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Foto: Alessandro CostaA ligação da UFRJ com o mar é antiga. Seu principal campus está debruçado sobre a Baía de Guanabara. Um dos seus cursos mais tradicionais, o de Engenharia Naval e Oceânica, existe há mais de 50 anos. A Biologia Marinha oferecida no CCS é uma das referências da área. A descoberta e exploração do pré-sal contou com a decisiva participação da universidade.
Agora chegou a vez de ampliar esse vínculo. Em parceria com o movimento socioambiental Baía Viva e a Petrobras, o Hangar Náutico da UFRJ vai sediar um Centro de Formação em Economia do Mar, voltado para a capacitação de comunidades tradicionais da Baía de Guanabara, como indígenas, pescadores e quilombolas.
A coordenação da iniciativa, lançada no último dia 17, caberá ao Núcleo Interdisciplinar para o Desenvolvimento Econômico e Social (Nides/UFRJ). “Uma das bases do Nides é o UFRJ Mar, que há mais de 20 anos articula grupos da universidade nesta temática. Da biologia marinha, dos esportes marítimos, da engenharia naval e tantos outros”, afirma o diretor da unidade, professor Felipe Addor.
Antes do apoio da Petrobras, o Nides e o movimento Baía Viva já haviam realizado cursos de carpintaria naval no mesmo hangar. O lançamento do centro de formação consolida e coroa essa trajetória. “Vimos que faltava na universidade, especialmente no Fundão, um espaço para fortalecer o intercâmbio com a sociedade. Um espaço para apoiar atividades de extensão, para receber pessoas de fora e realizar processos de formação”, diz. “A universidade pública tem sido muito atacada. Acreditamos que o fortalecimento dessa relação com a sociedade e das ações de extensão pode ajudar a valorizar o papel da universidade”.
Dez professores devem atuar diretamente no centro de formação, além de um grupo de 30 a 40 estudantes de graduação e pós-graduação. “Tudo isso será registrado como atividade de extensão”, esclarece Felipe.
DEZ CURSOS
Estão previstos dez cursos e oficinas. Entre eles, carpintaria naval artesanal, turismo de base comunitária e mecânica de motor de barco. “Estamos ressignificando este espaço que foi construído em cima de oito ilhas aterradas para receber a universidade”, disse o coordenador do Baía Viva, Sérgio Ricardo.
“Moravam aqui os pescadores artesanais e, antes deles, os povos indígenas. Mas hoje os pescadores moram nos lugares mais degradados da Baía de Guanabara ou da Baía de Sepetiba onde não têm o saneamento básico”, completou.
As atividades acontecerão em sete municípios (Itaboraí, Caxias, Cachoeiras de Macacu, Maricá, Guapimirim, Magé e São Gonçalo) e no Hangar, que está sendo reformado com os recursos da Petrobras. No local, haverá três salas para 40 pessoas e um refeitório. O alojamento local e o píer serão reformados.
O primeiro curso, de viveiristas agroflorestais começa em maio, em Maricá. “Faremos um viveiro para 50 mil mudas de espécies nativas da Mata Atlântica. São 30 vagas e já temos 100 inscritos”, informa Sérgio. “No segundo semestre, teremos a turma do estaleiro-escola. Vamos construir um catamarã movido a energia solar e elétrica para 15 tripulantes”.
INTERAÇÃO
A reitoria espera que o centro de formação renda frutos para a sociedade e para a própria UFRJ. “Será um momento de muito aprendizado. O conhecimento não está só na universidade. O conhecimento também está no povo, que cria muitas inovações no seu dia a dia. Acredito que a interação entre esses conhecimentos trará as grandes inovações tecnológicas e sociais para mudar este país”, disse o reitor Roberto Medronho.
Márcia Cristina, de 55 anos, integrante da cooperativa Manguezais da Guanabara, está ansiosa pela troca de experiências com a universidade. Mais uma. A pescadora já fez parte da segunda turma do curso de carpintaria naval promovido pelo Nides há cerca de dois anos. Antes, nunca havia entrado na universidade. “Eu amei. Aqui eu aprendi novas técnicas. Foi muito bom”.
Márcia agora pretende participar dos novos cursos que serão oferecidos, ao lado da neta Júlia, esperançosa de dias melhores para a Baía de Guanabara e para sua família. “A Baía de Guanabara representa vida, porque ela é o berço de aves migratórias e de muitos peixes. E é dali que nós tiramos nosso sustento”.
O Baía Viva surgiu na década de 1980, quando pesquisadores e ecologistas enfrentaram a ditadura para impedir os aterros dos manguezais da Guanabara. Um dos principais expoentes daquela resistência foi o professor e geógrafo Elmo Amador, ex-diretor do Instituto de Geociências (1985-1989) e ex-diretor da ADUFRJ (1993-1995), que morreu em 2010.
Durante o lançamento do centro de formação, Elmo recebeu como homenagem a exibição de um vídeo sobre sua trajetória. “O Elmo deve estar vendo essa continuidade da luta com muita alegria, de onde estiver”, disse a viúva Zulmira Bittencourt Amador, a Zuzu, que prestigiou a solenidade ao lado das netas. Uma delas, também geógrafa. “Ainda bem que os jovens estão pegando essa bandeira também”, comemorou.
Foto: Alessandro CostaCultura de células em laboratório, experiências com regeneração de tecidos ósseos, cultivos de células-tronco. Um gigante universo microscópico encantou pequenos e jovens estudantes de escolas públicas do Rio de Janeiro que participaram do ICB de Portas Abertas. O projeto de extensão literalmente abriu as portas de 19 laboratórios de pesquisa do Instituto de Ciências Biomédicas para 160 alunos de cinco escolas públicas das cidades do Rio de Janeiro e Volta Redonda. As atividades ocorreram na semana de comemorações dos 57 anos do instituto.
A professora Lívia Ribeiro Rosário, dá aulas de ciclo de leituras para os estudantes do GET D. Pedro I, na Barra da Tijuca. “Nosso colégio atende a crianças da Tijuquinha, Muzema e Rio das Pedras, majoritariamente. Em menor quantidade, temos alunos da Cidade de Deus e da Rocinha”, conta. “São crianças que nunca tiveram contato com a universidade. Estar aqui abre uma porta que eles nem sonham, porque não faz parte da realidade deles”, disse a professora, que acompanhava alunos do 9º ano do Ensino Fundamental. Lívia parabenizou a iniciativa. “Estar na universidade mostra para eles que eles podem e devem estudar aqui. Destrava sonhos, eles descobrem habilidades e interesses. Isso é muito importante”, avaliou.
Nataly Scarparo, do 2º período de Ciências Biomédicas, era a monitora do grupo. Ela contou que se apaixonou pelo curso justamente durante uma visita ao ICB com sua antiga escola. “Gosto muito de poder levar os estudantes a conhecerem coisas novas. Mostrar que eles podem ficar encantados, como eu fiquei”, disse. Ela era aluna da Escola Municipal São Paulo, em Brás de Pina, Zona Norte da cidade. “Vim duas vezes conhecer os laboratórios do ICB. Foi muito importante ter tido aquelas experiências para eu me identificar com a área e acreditar que poderia estudar aqui. Quando conheci a UFRJ, vi que era possível”, afirmou.
Os olhos atentos das crianças e adolescentes não perdiam uma explicação em cada laboratório descortinado. Para Mariane Callegare, aluna do 9º ano da Escola Municipal João Mendonça, no Pechincha, Zona Sudoeste do Rio, visitar as instalações do ICB foi um programa imperdível. “É a primeira vez que venho à UFRJ. Achei muito importante a visita. A gente se sente pertencente. É muito bom visitar e saber que a gente pode estar aqui um dia”.
Coordenadora do Laboratório de Biotecnologia, Bioengenharia e Biomateriais Nanoestruturados (Laben), a professora Sara Gemini Pipermi afirmou que poder mostrar a produção da universidade é uma das formas de a instituição prestar contas para a sociedade e conseguir apoio social. “É preciso entender para preservar. Aqui, neste laboratório, nós temos inúmeros projetos relacionados à medicina de precisão, nanomateriais, equipamentos de ponta. É importantíssimo e muito bom que tenhamos escolas e alunos que não têm contato próximo com esse campo”, disse. “A gente tem que devolver para a sociedade todo esse conhecimento aplicado”, defendeu.
“É extremamente importante trazer a sociedade para junto da gente e mostrar que a gente faz ciência de qualidade e que isso tem impacto na vida das pessoas”, analisou o vice-diretor do ICB, professor Leandro Miranda-Alves. “A gente ouve vários depoimentos de alunos que mudaram a perspectiva quando conheceram o ICB”, contou o docente. “Uma vez, no início da visita, ouvi de um menino que ele queria ser policial, porque era a realidade que ele conhecia. Depois da visita, ele disse que queria ser biomédico. Se a gente muda uma cabeça, a gente já tem uma grande conquista. De pouco em pouco, a gente muda a realidade.
A pequena Maria Alice, que completou dez anos um dia após a visita aos laboratórios, mostra a força e a importância de conhecer a universidade. Ela estuda na Escola Municipal Alfredo de Paula Freitas, em Irajá, Zona Norte do Rio. É aluna do 4º ano do Ensino Fundamental. “Eu gostei muito de vir aqui! É muito legal ver as células de verdade. Agora eu quero ser dentista”, disse. “E eu quero ser veterinária, cuidar dos bichinhos e do laboratório!”, completou Emanuelly Victória, de 9 anos, colega de turma de Maria Alice. Voem, meninas.
No encerramento das comemorações do ICB, a jornalista Ana Lúcia Azevedo, do Jornal O Globo, falou sobre o jornalismo científico e a importância da divulgação científica para a sociedade e para os pesquisadores. “O papel da mídia é ser o olho da sociedade, mas a gente precisa equilibrar o tempo inteiro a relevância e assuntos que chamem atenção da sociedade”, disse.
Para a jornalista, o conhecimento está mais fragmentado com o advento das mídias sociais. “Nas redes sociais, a gente segue precisando trabalhar com relevância e interesse, mas de forma muito mais intensa do que no impresso. Não temos mais o tempo para captar a atenção e o interesse do leitor. É tudo muito mais instantâneo”, avaliou. “É preciso capturar a atenção do público em geral, não especializado. Não se trata de uma publicação técnica”, ponderou a profissional, sobre a necessidade de “traduzir” temas áridos. “Construir essa ponte até o leitor é mais fácil com as ciências aplicadas do que com a ciência básica”, reconheceu.
Ana Lúcia também defendeu a importância de textos claros, que simplifiquem conceitos. “É muito importante ter objetividade e traduzir termos técnicos. Eu sei que às vezes os senhores ficam bravos, mas é importante ter em mente que o leitor não é um especialista naquela área ou naquela pesquisa”, justificou. “Se o leitor não entende, ele não lê. E aí fica aquela linda matéria que ninguém lê”. A jornalista também enfatizou a busca por histórias que humanizem o texto e que tracem paralelos com o cotidiano. “É muito mais fácil lembrar de uma história e fazer a associação com um conceito científico do que lembrar que o ‘vírus x’ pode causar problemas de memória no longo prazo”.
A profissional defendeu o rigor da apuração e falou sobre o compromisso do jornalismo e da ciência no combate a fake news. “Eu acredito que a ciência é o maior antídoto contra fake news. Você só tem como combater mentira com dados. É nosso papel enquanto jornalista corrigir desinformação. E o respaldo social se constrói com a relação entre a divulgação científica e a sociedade”.
A conferência da jornalista integrou uma vasta programação que contou também com debates sobre a formação de recursos humanos na área de ciências biomédicas, debates com especialistas, workshops e apresentações de pôsteres de pesquisas. A ideia foi mostrar o impacto do instituto na sociedade e ao mesmo tempo discutir temas que fazem parte do dia a dia e da produção do ICB. É o que explica a professora Flavia Gomes, que coordenou a comissão organizadora do evento.
“Somos um instituto que faz uma ciência básica de excelência e uma ciência básica que é utilizada, digamos assim, para a criação de diversas estratégias de resolução de problemas de saúde pública, como a criação de novas terapias e diagnósticos para diversas doenças”, ilustra a docente. “A ideia foi usar essa semana para comemorar, mas principalmente para levantar temas transversais que pudessem mostrar o impacto do ICB nas suas diversas frentes”, revela. “Tentamos fazer essa espécie de síntese da nossa atuação”.
Nesta quinta-feira, 30 de abril, às 19h, o historiador Michel Gherman e o teólogo Ronilso Pacheco conversam sobre o uso de signos religiosos pela extrema direita. Haverá um bate-papo e uma noite de autógrafos de lançamento do livro "Diálogos em tempos difíceis".
O livro parte de uma premissa urgente: analisar como líderes autoritários em diversos países têm instrumentalizado a religião para mobilizar bases sociais e atacar estruturas democráticas. No texto, Gherman e Pacheco discutem o avanço do que chamam de "pedagogia do ódio" e a exploração do medo.
MICHEL GHERMAN é professor do Departamento de Sociologia do ICFS/UFRJ e do Programa de Pós-Graduação em História Social (IH/UFRJ), é coordenador do Núcleo Interdisciplinar de Estudos Judaicos (NIEJ/UFRJ).
RONILSO PACHECO é teólogo, pastor, mestre em religião e sociedade pela Universidade de Columbia e diretor do Instituto de Estudos da Religião (ISER).
ANA LUIZA ALBUQUERQUE é jornalista especializada em política, mediou os diálogos entre Gherman e Pacheco. É mestre em jornalismo pela Universidade de Columbia.
Anota na agenda para não esquecer!
30 de abril
19 horas
Livraria Janela - Rua General Glicério, 324 - Laranjeiras
A PARTIR da esq: Márcio Portes, José da Costa Filho, Gulnar Azevedo, Roberto Medronho, Mônica Savedra, Marly Cruz, Jackeline Farbiarz, Débora Foguel, Tatiana Roque e Michel GhermanOs gestores das universidades e instituições de pesquisa do Rio de Janeiro prestigiaram o primeiro encontro da Rede Artigo 5º e declararam total apoio a iniciativas que busquem reduzir a letalidade no estado. O reitor José da Costa Filho, da UniRio, foi um deles. Professor de teatro, o reitor defendeu a inserção de políticas culturais para pessoas em vulnerabilidade social. “Eu não tenho dúvida de que a desqualificação completa da condição cidadã e subjetiva das pessoas, a redução à realidade biológica, torna aquela vida nua, descartável, matável. É uma vida que não tem outra valia. Não é cidadã, não é científica, não é política. Não tem subjetividade. Está ali para ser aniquilada”, afirmou. “Foi isso que aconteceu em outubro passado”, disse o dirigente, ao se referir à pouca comoção popular à chacina de 28 de outubro.
Ele também aproveitou o momento para elogiar a atuação da AdUFRJ. “Parabéns por atuarem num campo político mais amplo. Nossa tarefa sindical tem também um compromisso amplo. As nossas instituições são ameaçadas pelo avanço da extrema direita”, destacou.
O reitor Roberto Medonho declarou total apoio à rede. “Essa iniciativa de reunir a inteligência para discutir esse tema tão sensível é um marco histórico. Precisamos agora dar mais visibilidade ao Artigo 5º da nossa Carta Magna. Há direitos fundamentais ali explicitados que nunca foram seguidos”, disse. “Um dos compromissos da UFRJ é fazer ampla divulgação do que está sendo produzido por essa brilhante rede”, garantiu o reitor.
Medronho também comentou o impacto das imagens que circularam em outubro passado, dos corpos na rua, no dia seguinte à megaoperação dos complexos da Penha e do Alemão. “Eu acho que as atrocidades sobre as quais esse país foi constituído, com sangue de pessoas negras escravizadas, gerou de certa forma uma naturalização da violência”, disse. “Para constituição de políticas públicas não só mais eficazes, mas mais humanas, que levem em conta a dimensão civilizatória, é fundamental a integração da academia, da ciência, da gestão pública e da sociedade”.
Reitora da UERJ, a professora Gulnar Azevedo defendeu a atuação coletiva da rede. “Se a gente não se estruturar em rede, se a gente não se proteger, não vamos conseguir avançar”, afirmou a dirigente. Ela comentou o quanto a violência degrada o dia a dia da população especialmente da cidade do Rio de Janeiro. “Acontece uma chacina dessas, num dia, mas as crianças precisam continuar indo para a escola. Os serviços precisam continuar funcionando. Então, precisamos muito atuar com todas as áreas para abraçar essas realidades. Enquanto gestora da UERJ, daremos todo apoio necessário”.
A vice-presidenta da Fiocruz, a pesquisadora Marly Marques da Cruz, falou sobre os reflexos e repercussões que a violência gera no fazer acadêmico de muitas das instituições científicas da cidade, dentre elas, a própria Fiocruz. A Fundação fica às margens da Avenida Brasil, entre a Maré e Manguinhos. “Participamos desde o princípio da rede não só porque acreditamos nela, mas porque vivemos dia a dia essa necessidade de fortalecer políticas que combatam a violência”, justificou. “Hoje, a principal causa de atendimento no nosso Serviço de Saúde do Trabalhador é por transtornos relacionados à violência”, revelou a gestora. “Nós temos unidades no campus Manguinhos que são blindadas, mas não vale de muito. Temos um sistema diário que as pessoas precisam consultar antes de sair de casa, porque tem níveis diferentes de atenção. Então, nos vemos reféns de uma situação que só se agrava”.
Para a dirigente, a única maneira de tentar mudar o curso da política de segurança pública do Rio de Janeiro é, mesmo, a atuação em rede. “Digo isto porque individualmente nós já tentamos, em contato com várias instâncias. Isto não foi suficiente para que a violência naquele território reduzisse”, atestou. “Também temos valorizado internamente a atuação nos territórios e junto aos movimentos sociais porque eles têm muito a contribuir e são diretamente interessados porque vivem essa realidade. Há várias interrupções dos serviços de saúde e das escolas nos territórios (conflagrados)”, disse.
Também participaram do evento: Márcio Portes (diretor do CBPF), a pró-reitora de pós-graduação da UFF, professora Mônica Savedra; a vice-reitora da PUC-Rio, professora Jackeline Farbiarz; a professora Débora Foguel, em nome da SBPC e da ABC; e a professora Tatiana Roque, então secretária municipal de Ciência e Tecnologia. A íntegra dos debates está no canal da TV AdUFRJ, no Youtube.