Accessibility Tools
Estudantes sem bolsa, funcionários extraquadros dos hospitais sem salários e terceirizados sem pagamento. Licitações paradas, redução da frota de transporte interno na Cidade Universitária e limitação do funcionamento dos bandejões. Os mais novos cortes do governo Bolsonaro lançaram a UFRJ em um princípio de colapso administrativo, a pouco menos de um mês do fim do ano. Mas, com todas as dificuldades, a maior federal do país promete resistir.
E vai resistir unida. Professores, estudantes, técnicos e trabalhadores terceirizados deram uma amostra desta unidade na quarta-feira (7), em uma plenária realizada no IFCS. No tradicional ponto de encontro da comunidade da UFRJ para as manifestações que agitam o centro do Rio, todos compartilharam a indignação com o governo e a vontade de lutar por dias melhores. “A universidade pública foi escolhida o inimigo número um do governo Bolsonaro com toda a razão. Todo governo com tendências fascistas teme o livre pensar. Ostentamos esta escolha como uma medalha que muito nos honra. Vamos à luta para reverter esses cortes. E extrema direita nunca mais”, afirmou o presidente da AdUFRJ, professor João Torres.
A crise não atingiu apenas a UFRJ. O conjunto das federais perdeu R$ 431,8 milhões. Em todo o país, houve protestos contra os cortes. “A máquina pública precisa continuar girando, e as universidades precisam manter seus compromissos. Estamos na esperança e no diálogo para que esta situação seja revertida, por sua imensa gravidade, o mais breve possível”, ressaltou o presidente da Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes), professor Ricardo Marcelo Fonseca, em vídeo divulgado esta semana pela entidade.
Os cortes também repercutiram no Congresso Nacional, que recebeu uma audiência pública para discutir o tema. “Os bolsistas não recebem uma bolsa apenas para custear seus próprios estudos, mas, muitas vezes, para sustentar suas famílias”, observou a professora Mayra Goulart, vice-presidente da AdUFRJ e coordenadora do Observatório do Conhecimento.
A pressão nacional começou a surtir efeito nesta quinta-feira (8). No dia do fechamento desta edição, o governo anunciou a liberação de R$ 160 milhões para o pagamento de bolsas Capes, nos próximos dias.
Também foi confirmada a liberação de recursos do Plano Nacional de Assistência Estudantil. Na UFRJ, são necessários R$ 3,3 milhões para cobrir os gastos de novembro. As bolsas estarão nas contas dos estudantes beneficiados amanhã, dia 9.
ESFORÇO
Internamente, a UFRJ faz todos os esforços administrativos para completar o período letivo. O pró-reitor de Finanças, professor Eduardo Raupp, destacou a gravidade da situação para uma plenária de decanos e diretores de unidades, na terça-feira (6). A reunião foi convocada de forma extraordinária. “Durante estes quatro anos, nós tivemos momentos de contingenciamento e isso limitava o que a gente poderia gastar. Agora é diferente”, afirmou.
No último dia útil de cada mês, o governo faz o levantamento de tudo que está “liquidado”. “Na nossa linguagem técnica, é aquilo que já está atestado como serviço realizado. E, no primeiro dia útil do mês seguinte, o governo libera o financeiro. Agora, além do problema orçamentário, tivemos a inédita interrupção do repasse financeiro”, informou o dirigente.
O Ministério da Economia bloqueou R$ 15,1 milhões e, além disso, jogou no colo da instituição uma conta de R$ 19,2 milhões — agora minimizada pelo pagamento dos auxílios estudantis. Entre outras despesas, o “calote” governamental atingiu bolsas (R$ 4,8 milhões) e o salário de extraquadros (R$ 2,2 milhões), profissionais que complementam a mão de obra das unidades de saúde da UFRJ.
PREOCUPAÇÃO. Contrato do bandejão da universidade está em situação crítica. Reitoria tenta manter funcionamento até o recesso A administração central não pode ajudar nem mesmo em uma situação emergencial como a enchente que atingiu o Centro Multidisciplinar de Macaé, na semana passada. “Estamos de mãos amarradas”, afirmou Raupp.
Pela legislação federal, mesmo sem receber por até três meses, as empresas devem honrar os compromissos com os órgãos públicos. O problema é que muitas delas podem não ter a saúde financeira para suportar os atrasos.
A preocupação imediata é com a firma de alimentação, com um contrato que não segue a mesma regra: “Diferentemente dos contratos de cessão de mão de obra, este é de fornecimento. Teremos esta semana ainda para chegar a um termo que nos garanta alimentação normal até o dia 20 de dezembro”, informou o pró-reitor de Governança, André Esteves. Uma possibilidade em estudo é o fechamento dos restaurantes satélites. As refeições ficariam concentradas no bandejão central.
A pró-reitoria faz, ainda, o mapeamento dos serviços de limpeza e vigilância. Algumas firmas já sinalizaram que podem continuar com os serviços.
O transporte interno está garantido até o fim do ano, mas será reduzido também. Para compensar, a UFRJ vai colocar três ônibus e três vans da frota própria nos horários de almoço e jantar. “Vamos continuar também com os intercampi. Macaé não sofre nada, porque é um contrato novo. Caxias funciona normalmente até o fim do mês”, afirmou o prefeito universitário, Marcos Maldonado.
SOLIDARIEDADE
Os decanos e diretores demonstraram solidariedade com a reitoria. “Há 47 anos nesta universidade, nunca presenciei o que estamos vivendo hoje”, disse o decano do Centro de Ciências da Saúde, professor Luiz Eurico Nasciutti. “Neste momento, é fundamental que a gente possa organizar uma atividade nas ruas com todas as instituições de ensino e pesquisa no Rio. Para que nossa sociedade ter a clareza do que está acontecendo hoje com o ensino público e gratuito deste país. Temos que nos unir”.
Decana do Centro de Ciências Matemáticas e da Natureza, a professora Cássia Turci avaliou como um “retrocesso” muito grande a possibilidade de voltar ao ensino remoto. “Isso não é solução. Temos muitos estudantes trabalhando em pesquisa e extensão que são presenciais”. Mas também ponderou as dificuldades de manter as atividades nos campi, se a crise se agravar. “Se a gente ficar um dia sem limpeza vira o caos”.
Reitor em exercício, o professor Carlos Frederico Leão Rocha expressou a importância de conclusão do ano letivo. “O semestre tem que acabar. Nós já temos 75% das atividades acadêmicas de graduação de todos os cursos. Falta pouco”, disse. “Mas também há uma grande heterogeneidade entre as unidades. Então não há uma solução única. Vamos estabelecer regras gerais, que serão delineadas amanhã no CEG (leia sobre o colegiado na página 6)”, acrescentou. “A conclusão deste semestre é algo que devemos não ao governo, mas aos nossos alunos e nossos docentes”, disse.
GRADUAÇÃO
Suspensas bolsas:
- Monitoria (1.362)
- Iniciação Artística e Cultural (208)
- Programa de Atividades Extracurriculares de Apoio aos LIG’S - Paelig (148)
- Monitoria de Apoio Pedagógico (100)
- Promisaes - Projeto Milton Santos de Acesso ao Ensino Superior (29)
- Bolsa de Apoio à Gestão do PIBID (1)
- Bolsa PROART I (92)
- PBSIGA I (5)
- PBSIGA II (4)
- PBSIGA III (3)
- PIBIC (819)
- PIBITI (69)
PÓS-GRADUAÇÃO
Empenhos do Proap não estão sendo pagos.
Bolsistas sem pagamento:
- Iniciação Científica - 744
- Mestrado - 616
- Doutorado - 852
- Programa Nacional de Pós-Doutorado (PNPD) Capes - 115
Cota Proex:
Mestrado = 929
Doutorado = 1.279
Bolsas CNPq foram pagas.
No dia do fechamento desta edição, MEC disse que pagaria as bolsas Capes.
EXTENSÃO
- A UFRJ tem atualmente 1.615 ações de extensão ativas, das quais 443 foram diretamente impactadas.
- 808 bolsistas de extensão não receberam as bolsas do mês de novembro, que seriam pagas em 1º de dezembro.
- O montante de bolsas de extensão em atraso soma R$ 338,4 mil.
TRANSPORTE INTERNO
Serviço será mantido, com redução de frota. Prefeitura vai utilizar ônibus e vans da frota da universidade para minimizar prejuízos em alguns horários de maior movimento no campus da Cidade Universitária.
RIO + SEGURO FUNDÃO
Programa de apoio à segurança do campus da Cidade Universitária está mantido, sem alterações, até o fim do ano.
ALIMENTAÇÃO
UFRJ já deve R$ 2 milhões à empresa, que está “estrangulada”. Reitoria tenta negociar funcionamento do bandejão até o dia 20 de dezembro. Há possibilidade de fechamento dos restaurantes satélites.
EXTRAQUADROS
Aproximadamente 900 profissionais de saúde não receberam. Folha é de R$ 2,2 milhões/mês.
RESIDENTES
DOS HOSPITAIS
Estão sem pagamento 483 bolsistas da residência médica e 198 bolsistas da residência multiprofissional.
ASSISTÊNCIA
ESTUDANTIL
Após pressão da comunidade acadêmica, benefícios voltarão a ser pagos. Reitoria afirma que os recursos estarão nas contas dos alunos nesta sexta (9).
Felipe Cohen/Divulgação Museu NacionalMais de cem itens foram selados na primeira cápsula do tempo do Museu Nacional, no último dia 25. Cartas de autoridades, jornais, documentos, vídeos, pequenos pedaços do Paço de São Cristóvão, desenhos de alunos de escolas públicas e até mesmo um kit covid, entre outros objetos e lembranças, serão desenterrados apenas em 2072. “Nos últimos meses, reunimos uma série de peças e materiais de interesse social, cultural e científico que vão gerar muita curiosidade daqui a 50 anos”, disse Alexander Kellner, diretor da unidade.
DivulgaçãoA imagem ao lado impressiona. O pórtico azul-marinho é a entrada da Cidade Universitária do Centro Multidisciplinar de Macaé, onde a água atingiu mais de um metro de altura na quarta-feira, dia 30 de novembro. Choveu, na cidade, 50% a mais do que o esperado para todo o mês. O rio Macaé transbordou e alagou a cidade. A comunidade acadêmica que estava no local no momento das chuvas precisou ser retirada com o auxílio de barcos. Ninguém se feriu.
O Nupem, outro instituto da UFRJ em Macaé, não teve prejuízos, mas um de seus acessos também ficou comprometido com o transbordamento de um córrego. Devido às enchentes, o abastecimento de água potável na região foi interrompido.
Por conta da dificuldade de locomoção e das várias regiões da cidade atingidas pela cheia, o decano do Centro Multidisciplinar, professor Irnak Marcelo Barbosa, suspendeu as atividades acadêmicas até o dia 3 de dezembro.
A prefeitura do município também decretou a suspensão das atividades nas escolas da região. A Rodovia Amaral Peixoto, principal via de acesso à cidade, ainda tem trechos interditados.
Foi publicado no Diário Oficial da União do dia 23 o aviso de abertura da licitação para as obras do novo espaço de cultura da Praia Vermelha. A empresa vencedora deverá, entre outras obrigações, realizar os estudos de impacto e o projeto executivo para a casa de espetáculos e seus anexos, além da construção de bandejão e prédio acadêmico, previstos no projeto da reitoria. De acordo com o aviso divulgado, os documentos “relativos à licitação deverão ser entregues em sessão pública”, no dia 19 de dezembro. A abertura dos envelopes ocorre dois dias depois, também em sessão pública.
O edital do projeto prevê a concessão da área por 30 anos com possibilidade de prorrogação deste prazo limitada a, no máximo, cinco anos. A empresa que vencer a licitação deverá realizar investimentos obrigatórios de pelo menos, R$ 181,4 milhões. Ainda segundo o documento, extinta a concessão, todos os bens retomam à posse da UFRJ.
A principal mudança entre o projeto apresentado pela reitoria em agosto e o edital publicado está no tempo de construção das contrapartidas da UFRJ. Antes, a previsão era de apenas um ano depois que a casa de shows estivesse em operação e gerando lucros. Agora, deve ocorrer em paralelo à obra do espaço multiuso. “Fizemos essa mudança após escutar a comunidade acadêmica”, destaca o vice-reitor, professor Carlos Frederico Leão Rocha. Segundo o dirigente, a expectativa é que o vencedor seja conhecido ainda este ano.
Foto: Júlia FernandesJúlia Fernandes“Antes de se internacionalizar, é preciso que o ensino superior se nacionalize”. O professor Naomar Almeida, do Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP, defendeu a ideia em conferência realizada no Fórum de Ciência e Cultura, no dia 29. “É um desafio, porque, além de resgatar vínculos e laços com a sociedade real do Brasil, ela ainda precisa se reconstruir para conseguir sobreviver”. Uma clara referência ao projeto destruidor do governo Bolsonaro.
No debate do Fórum, a proposta era pensar um projeto progressista para a educação em contraponto ao que ocorreu nos últimos quatro anos. E, neste aspecto, o docente da USP não aliviou em relação ao papel das universidades. Para Naomar, as instituições devem ser mais ágeis no diálogo com a população. “A universidade precisa se movimentar, se abrir”, afirma. Naomar cobra propostas que superem os muros das instituições. “Erradicar o analfabetismo com os recursos que temos deveria ser o projeto de extensão número um de todas as universidades”, diz.
A necessidade de as instituições superiores de educação se movimentarem também foi enfatizada por Maria Fernanda Elbert, professora de Matemática da UFRJ. Mas não só para fora. Para atacar altas taxas de evasão, a docente defende que a universidade precisa entender melhor seu próprio aluno, que deve se sentir acolhido e integrado. “O quanto esse estudante se sente confortável no espaço estudantil está diretamente ligado ao tempo de permanência dele na universidade”, diz Maria Fernanda, titular da Cátedra Universidade do Futuro do Colégio Brasileiro de Altos Estudos (CBAE).
Mas nada disso, claro, pode acontecer sem o professor. Que precisa ser valorizado, segundo Carmen Teresa Gabriel, coordenadora do comitê permanente do Complexo de Professores da UFRJ. “É preciso reconhecer o protagonismo do professor neste processo. Principalmente o de educação básica. Ele tem voz, mas precisa ter mais força”, diz.
Em paralelo, é necessário integrar todas as esferas de ensino. “É nas incompletudes entre escola e ensino superior que vamos conseguir resolver os problemas, e não na articulação deles enquanto agentes separados”, conta Teresa, que é titular da Cátedra de Formação de Professores, do CBAE.
ESPERANÇA
Hoje, ao menos, a universidade experimenta mais diversidade, e enriquece o ensino, a pesquisa e a extensão com essa mudança de perfil do alunado. Só que é preciso avançar. “Temos uma universidade mais diversa se comparar com o passado, mas ainda não está bom. O Brasil é um dos países mais desiguais do mundo”, afirma a reitora da UFRJ, Denise Pires de Carvalho, que coordenou a mesa.
De olho no próximo governo, a reitora aguarda mudanças que podem aperfeiçoar o sistema de educação. Denise enfatiza a urgência de recomposição do orçamento. As verbas da UFRJ correspondem à metade do que já foram em 2015. “E nós temos 30 mil alunos a mais do que há sete anos”, conta.
Outra proposta é acabar com a lista tríplice para reitor das universidades. “É ruim a interferência direta do governo nas instituições de Estado. As universidades não são ideológicas e, sim, espaços da pluralidade de ideias e da diversidade de pensamentos”, afirma.