter o que comer. Nesse caso, essa ansiedade é muito mais intensa”.
Professor do Instituto de Psicologia e presidente do Conselho Regional de Psicologia do Rio de Janeiro, Pedro Paulo Bicalho destaca os efeitos do cenário de insegurança. “Estamos presos em casa e cercados de incertezas. Será que vou me contaminar? Se acontecer, será que consigo hospital? Corro risco de morrer?”, lista o docente. “O medo da morte passa a ser um problema ainda maior, e com uma implicação mais cruel: a possibilidade de não poder realizar os ritos fúnebres”.
Diante da pandemia, velórios não estão sendo permitidos e os enterros das vítimas da Covid-19 são feitos com os caixões fechados. “Estamos muito preocupados com esses lutos não realizados”, explica o professor. “O temor aumenta cada vez que sabemos de um amigo, conhecido ou parente que morre com a doença”.
Para o professor de psicologia e de saúde mental da Escola de Serviço Social, Erimaldo Nicacio, estamos diante de uma situação peculiar, que é estar mais perto da morte. “A pandemia torna o real da morte mais presente”, disse. “Isso cria uma situação de dupla fragilidade, a do medo de morrer, mas também a do medo de não poder se despedir de quem morre”.
E como se não bastassem essas incertezas sobre a própria vida, há ainda uma perplexidade com fatores mais práticos, como o trabalho ou o cenário político. “Há essa enorme pressão econômica. Mesmo funcionários públicos estão inseguros, não sabem o que o governo planeja para o funcionalismo, se vai cortar benefícios ou congelar salários”, diz.
Para  Pedro Paulo Bicalho, esse cenário acentua a ansiedade e afeta o trabalho remoto. O isolamento colocou milhares de pessoas trabalhando em suas casas, sem que houvesse qualquer adaptação ao processo. O professor pontua que o trabalho remoto tem propriedades, sobretudo de linguagem, que  a sociedade não estava adaptada antes de adotá-lo. “Nas reuniões virtuais as pessoas se desentendem com mais facilidade”, explica.
E ainda precisam ser consideradas as condições em que o trabalho é feito. “As crianças estão em casa, sem escola, a quantidade de afazeres domésticos passa a aumentar e a casa começa a demandar uma parte do nosso tempo que antes não demandava, o que torna o trabalho ainda mais difícil”, observa o professor. “Estamos falando de um trabalho remoto que não está sendo feito por escolha, precisamos levar em conta todas as intercorrências do isolamento”, explica o professor. Ele relata que tem sido muito comum as pessoas se queixarem de que estão mais cansadas ou com a sensação de que estão trabalhando demais. “Estamos em casa há dois meses e parece que estamos trabalhando mais do que nunca”.
Para o professor do IP, uma das maneiras de tentar proteger a saúde mental é entendendo os próprios limites. “Vai ter um dia que você não vai conseguir fazer nada, um dia que você não vai conseguir entrar na reunião ou escrever um texto”, explica, lembrando que as pessoas tendem a se culpar por oscilações de comportamento pelas quais não são responsáveis.
A professora Maria Cavalcanti concorda com o colega e acha que há ricos em uma auto cobrança por produtividade, mesmo em momentos que não estão associados ao trabalho. “Pensamos em cursos, em começar projetos pendentes e até mesmo na hora do lazer, estamos nos cobrando para estar assistindo essa ou aquela live. Parece outro vírus que pegou a gente, o da necessidade de ser produtivo”.

DICAS
A melhor forma de manter a saúde mental em tempos insanos é manter contato com pessoas queridas. “E como estamos em regime de distanciamento, a opção é aproveitar a tecnologia para fazer esse contato”, explica a professora Maria Cavalcanti. “Não é o ideal porque a gente sente falta do contato físico, do olhar, do abraço, beijo, mas é o que a gente pode fazer. Os afetos sustentam a gente. O ser humano é gregário, a gente precisa do outro, precisa ter contato com o outro. E a rede social amplia isso tudo”.
O professor Pedro Bicalho defende que o contato com pessoas queridas pode ser também uma oportunidade para procurar algum amparo emocional. “Precisamos fortalecer nossas redes de afeto, nossos vínculos sociais. Isso é fundamental. Precisamos compartilhar as angústias, as dificuldades, dizer para o outro que está difícil”, explicou. “É fundamental fazer isso para que a gente possa sobreviver e ter a certeza de que vai passar. O isolamento social é uma estratégia de sobrevivência, é importante manter esses vínculos, e reinventar os aniversários, encontros, fins de semana”.
Mas os dois professores alertam para alguns riscos na hora de buscar por diversão, especialmente no uso de álcool ou outras drogas, seja para lazer, seja para tentar lidar com a angústia e a ansiedade. “Até por conta da limitação das opções de lazer, há um risco muito grande de as pessoas abusarem do consumo de álcool”, alertou o professor Bicalho. “Claro que pode beber, mas com moderação. O que não pode é colocar isso na rotina” explicou a professora Cavalcanti.

SERVIÇO
A UFRJ tem uma divisão para atender funcionários da universidade que estejam passando por transtornos ou angústias psicossociais. Durante o período de isolamento, o acolhimento inicial está sendo feito por e-mail: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.. Não tenha medo de pedir ajuda.

 

ENTREVISTA: ERIMALDO NICACIO
Professor de Psicologia e de saúde mental da Escola de Serviço Social da UFRJ

A FADIGA DA CONEXÃO PERMANENTE

03aWEB menor11301O trabalho em home office pode ser um agravante das angústias proporcionadas pelo confinamento?
Neste contexto de pandemia, a fronteira entre casa e trabalho se desfez, o espaço se comprimiu e se reduziu à nossa casa. Somos mais do que nunca obrigados a ficar conectados. E isso produz fadiga mental, distúrbios de sono, esquecimentos.Não está sendo fácil para os casais terem que trabalhar, cuidar das crianças e acompanhá-las nos estudos. Há uma sobrecarga, que muitas vezes recai sobre a mulher. É uma situação particularmente ansiogênica.

 As crianças exigem algum tipo de cuidado especial?
É essencial conversar com as crianças abertamente sobre o que está sendo vivido.  É preciso estimulá-las a expressar seus sentimentos acerca do que está acontecendo, tranquilizando-as sobre a situação. Além disso, é importante ajudá-las no estabelecimento de suas rotinas. Mas atenção, sabendo que as combinações e rotinas vão fracassar com frequência. E é preciso aceitar isso.

06WEB menor1130A Reunião do Conselho de Representantes da AdUFRJ foi uma importante mostra de como os professores estão mobilizados em torno do trabalho remoto e preocupados com a possibilidade de perdas salariais, a partir da Instrução Normativa 28, do Ministério da Economia. O assunto foi discutido virtualmente no dia 25. O encontro chegou a ter 56 docentes conectados simultaneamente.
A presidente da AdUFRJ, Eleonora Ziller, abriu a reunião lembrando que há boas notícias. “Começam a sair decisões judiciais favoráveis para a manutenção dos adicionais para quem está em trabalho remoto”, afirmou. Em Pernambuco, a Justiça suspendeu os efeitos dos parágrafos 4º e 5º da Instrução Normativa 28, que tratavam do corte de adicionais noturno, de insalubridade, periculosidade e radiação ionizante. A ação foi movida pelo Sindicato dos Trabalhadores das Universidades Federais de Pernambuco (Sintufepe). Apesar da vitória, a decisão manteve o corte do vale-transporte.
A atividade deixou clara uma divisão entre os professores em relação à forma de se contrapor à reitoria no debate sobre o trabalho remoto. Enquanto a diretoria da AdUFRJ e um amplo grupo de docentes apostam no diálogo para construir uma saída que resguarde os direitos dos professores e a universidade, um grupo de oposição que se mantém organizado como coletivo, acredita que o confronto público pode garantir que não haja os cortes dos adicionais.
A posição foi explicitada em duas notas encaminhadas ao Conselho Universitário nos dias 14 e 20 de maio. “Apesar dos erros graves da reitoria – e achamos que a portaria foi um grande equívoco –, consideramos que a nossa atuação deve ser de diálogo. Nunca vi um coletivo de oposição tensionar, no Conselho Universitário, o posicionamento de seu sindicato”, criticou Eleonora Ziller. A professora Cleusa Santos, ex-presidente da AdUFRJ, afirmou que a intenção não era causar melindres. “Temos que trabalhar com as diferenças e elas aparecem nos espaços da universidade. Nosso papel como sindicato é defender aquilo que discutimos nos espaços do Andes”.
Entretanto, se havia diferenças quanto ao modo de abordagem do problema, estas não existiam quanto à avaliação do problema a ser enfrentado. Representantes de diferentes unidades acadêmicas foram unânimes na crítica à Portaria 3188 da reitoria, agora suspensa. “Houve críticas principalmente à forma como a portaria foi apresentada, sobretudo porque não tinha um calendário de trabalho”, afirmou o professor João Torres, do Instituto de Física. “Mas não houve uma proposta de boicote ao formulário, porque se entendeu que seria necessário prestar contas de alguma forma à sociedade”, disse.
O ensino remoto também foi um tema tratado no encontro da Física. O docente afirmou que seu instituto trabalha na perspectiva de “redução de danos”. “Não vai ser um cenário perfeito, nem bom, mas é melhor do que não fazer nada”, disse. “Pretendemos contribuir com a universidade nesse debate sobre ensino remoto emergencial”, concluiu o professor.
A professora Ana Lúcia Fernandes, da Faculdade de Educação, contou que a Congregação da Unidade enviou longo documento com considerações sobre trabalho remoto para a reitoria. Uma das sugestões – que acabou sendo acordada no Conselho Universitário do dia 20 – era que a regulamentação do tema acontecesse por meio de Resolução aprovada no colegiado máximo da universidade. Outro pedido era para que o trabalho remoto fosse considerado pela instituição como efetivo exercício, dado que ninguém está afastado de suas funções por vontade própria ou motivos pessoais. O terceiro ponto destacado pela conselheira, ainda sobre o documento, é um pedido de dispensa do preenchimento das autodeclarações.
Preocupações em relação ao Direito do Trabalho foram levantadas pela professora Luciana Boiteux, da Faculdade Nacional de Direito. A reunião da unidade expôs, segundo a docente, muitas dúvidas sobre o pós-pandemia. “A retomada das aulas precisa levar em conta a saúde dos professores. Levar em consideração o acúmulo de trabalho. Muitos relataram sobrecarga gerada pela pandemia”, afirmou.
Os professores do Instituto de Química sugeriram, em reunião da unidade, que a universidade utilizasse a divisão entre “trabalho essencial e trabalho não essencial”. “A pesquisa foi indicada como atividade essencial pelo próprio presidente. Isto poderia resolver a nossa questão”, observou o professor Rodrigo Bitzer.

Proposta do Sintufrj
A proposta de Resolução apresentada pelo Sintufrj ao Conselho Universitário também foi alvo de críticas. Os professores consideraram que ela mantém nomenclaturas que enquadram os professores e técnicos na Instrução Normativa 28. “O documento do Sintufrj precisa ser discutido criticamente e da forma mais ampla possível”, destacou o professor Renato Monteiro, da Nutrição.
Ficou decidido que os professores encaminhariam observações sobre trabalho remoto e avaliações do documento do Sintufrj para a diretoria da AdUFRJ, como forma de contribuir para o debate no GT de trabalho remoto, montado no Conselho Universitário. A AdUFRJ participa do GT, assim como as demais entidades representativas da universidade.
“O cenário ainda é muito turvo, mas precisamos nos debruçar sobre o problema. Precisamos proteger os professores e seus ganhos, mas também os professores que são gestores e a própria universidade”, afirmou a presidente Eleonora Ziller. Ela destacou que a saída adotada pela universidade não pode deixar a UFRJ isolada no cenário nacional. “É preciso acompanhar também o que está acontecendo nas outras universidades federais”.

Solidariedade contra o terror
A AdUFRJ reforça seu compromisso social na pandemia. Esta semana, a seção sindical doou R$ 2.495 para o Pré-Vestibular Popular Machado de Assis, do Morro da Providência. O recurso será utilizado para a compra de 50 cestas de higiene. A região foi alvo de operação da polícia no dia 21 de maio. A ação resultou no assassinato de Rodrigo Cerqueira, de 19 anos. Ele era um dos alunos voluntários que distribuía cestas quando foi atingido por um tiro e morreu no local.

DEPOIMENTO: ELEONORA ZILLER PRESIDENTE DA AdUFRJ

Conselho de Representantes, 25 de maio de 2020

Hoje vou abrir uma exceção e fazer uma fala um pouco mais longa e pessoal. Estou na universidade desde 1982. A primeira sessão do Conselho Universitário a que assisti foi em 1985, pelo Centro Acadêmico da Letras, para acompanhar a eleição do professor Horácio Macedo. Eu frequento o Consuni há muitos anos, fui por seis anos representante dos professores adjuntos e depois dos associados do CLA. Mas fui também da primeira bancada de técnicos-administrativos, e como tal vivi a frustração da nomeação do Vilhena como reitor, que foi um momento muito difícil para todos. Um momento de fratura interna muito complexo na UFRJ. Mas foi um momento de aprendizado, em que o Consuni não era só um espaço de debate político e deliberações, mas o local onde forjamos a unidade para o fortalecimento da universidade.
Quando aceitei ser presidente da AdUFRJ, foi para ajudar a superar um modus operandi de atuação fraturada do movimento docente, e conto com o apoio e a participação de toda diretoria nesse projeto. Já houve um tempo em que tivemos eleições com apenas 400 votantes, e que havia mais professores filiados ao SINTUFRJ do que à AdUFRJ. Por isso dissemos que iríamos fortalecer o Conselho de Representantes, para construir um espaço de diálogo e de troca, como estamos fazendo, pois chegamos a convocar reuniões semanais para enfrentar o início da pandemia.
Guedes diz que jogou uma granada no bolso do inimigo e o inimigo somos nós. UFF, UniRio e Rural tiveram cortes ou estão com o processo de cortes de benefícios encaminhados, para falarmos só do Rio de Janeiro. A UFRJ, por conta de sua unidade interna, está conseguindo manter os pagamentos até agora, com a não implantação dos códigos de trabalho remoto. Essa semana tivemos algumas boas notícias, com ações que estão pipocando e decisões judiciais favoráveis à manutenção dos benefícios em outros estados. AdUFRJ e Sintufrj entraram com ação conjunta inédita, e estamos aguardando os primeiros resultados.
Apesar dos erros graves da reitoria — e achamos que a portaria foi um grande equívoco —, consideramos que a nossa atuação deve ser sempre para construir o diálogo. A portaria finalmente foi suspensa e estamos preparando a Resolução a partir de um Grupo de Trabalho do Consuni.
Quando temos granadas no bolso e o inimigo é fascista, não nos resta outra possibilidade a não ser atuarmos de forma unitária. Minha bisavó foi morta em Auschwitz. Fui privada por 17 anos do convívio com meu avô, que foi para o exílio em 1964. Conheci aos 12 anos os relatos de meu tio, torturado pela ditadura em 1975. Eu conheço o meu inimigo.
A chapa “Ventos de Maio” deixou de existir quando ganhamos a eleição. A nossa meta é construir e consolidar o movimento docente e não representar apenas um segmento de professores. Com toda a pressão que a reitoria tem sofrido para implantar a política do governo, nós temos tido um diálogo de excepcional qualidade e a UFRJ é referência nacional sobre a forma de condução desse debate do trabalho remoto. O momento é de unificar e discutir como vamos caminhar juntos. E não deixar essa granada no nosso bolso estourar.

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