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05WEB menor1135A indicação de Carlos Alberto Decotelli para o Ministério da Educação evidenciou mais uma vez a falta de preparo do governo. Seu currículo o classificava como um quadro técnico, o primeiro a assumir o MEC sob Bolsonaro. Sob a luz do escrutínio público, ficou provada a farsa acadêmica do nomeado, que não tinha título de doutor (sua tese foi reprovada pela banca, conforme apurou com exclusividade o Jornal da AdUFRJ), seu pós-doutorado não tinha validade e sua dissertação de mestrado tem trechos plagiados. A história terminou com a renúncia de Decotelli a um cargo que não chegou a assumir.
A promessa de Bolsonaro, de que teria uma equipe técnica, não se cumpriu. Damares Alves, Ricardo Salles e Ernesto Araújo são alguns dos ministros escolhidos por afinidade ideológica. No MEC, a escolha foi ideológica desde o começo, com Ricardo Vélez e Abraham Weintraub que paralisaram a pasta e a utilizaram para atacar as universidades.
Com o episódio Decotelli, o governo erra pela terceira vez e expõe a farsa em que se ampara – a de que foi eleito para “acabar com tudo isso daí”. Professor de Filosofia do IFCS, Carlos Frederico Saturnino Braga destaca que o agente público tem reponsabilidade por zelar pela ética. “Uma violação tão flagrante tem um efeito negativo na sociedade. Uma sociedade descrente tende a multiplicar as injustiças”, avalia.
“Mentir no currículo é uma transgressão de uma norma, no sentido de uma ética profissional”, seguiu o professor. O docente afirmou que este tipo de infração é ainda pior vinda de um professor, pois está além de uma simples quebra de conduta. “Colide com a ideia do que é correto e adequado. É um mau exemplo”, conclui.
O cargo acrescenta mais responsabilidade. É o que acredita o professor Fernando Santoro, também do IFCS. “O ministro da Educação tem que zelar pela idoneidade das universidades, pelo funcionamento dos sistemas de avaliação que se baseiam em programas oficiais de currículos acadêmicos, como o Lattes”, resume.
Santoro prefere não fazer um juízo ético no caso específico do ex-futuro ministro, mas observa que a falta de especialistas é um sintoma do governo Bolsonaro. “Não tem um quadro ou um especialista da saúde para cuidar da saúde, não tem um especialista ou ativista em direitos humanos para lidar com direitos humanos, nem um notório protetor do meio ambiente para cuidar da natureza. Os ministros são convidados por razões ideológicas e não suprem competências técnicas de Estado”, analisa.
Para ele, chama a atenção que a discussão sobre o ministro, que foi declaradamente escolhido por critérios técnicos, seja sobre sua capacidade expressa pelo currículo. “Não vou entrar na intencionalidade, se foi fraudado ou não, mas pelo que se viu era um currículo que não correspondia, na sua expressão, à formação técnica efetiva de quem declarava ter aquele currículo”.
Decotelli não foi o único do primeiro escalão a ter falsidades apontadas na formação. Ricardo Salles dizia ter mestrado em Yale sem nunca ter estudado lá, e Damares Alves tinha “mestrados bíblicos”. “Minha questão não é apontar mais um caso de fraude, nem dar valor a títulos. Agora, um ministro da Educação não é alguém que possa dar um mau exemplo de engano num instrumento público”, defende o professor. “Por outro lado, é sintomático que se queira ostentar apressadamente o título de doutor. A sociedade está mais atenta aos títulos acadêmicos do que à vida social e profissional efetiva”.

PERSPECTIVA LEGAL
O debate sobre as informações falsas no currículo de Decotelli também devem ser feitas sob a luz da discussão jurídica, como observa o professor Fábio Corrêa Souza de Oliveira, da Faculdade de Direito. “Espera-se de todo agente público compromisso com os princípios constitucionais da Administração Pública, como o princípio da moralidade administrativa, da boa-fé, da lealdade, o que traduz o cumprimento da legalidade, do dever de honestidade, de veracidade”, afirma. Nesse tripé, as violações de Decotelli estão longe de serem exclusivas na gestão Bolsonaro.

07WEB menor1135Presidente da AdUFRJ, Eleonora Ziller, no CR virtualHoras a fio em frente a uma tela de computador, gastos extras em casa e uma inesperada exposição via internet. A diretoria da AdUFRJ prepara um documento sobre o trabalho remoto docente, uma situação que deve piorar com a retomada institucional das aulas na graduação. O objetivo é discutir um conjunto de medidas para preservar os direitos dos docentes.
“Estamos investindo nosso dinheiro nas condições técnicas para dar aula”, afirma a presidente da AdUFRJ, professora Eleonora Ziller. “São gastos com luz, internet e equipamentos”.  
O sindicato também vai reivindicar da instituição o suporte tecnológico para utilização dos programas necessários às atividades didáticas. “Uma grande parte dos professores não está habituada nem pratica o ensino a distânca”, completa.
Outra preocupação é com a saúde dos docentes no ambiente doméstico, onde uma simples cadeira inadequada pode causar enormes danos à coluna. “Além de problemas com lesão por esforço repetitivo e visão, por exemplo. O professor não pode ultrapassar uma determinada carga de horas por dia em frente a uma tela”, observa Eleonora.
Um ponto polêmico será a gravação das aulas. Especialistas em educação a distância recomendam o recurso para favorecer a inclusão dos estudantes, que podem não conseguir uma conexão estável no momento de uma atividade em tempo real. Mas, ao mesmo tempo, a medida pode também colocar em risco os professores. “Vamos solicitar da universidade protocolos para atuar”. Eleonora acentua ainda a diferença entre se relacionar com os alunos em tempo real e a preparação de uma aula gravada. “Precisamos ter noções de gravação, de edição. É muito mais complicada”.
A AdUFRJ também pretende ouvir professores de diferentes áreas do conhecimento para identificar os problemas específicos de cada curso diante do ensino remoto. Está sendo avaliada a realização de uma plenária virtual no dia 13. No dia 16, uma reunião do Conselho de Representantes, com a presença de representantes do DCE e da Associação de Pós-graduandos, avalia os resultados da discussão.

CONSELHO DE
REPRESENTANTES
A reunião do Conselho de Representantes da AdUFRJ na segunda-feira, dia 29, mostrou como o tema do ensino remoto é polêmico.
João Torres, do Instituto de Física, registrou que a palavra-chave do momento é “emergência”. “Não será de excelente qualidade, mas temos de fazer o ensino remoto”. João observou que o papel do sindicato é representar de forma fiel os professores. E, de acordo com uma pesquisa feita pela reitoria e divulgada no Jornal da AdUFRJ, eles já se manifestaram, em sua maioria, a favor do ensino a distância.
Rodrigo Volcan, do Instituto de Química, manifestou que os problemas do trabalho docente são muito agravados durante  a pandemia e cobrou mais discussão na universidade sobre o ensino remoto.  “Como vamos dar aulas práticas? Meu departamento só tem uma disciplina que é teórica. As demais são teórico-experimentais. Precisamos amadurecer mais este debate”, disse.
Diretor da AdUFRJ, o professor Felipe Rosa tratou da inclusão dos estudantes no ensino remoto. “Temos que incluir todos, mas pouco se fala sobre os que estão sendo excluídos agora. Eu já perdi alunos do curso. Devemos estar perdendo dezenas de alunos todas as semanas. Se a gente ficar seis meses sem nenhuma atividade didática, essa conta vai chegar aos milhares”, disse.

RETOMADA GRADUAL
A reunião contou com a presença do pró-reitor de Planejamento da UFRJ, Eduardo Raupp. O professor, que coordena o GT pós-pandemia da universidade, foi convidado pela diretoria da AdUFRJ para explicar as cinco fases de retomada gradual das atividades e os respectivos condicionantes, conforme já antecipado pelo Jornal da AdUFRJ. “Queremos identificar demandas. Quais serão os desafios de um retorno? Como organizar isso?”, disse.
O dirigente deixou claro que uma ampliação das atividades presenciais depende de uma combinação de requisitos institucionais e requisitos epidemiológicos. Ou seja, não basta que ocorra uma diminuição dos índices de contaminação pelo novo coronavírus, no estado. A universidade precisa oferecer as condições mínimas para o retorno. E vice-versa. “As datas são prognósticos. Indicamos prazos bem longos”, observou, em referência à previsão  de início gradual de aulas pr   esenciais na graduação e na pós-graduação com rodízio e ensino híbrido, entre outubro e dezembro. “O mais importante são os requisitos”, enfatizou.
Questionado sobre o que a administração pensa em relação ao retorno das atividades do Colégio de Aplicação, Raupp disse que haverá um encontro específico do grupo de trabalho para avaliar o assunto. “Em qualquer unidade, a prioridade é assegurar a saúde . Não vamos fazer nada açodado”, respondeu.
Os conselheiros também manifestaram preocupação com a capacidade orçamentária  da UFRJ de dar conta das novas demandas tecnológicas e de adaptação da infraestrutura, diante dos cortes governamentais dos últimos anos. O pró-reitor informou que há possibilidade de uso da verba do Plano Nacional de Assistência Estudantil  e de uma pequena margem do orçamento discricionário. “Mas não resolvemos esses problemas sem políticas públicas. Uma universidade não dá conta disso sozinha”, disse. Dois dias depois, finalmente o MEC anunciou alguma forma de apoio às universidades.

consuni0307Exatamente um ano depois de tomar posse, a reitora Denise Carvalho presidiu uma das mais desafiantes sessões do Conselho Universitário de seu mandato, na quinta-feira (2). A sessão extraordinária enfrentou o principal dilema democrático para a universidade diante da pandemia coronavírus: as condições para um ensino remoto emergencial sem exclusão social. Os estudantes sistematizaram uma pauta de garantias mínimas. E a agenda mobilizou grande parte das mais de quarenta intervenções dos conselheiros. O acordo com os discentes é um passo decisivo para a costura de um pacto interno bem sucedido. A reitoria prometeu incorporar, ao máximo, os pontos levantados. A decisão final sobre o retorno das atividades está prevista para o Consuni da quinta-feira, dia 9.  
A inclusão digital, com oferta de bolsas, chips de internet, modens e aparelhos eletrônicos – inclusive para a educação especial – encabeça a lista de demandas estudantis. Assim como a abertura de edital para auxílio emergencial. Mas eles também pedem atenção especial para os formandos. E querem que a administração central promova uma campanha de sensibilização dos docentes para a oferta de aulas gravadas. “Entendemos o argumento da liberdade de cátedra, mas nem todo aluno conseguirá estar online durante a aula. Estamos falando de um regime de excepcionalidade, precisamos ter acesso ao conteúdo”, argumentou a aluna Dahra Vasconcelos, em favor dos conteúdos assíncronos.
A recomendação de que os docentes ofertem aulas gravadas estará em um guia preparado pela administração. “A resolução do CEG já fala em ‘preferencialmente’ aulas gravadas. Somos favoráveis à demanda. Colocaremos no guia que estamos finalizando e podemos fazer uma campanha de divulgação”, disse o vice-reitor, professor Carlos Frederico Rocha.
A representação estudantil bateu firme na tecla da proteção à diversidade. “A gente tem uma complexidade muito grande de condições de vida.  São diversos os fatores que podem fazer uma pessoa não cumprir o horário das aulas síncronas. Nesse momento, a pandemia bagunça completamente a nossa rotina”, advertiu a estudante Juliana Paiva. “Os estudantes pais e mães, que antes deixavam seus filhos na escola ou creche, estão tendo que cuidar dos filhos”, exemplificou. “Não deixar ninguém pra trás é também combater o racismo”, observou ainda o conselheiro João Pedro, enfatizando a maior vulnerabilidade de alunos negros e negras da universidade.
A preocupação dos estudantes com os concluintes tanto de 2020.1 como de 2020.2 foi compartilhada também por docentes. Roberto Medronho, professor da Faculdade de Medicina, interpelou por definições para as etapas finais e necessariamente presenciais do curso. Enquanto o decano do Centro de Ciências Jurídicas e Econômicas (CCJE), Flávio Martins, sugeriu que o período especial fosse dedicado exclusivamente aos concluintes, como um projeto piloto. “Poderíamos aplicar o calendário primeiro para os concluintes, para experimentar, já que não sabemos bem com vai funcionar”, propôs.
A Adufrj acompanhou de perto a discussão. Eleonora Ziller, presidente da entidade, destacou a importância da “força, unidade interna e consistência política” da universidade em um cenário político de ameaças democráticas “nas mais diferentes formas”. Como exemplo, ela lembrou o quadro de intervenção na Universidade Federal do Ceará.
Sobre a transição para as atividades emergenciais remotas, a presidente da Adufrj avaliou que embora a insatisfação com as resoluções aprovadas nos Conselhos da universidade seja “generalizada entre os professores”, elas também refletem “um momento muito difícil, de perdas individuais e institucionais”.
“Há uma consciência de que será um momento de muitas dificuldades, não só de adaptação e de realização, mas também de garantia de padrão da excelência pela qual sempre lutamos para preservar”, disse. Eleonora defendeu ainda o caráter facultativo do regime de remoto: “A suspensão de 2020.1 é o único caminho, um período especial não obrigatório, que não prejudique nem docentes nem discentes”.

calendar 1990453 640Imagem de Andreas Lischka por PixabayO Conselho de Ensino de Graduação aprovou esta semana o calendário do chamado período letivo excepcional, quando serão realizadas aulas remotas. Na proposta aprovada o período de aulas vai de 10 de agosto a 31 de outubro. De 17 a 25 de julho, haverá a abertura de turmas e a inscrição direta dos concluintes, realizada pelos coordenadores. O período de inscrição de disciplinas será de 27 de julho a seis de agosto. O calendário agora precisa ser aprovado pelo Consuni.
A proposta original, formulada pelo GT CEG PR-1, propunha o começo das aulas em 3 de agosto. Mas por decisão do colegiado a data foi alterada para dia 10. A mudança foi proposta pelos representantes dos estudantes para garantir tempo para os alunos receberem os chips com plano de dados que serão entregues pela universidade. A PR-7 já publicou o edital dos chips, e espera fazer a entrega antes do começo da inscrição de disciplinas no período letivo excepcional.
De acordo com PR-1, enquanto durar o semestre excepcional, o período 2020.1 será congelado. Significa que não poderá ser alterado, mas as inscrições de disciplinas feitas poderão ser consultadas pelos alunos.
A reunião contou com a presença de Ricardo Storino, gerente do SIGA, que foi ao conselho explicar como vai funcionar o período letivo excepcional no sistema. “Nós vamos criar um período fora do período regular. Um período totalmente estanque e dentro da normalidade das ações do período”, explicou Storino. “Precisaremos fazer alterações significativas, uma vez que o período terá algumas características que não estão previstas nas regras normais. Por exemplo, permitir que o aluno faça o trancamento a qualquer momento, possibilitar que nenhum bolsista seja prejudicado por não participar. É importante frisar que nenhum aluno vai ser prejudicado”, garantiu.
08WEB calendario1135Outro diferencial do período excepcional é a primeira fase de inscrição de disciplinas. Os alunos concluintes vão ser inscritos diretamente pelas suas coordenações nas disciplinas, garantindo assim que eles tenham prioridades nas vagas. Depois vai ser aberto um período de inscrição para os demais alunos. O trancamento vai ser feito durante todo o período.
Quando acabar o período letivo excepcional, a PR-1 e o SIGA vão avaliar se 2020.1 será retomado e quais ajustes serão necessários para isso. A retomada depende das condições sanitárias da cidade e do país – a posição da reitoria é só voltar às atividades presenciais com o desenvolvimento de uma vacina ou de um tratamento eficaz para a covid-19.

stay home 5205390 640Imagem de Hatice EROL por Pixabay Aos cem dias de suspensão das aulas presenciais nos perguntamos o que será de 2020.1? Ele mal havia começado. A primeira semana – tomada por aquele burburinho confuso dos novos alunos, os excessos nas chopadas – havia apenas anunciado o que poderia ser o semestre que já prevíamos difícil. Tudo de repente silenciou, os corredores se esvaziaram como nunca... Basta que façamos um pequeno esforço para lembrarmos da emoção e do impacto que teve em nossas vidas o primeiro período da graduação, para nos aproximarmos do que houve de perda real e de frustração entre os nossos alunos ingressantes. Basta um pequeno balanço do que fizemos e do tanto que vivemos nos corredores da UFRJ durante o período passado para termos uma leve ideia do que perdemos em termos de experiência afetiva, trocas, discussões acaloradas que simplesmente não puderam existir, e pensem ainda nos cafés que não foram compartilhados. O mundo universitário é extraordinário não só por nos dar acesso ao conhecimento acadêmico, mas pela vitalidade que ele comporta nas suas mais variadas formas, na sua quase anárquica organização competindo com as montoeiras de regras, portarias, calendários que tentam domesticar um cotidiano que pode ser exaustivo, mas que não encontra paralelo em nenhum outro tipo de organização humana. Ao fim e ao cabo, para os estudantes, representa a fase mais rica da vida, atravessada pela chegada da vida adulta e pelo processo de formação profissional.
Essa perda alcança dimensões trágicas quando associada ao quadro desolador da pandemia da Covid-19, e que por si só já seria um horror, mas que no Brasil, a ausência de uma autoridade sanitária com o mínimo de competência no assunto multiplicou por muito seu impacto na sociedade. Sob o efeito da desorganização da própria vida, muitas vezes enfrentando na carne a dor pela perda de entes queridos, nossos estudantes, em sua grande maioria, ficaram sem nenhum contato com a instituição. Difícil mensurar tudo que se abateu sobre nós nesses dias de distanciamento social. Por mais protegidos que os docentes possam estar, também não tem sido fácil atravessar o desastre na qual se transformou a vida do país. Muitos de nós estão mergulhados em seus laboratórios, em suas pesquisas, enfrentando o desafio da assistência e da pesquisa, numa ampla gama de atividades de investigação, de extensão, e acompanhamento de seus orientandos. Enfim, podemos até dizer que as aulas presenciais são apenas uma parte do nosso trabalho... Mas que parte!
2020.1 não foi cancelado, e parece que permanecerá à nossa espera, para que reorganizemos o seu calendário, recuperemos o planejamento, as aulas. Mas antes disso, na graduação, há um período especial, que começa a ser criado, não se sabe exatamente nem como, nem quando. Sabemos até aqui que cada unidade poderá desenhar o que pretende oferecer, ou seja, que obedecerá a demandas específicas, e que não terá caráter obrigatório, nem para docentes, nem para estudantes. Pelo visto, será tipo um ensaio geral, um caminho para experimentarmos aulas remotas. Essa condição pode ser motivadora para alguns pelas novas possibilidades que promete. Mas muitos se sentem em um tubo de ensaio, como cobaias assustadas, diante de um forte experimento que não tem escondido seus interesses. O grande capital não disfarça sua avidez em ocupar esse novo espaço, cheio de possibilidades de negócios, oportunidades que podem movimentar uma quantia não desprezível de maquinários, expertises e principalmente, dinheiro. E isso vai além de nossas salas de aula, trata-se de um movimento internacional, que não é obra de ficção e já tomou conta de grandes universidades pelo mundo.
Não há dúvida de que estamos inaugurando uma nova era, com contornos pouco claros. Há um luto a ser feito. É algo muito maior do que planejarmos o próximo semestre, ou um semestre especial, e todos esses elementos estão em jogo quando pensamos o que será da universidade daqui para frente. O processo de luto nunca é igual, nem previsível para todos. Há quem encare as transformações como estímulo imediato à ação, há quem precise se distanciar um pouco para pensar melhor todas as suas consequências. Não são poucos os professores e estudantes que já estão vivendo essa interação tecnológica há algum tempo, mas isso não pode se transformar em régua única para toda a instituição, ainda mais com o grau de heterogeneidade e complexidade que possui a UFRJ. Alguns avaliam que as reivindicações do DCE são inalcançáveis e com isso jamais teremos a possibilidade de implementar o ensino remoto emergencial de que necessitamos. Mas essas reivindicações podem dizer muito mais do que estamos percebendo na sua superfície. Há ali um grito para que não nos percamos, para que não deixemos morrer esse mundo tão peculiar que é a universidade, e em especial, as universidades públicas e suas atividades presenciais. Há assombro em muitos de nós, há cansaço. Mas também vislumbramos novos movimentos. Há desejo e impulso vital para que não nos percamos ainda mais. E necessitamos também de tempo e de respeito para fazer essa discussão. A urgência de que necessitamos não é a da deliberação sobre o calendário, mas a de encontrar o equilíbrio entre esses impulsos, para que nos façam avançar no que é realmente necessário: as respostas que devemos à sociedade e aos nossos alunos nesse período emergencial. Precisamos ser generosos em nossas convicções sobre os outros e compartilharmos a consciência de que estamos diante de algo que ninguém imaginou, planejou ou desejou viver. Nesse chão comum encontraremos o caminho, que pode começar sem respostas, e por isso mesmo, ser o melhor a ser trilhado.

ELEONORA ZILLER
Presidente da AdUFRJ

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