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O professor do IFCS André Botelho foi eleito para a presidência da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (Anpocs) com um enorme desafio: enfrentar um projeto de governo que asfixia a pesquisa, sobretudo nas áreas de Ciências Humanas, alvo preferido dos ataques do bolsonarismo. Sociólogo com especialização em pensamento social brasileiro, André conversou com o Jornal da AdUFRJ sobre as tarefas das Ciências Sociais no Brasil de hoje, e traçou um retrato do conservadorismo autoritário instalado no Palácio do Planalto.


O bolsonarismo tem paralelo com alguma tendência conservadora na história brasileira?
O bolsonarismo não surgiu do nada. Há processos sociais em curso, que foram intensificados sobretudo nos últimos governos do PT, que interferiram muito diretamente em uma dinâmica tradicional da sociedade brasileira, aumentando a mobilidade social. O Estado que desenvolve uma política de cotas reconhece uma situação de injustiça histórica contra um grupo. Esse tipo de reconhecimento, que é fundamental, vai gerar também reação. A classe média passou a ter que competir com grupos e indivíduos que estavam chegando de baixo a postos que antes eram quase que exclusivos dela.
As pessoas se manifestavam nos últimos anos com faixas como “Quero meu Brasil de volta”. De que Brasil você está falando? De uma sociedade hierárquica, em que o conflito tinha pouca visibilidade? É difícil dizer que o bolsonarismo seja algo que não tenha lastro na sociedade. Percebemos que a democracia na sociedade brasileira não é um valor universal, não é um ponto pacífico.

E no que o bolsonarismo se destaca no pensamento conservador do Brasil?
Há uma diferença que precisamos estabelecer entre conservadorismo e autoritarismo. O conservador vê no passado uma espécie de chave para o futuro da sociedade. Ele quer conservar determinadas estruturas do passado, pois entende que essas estruturas são as melhores, ou garantem a ordem social. Já o autoritário não está satisfeito com a situação da sociedade, mas o modo como ele quer operar a mudança parte de cima para baixo. Muitas vezes ele quer fazer as mudanças para evitar a democracia.
Isso foi muito forte na tradição intelectual brasileira. O que me parece acontecer, no que chamamos de bolsonarismo, é uma composição dessas e outras linhagens. Não dá para esquecer dessa espécie de casamento entre autoritarismo do Estado, conservadorismo de algumas estruturas sociais, como a defesa de uma família tradicional como elemento de coesão da sociedade, mas também o componente neoliberal, que joga sobre o indivíduo a responsabilidade total sobre a sua situação.
Percebemos que determinadas posições do que é e do que deve ser o Brasil não se realizam no vazio. Elas retomam, muitas vezes, posições que já estavam em curso na sociedade. No caso do bolsonarismo não é diferente, embora a nossa tendência seja a de acentuar o seu caráter inovador.

Então o bolsonarismo é uma composição de estruturas que já existiam?
Exato. E isso é muito importante de ser compreendido porque um dos elementos mais difíceis no enfrentamento político é a sensação de que você não entende o seu adversário político, e você diz que ele é inédito. Todos somos inéditos, de certa forma, mas nenhum de nós se constrói em um vazio de relações sociais. Há uma coisa que liga o presente ao passado que é exatamente o processo social.
E não temos explorado, de fato, essa dimensão tão claramente na comunicação científica com a sociedade. Muitas vezes reforçamos essa ideia de que tudo que acontece no presente é presente, mas o presente está cheio de passado.

Tivemos eleições domingo, e o primeiro retrato do resultado é o aumento no número de eleitos representantes de minorias, como indígenas, negros e LGBTQI. O movimento dessas minorias é parte desse processo social ao qual você se refere?
Acho que sim, identifico dessa forma. As estratégias dos movimentos sociais terão que ser outras. E a democracia é importante porque ela permite que esses movimentos da sociedade sejam ouvidos, tenham reconhecimento nas estruturas de poder.
Então você consegue promover políticas de igualdade racial ou de gênero, por exemplo. Claro que faz toda a diferença você ter um estado democrático ou um estado autocrático, que é o que parece ser o que estamos vivendo. Mas isso não significa que os movimentos vão desaparecer. Nesse sentido, há indícios que apontam para a continuidade de determinados avanços, do ponto de vista social, envolvendo a representatividade de negros, mulheres, LGBTI.

A área de Ciências Sociais é vítima de primeira hora do bolsonarismo. Qual é o papel da Anpocs nesse cenário?
Precisamos lidar com uma situação de retraimento de financiamento da pós-graduação e da pesquisa, e também com esses ataques. O que pretendemos fazer é um trabalho de fortalecimento do próprio associativismo que reúne os programas de pós-graduação da Anpocs.
A primeira tarefa é mobilizar os associados, criar uma agenda mais participativa, e fortalecer nossas ações. Uma segunda frente importante é tentar desenvolver uma comunicação mais exitosa com a sociedade civil. Como uma associação acadêmica, muitas vezes nós incorremos na tendência de falar para nós mesmos. Essas duas frentes vão nos ajudar a ter condições de enfrentar mais diretamente as políticas restritivas que vêm sendo implementadas em nível federal.

E como enfrentar o discurso anticiência do governo?
Pretendemos promover um diálogo mais consistente das Ciências Sociais com outras ciências. Porque esse insulamento não favorece uma ação coletiva.
Nossa agenda propositiva tem que ser voltada mais para aquilo que é comum a outras áreas, do que sobre aquilo que nos diferencia. Parte da estratégia deles é jogar uns contra os outros. Então precisamos buscar uma resposta que passe pelo fortalecimento da cooperação. Não apenas do diálogo, mas da cooperação com outras áreas.

WhatsApp Image 2020 11 20 at 23.12.38

WhatsApp Image 2020 11 20 at 23.03.04O Período Letivo Excepcional acabou no dia 16 só para as aulas. Na prática, professores ainda correm contra o tempo para corrigir provas, lançar notas e organizar o próximo semestre letivo, que já começa em 30 de novembro. Mesmo exaustos, os docentes também também avaliaram a inédita experiência do ensino remoto para o Jornal da AdUFRJ, na segunda matéria da série sobre o PLE.
“A impressão é de um trabalho sem fim”, disse a professora Marta Castilho, do Instituto de Economia, que corrigia provas, um dia após o fim do PLE. “Saio deste semestre cansada, mas feliz. Os alunos, desde o início, ficaram muito contentes em voltar às aulas”. A docente, porém, se ressentiu de mais infraestrutura para o ensino remoto. “Por exemplo, de melhores programas, mais orientação. Mas o saldo foi positivo”.
Marta entende que a experiência do PLE preparou alunos e colegas para o que ainda está por vir. E serviu para dar uma “chacoalhada” na forma de lecionar. “Vamos levar algumas inovações quando voltarmos ao presencial. Isso pode nos ajudar a incluir outras ferramentas e formas de organizar os cursos”, afirmou.
O Instituto de Psicologia adotou a estratégia de direcionar o PLE para os concluintes — quem estivesse com até 32 créditos para acabar o curso — e semiconcluintes (até 48 créditos). Entre os 1.011 alunos da unidade, 290 se inscreveram no período. Diretora de graduação do instituto, a professora Ana Cunha explica que a decisão tomou como base a resolução do CEG que dava prioridade no PLE ao grupo de potenciais formandos. Mas isso não quis dizer que houve poucas aulas. “Todas as disciplinas foram oferecidas. Muitas vezes, o aluno que está se formando precisa de disciplina do primeiro período, do segundo período”, disse. “E houve uma adesão maciça dos professores, que foram muito colaborativos”. O balanço da iniciativa ainda está em andamento.
O instituto também criou um grupo de trabalho para pensar estratégias pedagógicas para o ensino remoto, que começou a se reunir em julho. De olho no próximo período, o GT já prepara um documento com recomendações aos professores. Mas Ana não esconde sua preocupação com 2020.1. “Grande parte dos alunos entrará agora de forma remota. Se já tivemos problemas de acesso no PLE, com um grupo menor, imagina agora. A política de benefícios da UFRJ não conseguiu dar conta de todos os alunos”, disse.

ECO: DISCIPLINAS
COMPLEMENTARES
A Escola de Comunicação enfatizou, no PLE, a oferta de disciplinas complementares. E vai inverter a tática nos períodos regulares de 2020.1 e 2020.2, com ênfase nas obrigatórias. “As complementares são muito atrativas. Raríssimas turmas tiveram vagas ociosas”, disse o diretor de graduação da ECO, professor Sandro Tôrres. E 95% do corpo docente aderiu às aulas remotas.
“No meu balanço, foi excelente a ideia do PLE. Houve problemas de calendário, mas serviu de balão de ensaio para alunos e professores”, afirmou. Entre os docentes, vários devem manter as práticas descobertas no ensino remoto, quando for possível a volta ao ensino presencial. Entre os alunos, o aprendizado é quanto à dosagem do tempo: os que se matricularam em muitas disciplinas, sentiram a carga pesada demais e fizeram trancamentos. “Quem pegou oito disciplinas, no 2020.1 vai pegar quatro ou cinco.”
O curtíssimo período entre o PLE e 2020.1 recebeu duras críticas do dirigente da ECO. “Esse calendário, para a área administrativa, é péssimo. Quinze dias é muito pouco para colocar o curso na rua”, afirmou. Sandro apontou outra incoerência da legislação aprovada na UFRJ: o prazo final de inscrições nas disciplinas do próximo semestre coincide com o último dia que o professor tem para lançar as notas do PLE: 27 de novembro. “E a nota é decisiva para o aluno definir o horário dele. Isso foi muito mal planejado”, criticou.
A unidade, que realizou uma pesquisa junto aos alunos antes do PLE, pretende fazer mais uma, agora de avaliação do período. “Como estamos sobrecarregados, provavelmente deve ser feita depois que 2020.1 começar”, concluiu.

EDUCAÇÃO E LETRAS:
AVALIAÇÃO RIGOROSA
Já na Faculdade de Educação, a tarefa do momento é levantar os números e recolher relatos de docentes e alunos para fazer uma avaliação rigorosa do PLE. “Temos de fazer a apreciação com base em dados. Faz parte da prudência. Somos os cientistas da Educação”, afirmou a coordenadora de graduação da Pedagogia, professora Silvina Fernández.
A unidade, desde o início da pandemia, formou um grupo de trabalho de planejamento e organização das ações. “No GT, organizamos formulários com várias questões, um para discentes, um para docentes”. O objetivo é saber como cada segmento atravessou o semestre letivo. “Não é definitivo, mas pode dar pistas do que deu mais certo, do que deu menos certo, do que seria necessário reforçar”.
A Faculdade de Letras saiu na frente: os docentes divulgaram uma carta de avaliação com várias críticas ao período excepcional, no dia 10. A professora Luciana Salles, que integra o Conselho de Representantes da AdUFRJ, informa que um dos pontos mais urgentes da carta são as férias “que nos foram ‘roubadas’”. “Não só pela questão do descanso (e estamos todos exaustos), mas também pela questão de preparação dos cursos”, argumentou. “É humanamente impossível preparar um novo período em duas semanas, sobretudo numa faculdade que atende mais de quatro mil alunos de graduação”, completou.
Outra demanda urgente tem relação com os professores substitutos que, segundo a carta, além dos gastos altos, salários defasados e carga horária elevada, vivem sob a ameaça de cancelamento dos contratos.

AdUFRJ, DCE e Sintufrj analisam semestre remoto

Necessário, mas com muitos problemas. As entidades representativas de professores, estudantes e técnicos-administrativos são unânimes na caracterização do Período Letivo Excepcional.
“Com todas as dificuldades, foi melhor fazer do que não fazer”, afirma a presidente da AdUFRJ, professora Eleonora Ziller. “É sempre bom lembrar que a universidade não parou, mas a graduação é o nosso vínculo primeiro com a população. Foi melhor ter vivido a experiência e de alguma forma retomar o contato com os alunos”.
A AdUFRJ procurou ampliar um dos recessos do calendário remoto para minimizar o desgaste da comunidade acadêmica, mas o Consuni rejeitou a solicitação. “Temos absoluta convicção de que os professores precisariam de pelo menos mais uma semana. Apesar de ser um tempo pequeno e insuficiente, já seria um período mínimo para os procedimentos administrativos e para os docentes respirarem um pouco”, completou Eleonora.
Antônia Velloso, do DCE, também considera que o PLE deveria ser realizado, mas poderia ser conduzido de outra forma. “Eu acho que foi uma medida necessária. Não existe oficialmente uma previsão para a gente voltar (ao ensino presencial). Mas, na nossa opinião, foi pouco dialogada e poderia ser melhor aplicada”, disse.
Como exemplo, a representante estudantil critica a conturbada oferta de vagas no início do PLE. Aluna do sexto período da História, Antônia perdeu as duas primeiras semanas de aula até conseguir a inscrição em algumas disciplinas. Ela também criticou o fato de os alunos precisarem se deslocar até a universidade para receber os chips de auxílio ao ensino remoto. E que alguns enviados pelos Correios até hoje não chegaram ao destino.
Antônia já recebeu relatos de estudantes reclamando de muitas avaliações realizadas no curto Período Letivo Excepcional, além de professores que não gravam as aulas. “Das minhas quatro disciplinas, só um dos professores gravava”, observou. Para o próximo período, a preocupação dos estudantes é que nem todas as disciplinas sejam ofertadas. “O PLE, de uma hora para outra, foi aprovado como parte integrante de 2020.1”, observou.
Damires França, coordenadora de Educação do Sintufrj, tratou dos impactos do período remoto no cotidiano dos servidores. Deslocados para casa pelas regras do isolamento social, os funcionários das secretarias acadêmicas sofrem para dar conta das demandas administrativas sem a devida infraestrutura. “Creio que a maioria dos trabalhadores não tem os equipamentos e internet boa. Eu mesma tive que pegar um laptop emprestado”, disse.
Também representante suplente dos técnicos-administrativos no Conselho de Ensino de Graduação (CEG), Damires acompanhou de perto a discussão do calendário acadêmico remoto. A coordenadora do Sintufrj lamentou os curtos recessos entre os períodos. “Vamos ter que trabalhar nos fins de semana. Calendário apertado sobrecarrega as secretarias acadêmicas”, disse.

O recente pedido para que a reitoria retome as discussões sobre uma possível adesão à Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh), feito pelos gestores dos hospitais universitários da UFRJ, acendeu a polêmica na comunidade acadêmica. Favoráveis e contrários à medida já iniciaram uma série de debates e conversas para defender seus pontos de vista. O Formas – fórum constituído pelas entidades representativas da universidade, dentre elas a AdUFRJ – apontou a necessidade de discutir a realidade concreta do Complexo Hospitalar e pensar em soluções na universidade antes de avaliar a adesão à Ebserh.
A edição passada do Jornal da AdUFRJ abriu espaço para a polêmica e relembrou todo o processo de discussão que agitou a universidade entre os anos de 2012 e 2013. O imbróglio foi tamanho que houve briga física numa das sessões do Conselho Universitário. Pressionado, o então reitor, professor Carlos Levi, retirou o tema da pauta no dia 26 de setembro de 2013 e não tocou mais no assunto até o final de seu mandato.
Para dar seguimento ao tema e estimular o debate saudável de ideias, trazemos nesta edição duas entrevistas com visões diferenciadas sobre o Complexo Hospitalar, sobre a Ebserh e sobre possíveis caminhos para solucionar os problemas enfrentados pela área assistencial da universidade. O professor emérito Nelson Souza e Silva, ex-diretor do Instituto do Coração Edson Saad, é um conhecido crítico à adesão da UFRJ à empresa. Ele explica as razões de não concordar com a contratualização e aponta quais devem ser as prioridades para a melhoria da gestão dos hospitais. Favorável à reabertura do debate, mas não necessariamente à Ebserh, está o coordenador do Complexo Hospitalar, o médico Leôncio Feitosa. Seu desejo é que a universidade busque conjuntamente soluções para os problemas enfrentados pela rede de hospitais.

ENTREVISTA I LEÔNCIO FEITOSA Coordenador do Complexo Hospitalar da UFRJ

WhatsApp Image 2020 11 20 at 23.14.19Jornal da AdUFRJ – Qual a função do Complexo Hospitalar?
Leôncio Feitosa – O Complexo Hospitalar e da Saúde é um órgão da estrutura média que equivale hierarquicamente às decanias. Foi criado para coordenar seus componentes da área de atenção à saúde, unindo asssistência, pesquisa e ensino. Atuamos na gestão direta, como, por exemplo, compartilhamento de compras, serviços de limpeza e alimentação. Isso melhora o padrão da qualidade de serviço e também reduz custos. Estamos implantando, em convênio com a Universidade Federal do Rio Grande do Sul, um sistema de gestão de informática chamado AGHUSE. Já implantamos o módulo de ambulatório do Instituto Deolindo Couto e no Instituto de Psiquiatria. Quando estiver completo, o sistema permitirá, por exemplo, que nossos pacientes tenham prontuário único digital, que possibilita agilizar o atendimento em qualquer unidade de saúde. Outra linha de atuação é montar um sistema de avaliação das novas tecnologias em insumos de saúde, que avalie também a qualidade geral nos hospitais. As iniciativas contam com apoio integral da reitoria e de todos os órgãos. Fazemos um trabalho muito próximo do Centro de Ciências da Saúde, porque o CCS tem o olhar da área acadêmica. São perto de 400 pesquisas em andamento nos hospitais. O que nos diferencia dos hospitais comuns é o nosso objetivo, que é o ensino de graduação e de pós-graduação. Nós existimos na universidade para ensinar.

Quais são os principais problemas enfrentados pelos hospitais?
Temos uma crise de financiamento, que se agudiza a partir do ano que vem com o corte de 16% no orçamento do MEC. E uma crise de pessoal. O HU, que é nosso maior hospital, já teve 500 leitos abertos. Na pandemia, o diretor Marcos Freire chegou a 320 leitos, por meio de contratos temporários. Mas com essas contratações acabando em dezembro, o hospital cai para 200 leitos. A redução no orçamento nos faz pensar em provavelmente reduzir mais leitos, porque vai faltar dinheiro. Ainda há a questão de alimentação, de limpeza, de segurança. Há um déficit em torno de 1.200 profissionais em toda a área de saúde e estão proibidos concursos. Quando se reduz leito, se reduz a qualidade do ensino, o número de cirurgias, o que reduz também o número de residentes.

Se nada for feito para melhorar o quadro, o que pode acontecer?
Alguns programas de residência correm o risco de fechar a médio prazo. O Programa de Residência Médica da UFRJ sempre foi um evento nacional, com gente participando do Brasil inteiro. Com a situação assistencial ruim, também cai o número e a qualidade daqueles que nos procuram. Isso tudo reduz a qualidade de ensino, de pesquisa e de extensão. Quando olhamos para 2021 e 2022, bate uma tristeza. Nossas unidades de saúde vão definhar. A ideia parece ser a de estrangular as universidades públicas federais, daí elas passam a não valer nada e o setor privado nos invade. Um trabalho hercúleo construído ao longo de décadas que em poucos meses pode ser completamente destruído.

O senhor considera a Ebserh uma solução para a universidade?
O cálculo que fizemos é que a UFRJ vai deixar de gastar mais de R$ 80 milhões com os hospitais, o que faz com que a universidade consiga reduzir seu déficit orçamentário. Aderir à Ebserh é uma forma de resistir. Funciona como um golpe de judô: utilizamos um pouco a força deles e mantemos a nossa estrutura funcionando, até que tenhamos uma situação mais favorável. Não é o ideal. Mas é a única solução possível nesse cenário atual político. Mas queremos, enquanto Complexo Hospitalar, abrir a discussão.

O senhor, então, é a favor do debate.
Que não pode ser muito longo. Todo dia que a gente acorda está um pouco pior. Só no mês de outubro foram cerca de 70 aposentadorias. Precisamos de uma definição porque o quadro é dramático. Queremos que pessoas ou grupos apresentem projetos concretos para retomarmos contratação de pessoal, abrir novos leitos, que preveja recursos para aquisição de insumos e equipamentos. Mas não pode ser algo só do campo das ideias. De 2013 até hoje a área de saúde vem decaindo e a tendência é de cair mais rápido com o atual governo reduzindo recursos e proibindo concursos. Se o “paciente” for para o CTI, a recuperação fica muito mais difícil.

Os críticos enxergam risco de privatização da empresa e, por consequência, a perda da gestão dos hospitais universitários. Este é um cenário possível?
Privatização, interferência administrativa nos hospitais e que fere a autonomia universitária. Estes eram os três principais argumentos de quem era contrário à empresa em 2013. Então fomos ler o regimento da Ebserh. Vimos que, primeiro, um dos artigos diz que a Ebserh só se relaciona com hospitais universitários que atendam unicamente ao SUS. A Ebserh não pode se relacionar sequer com Santas Casas, que são filantrópicas. Então, em relação à privatização, este argumento não se sustenta. Em relação à interferência administrativa, eles foram flexibilizando e as reitorias hoje escolhem os gestores dos hospitais. Se as duas primeiras questões levantadas à época não têm validade hoje, então a empresa não fere a autonomia universitária. Na época, essa discussão tinha muita razão de existir. Hoje, passados sete anos, desconheço queixa dos gestores dos hospitais ou da Andifes em relação à Ebserh.

Em caso de contratação da empresa, haverá fragmentação ou é possível continuar existindo o Complexo Hospitalar?
Essa estrutura do Complexo Hospitalar pode ser mantida com a Ebserh, não é necessário que haja um desmembramento desses hospitais. O complexo se torna um interveniente. A relação em rede é muito vantajosa, tanto do ponto de vista financeiro, quanto de protocolos médicos, da enfermagem, de medicamentos, em relação à distribuição e controle de qualidade. Quando se trabalha em rede, a reunião de ideias sempre produz coisas melhores que a fragmentação.

O que o senhor defenderia como proposta para os hospitais da universidade?
Defendo uma proposta de um novo estudo de orçamento para as unidades de saúde, defendo a abertura de concurso para todos os níveis, para acabar com o problema dos extraquadros. Mas são propostas inviáveis neste governo. Se eu chegar em Brasília com essa proposta, serei apedrejado.

ENTREVISTA I NELSON SOUZA E SILVA Professor emérito da Faculdade de Medicina da UFRJ

WhatsApp Image 2020 11 20 at 23.14.19 2Jornal da Adufrj – Qual seu balanço sobre o Complexo Hospitalar desde que foi instituído?
Nelson Souza e Silva – A unidade orçamentária Complexo Hospitalar foi criada para gerir os recursos das unidades de saúde da UFRJ. A vantagem de sua existência é que permite reuniões regulares entre os diretores para discutir em conjunto as questões dos hospitais. O que, para mim, ainda está pendente é o seu Conselho Deliberativo, que é formado por todas as unidades acadêmicas que atuam nos hospitais e permite decisões coletivas envolvendo ensino, pesquisa, extensão e assistência.

Há vantagens financeiras, ou somente acadêmicas?
Foi feita uma planilha contendo tudo o que os hospitais universitários produziam e ofereciam para o SUS. Esses serviços levavam a pontuações específicas que indicavam qual era a complexidade de cada uma dessas unidades e o percentual do orçamento que cada uma receberia do Ministério da Saúde. Na UFRJ, os hospitais, individualmente, somavam poucos pontos. A Maternidade Escola não tem cirurgia de alta complexidade. O HU não tem maternidade. Mas quando a gente avalia o Complexo como um todo, além de atingir a pontuação máxima, a gente alcança 70% a mais de recursos. Esta é mais uma grande vantagem da estrutura.

O senhor considera que a Ebserh é uma boa saída para os hospitais universitários?
Não. No fundo, a Ebserh nem deveria existir. Uma empresa prestadora de serviços, do ponto de vista administrativo, não deveria ter sido criada. Há o SUS e toda uma rede de universidades que já fazem a administração dessas unidades de saúde. No âmbito da UFRJ, criamos o Complexo Hospitalar para nos autogerenciar.
Os diretores alegam problemas administrativos e financeiros e alguns sugerem que a empresa possa solucioná-los. Esta não é uma possibilidade?
Não vai trazer dinheiro, porque o orçamento da empresa é o mesmo do MEC e restrito pelo mesmo teto de gastos a que somos submetidos. Então, é uma ilusão achar que a Ebserh vai nos dar recursos adicionais. Os argumentos são os mesmos de sete anos atrás. Acabou se caracterizando como uma chantagem aquela história de que não teríamos orçamento. Estamos há sete anos com orçamento, com as unidades em funcionamento. Na versão anterior do contrato, os bens da UFRJ seriam alienados para a empresa. O hospital universitário, com a questão da pandemia, recebeu recursos e equipamentos como ecocardiógrafo, ressonância, renovou seus leitos de CTI. Isso veio para a UFRJ. Se fôssemos contratualizados, seria tudo patrimônio da empresa.

O que achou de a UFRJ ter tirado o tema de pauta em 2013? Foi a melhor saída?
O Conselho Universitário decidiu sobre este assunto e a decisão foi a de não continuar a discussão. A Procuradoria-Geral da República moveu uma Ação Direta de Inconstitucionalidade contra a Ebserh em 2013 que ainda não foi julgada pelo Supremo Tribunal Federal. Ela dissocia ensino, pesquisa e extensão. É apenas uma empresa de assistência hospitalar e não pode contratar professor. O hospital não é uma empresa, pertence à universidade, funciona a partir de seu tripé estruturante. Nossa lógica não é a do lucro, mas da prestação de serviços adequados.

Mas nem sempre o HU, que concentra a maior parte dos problemas, consegue oferecer serviços adequados. Há problemas históricos, como leitos insuficientes.
O fator limitante voltou a ser pessoal. Precisamos buscar o orçamento necessário e lutar pela abertura de mais vagas. A universidade tem que enfatizar seu papel constitucional.

A que o senhor atribui a retomada da discussão sobre Ebserh neste momento?
Novamente aos extraquadros, grande volume de aposentadorias com dificuldade de reposição. A juíza (Maria do Carmo Freitas Ribeiro, da 19ª Vara Federal do Rio de Janeiro) deu uma definição jurídica para resolver este problema de pessoal (em 2016). Determinou a substituição dos extraquadros por aprovados em concursos anteriores, solicitou dimensionamento de pessoal. Nós fizemos isto no Instituto do Coração e hoje não temos extraquadros. Também é possível prorrogar as contratações temporárias enquanto a pandemia continuar. A Ebserh não é solução. Ela nos divide. Deveríamos estar unidos e focados no orçamento para 2021.

Aderir à Ebserh no governo Bolsonaro pode representar um risco adicional?
Neste momento, neste governo, isto é um desastre. A política deste governo é de privatizar tudo o que é público, todas as empresas. No Ministério do Planejamento há a lista das empresas a serem privatizadas. A Ebserh consta como “passível de privatização”. Isso está efetivamente na pauta.

Na sua visão, qual a solução para a gestão de pessoal e financeira dos hospitais da UFRJ?
É preciso exigir recursos, ir a Brasília, lutar para que o orçamento dos hospitais universitários venha de três fontes: Ministério da Educação, Ministério da Saúde e Ministério de Ciência e Tecnologia, para caracterizar a indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão. É preciso lutar para quebrar o teto de gastos. Hoje, por conta da pandemia, existe clima político para que a Emenda Constitucional 95 seja derrubada. É preciso assumir esta luta política. A universidade toda precisa estar junta.

WhatsApp Image 2020 11 20 at 22.56.26Pesquisadores da UFRJ desenvolveram novos materiais nanoestruturados para tratamento de câncer. A tecnologia usa nanocubos de paládio e nanopartículas da liga paládio-óxido de cério, desenvolvidas em laboratórios da Coppe/UFRJ. Os materiais formam um pó que é diluído em substância aquosa e aplicado sobre o tumor a ser tratado. Em seguida, um laser de baixa potência incide na direção do tumor. As nanopartículas são aquecidas liberando calor e hidrogênio de forma a desestruturar as células doentes sem danos ao tecido saudável que se encontra no entorno das células comprometidas.
A pesquisa Synthesis, characterization and photothermal analysis of nanostructured hydrides of Pd and PdCeO2 (Síntese, caracterização e análise fototérmica de hidretos nanoestruturados de Pd e PdCeO2) foi publicada na Nature Scientific Reports de outubro, uma das mais respeitadas revistas científicas do mundo. “O procedimento é simples e poderia ser feito numa clínica, sem necessidade de internação. É o que esperamos”, acredita o professor Dilson dos Santos, do Laboratório de Propriedades Mecânicas da Metalurgia e coordenador do Programa de Engenharia de Nanotecnologia da Coppe. “Pode ser uma alternativa menos invasiva de liquidar um tumor no corpo humano”.
As nanopartículas foram desenvolvidas na pesquisa de doutorado da aluna Cláudia Caldas Cruz, orientanda de Dilson e do professor Hélcio Orlande, também da Coppe, coautor do trabalho. “Nós já sabíamos que o paládio é um material biocompatível, que tem uma boa capacidade de armazenamento de hidrogênio e é muito estável. Portanto, sabíamos que poderia ser utilizado no ambiente biológico”, conta a jovem cientista.
“Quando colocamos o hidrogênio e formamos o hidreto de paládio, o hidrogênio consegue proteger as células saudáveis e o laser vai realmente agir nas células tumorais. Isso é muito bom porque nos dá seletividade”, destaca Cláudia. “O grande problema dos tratamentos convencionais é que eles atingem todas as células. Usar os nanocubos de paládio com o hidrogênio nos permite o aumento de temperatura focalizada nas células tumorais”.
O tamanho dos nanocubos torna a aplicação mais funcional e ampla. “Outros pesquisadores do mundo conseguem criar nanocubos de 50, 60, 70 nanômetros. Nós conseguimos ainda menores, de 20 nanômetros, com método de síntese em uma etapa só, muito mais rápido e simples”, orgulha-se a doutoranda. “O fato de ser menor vai acarretar que tenha mais capacidade de aplicação e melhor resposta para o meio celular. É um diferencial do trabalho”.
Para se ter uma ideia, a espessura de um fio de cabelo varia de 60 a 140 microns. “O nanocubo é cerca de cinco mil vezes menor que a espessura de um fio de cabelo humano. Diluímos milhares de partículas dessas. Em laboratório usamos água destilada, mas para aplicação no corpo humano pode ser utilizado soro fisiológico ou solução medicamentosa apropriada”, destaca o professor Dilson, coordenador do trabalho.
O aquecimento dessas partículas é feito por laser. O docente explica a razão de não haver danos aos tecidos saudáveis. “Nosso corpo tem temperatura média de 360C e pode aguentar temperaturas de até 430C sem perder propriedades. Essas partículas alcançam essa temperatura, o que é suficiente para que o tumor perca propriedades e comece a morrer”.
Esse procedimento já existe nos Estados Unidos e em alguns países europeus, mas os cientistas brasileiros conseguiram resultados muito promissores. “O cério, por ter ação desoxidante, inibe também o desenvolvimento do tumor. E pode ainda ser aliado no tratamento de outras doenças, como o Mal de Parkinson e Doença de Alzheimer”, afirma o pesquisador.
O trabalho teve a cooperação do professor Claudio Lenz, especialista em laser, do Instituto de Física. Foi ele quem fez a montagem e a caracterização do laser utilizado na pesquisa. “Potência, distribuição e tamanho do feixe de luz, tudo isso é necessário saber para compreender como o calor será difundido”, explica o cientista. “É algo importante não só para alcançar os resultados desejados, como para permitir que sejam reproduzidos”.
A pesquisa, ele conta, é bastante promissora. “Quando o nanocubo é aquecido, ele libera o hidrogênio, que potencializa o calor. É uma das reações mais potentes da natureza. É como se mandássemos pequenas bombinhas para o entorno do câncer e, a partir do laser, essas “bombas” fossem ativadas para desestruturar o tumor”, compara.
O professor Dilson destaca a importante participação do professor Orlande, dos programas de Engenharia Mecânica e Engenharia da Nanotecnologia, responsável pelo Laboratório de Tecnologia de Transmissão de Calor da Coppe. Neste laboratório foram realizadas as medidas de análise fototérmica, com a colaboração de seu aluno de doutorado Nilton da Silva, do Programa de Engenharia Mecânica da Coppe e professor da Universidade Federal do Amazonas. Houve, ainda, a participação da doutoranda Amanda Castilho, do Programa de Engenharia da Nanotecnologia da Coppe e de Viviane Favre-Nicolan, doutora pelo Programa de Engenharia Metalúrgica e Materiais da Coppe.
O próximo passo da pesquisa é realizar testes in vivo, em parceria com o Centro de Ciências da Saúde. Esta fase deve ter início no próximo ano. “Vamos passar aos testes in vivo para aprimorar a técnica de uso em tecido humano”, diz o professor Dilson. “É uma pesquisa 100% brasileira, 100% UFRJ”, finaliza.

WhatsApp Image 2020 11 14 at 00.58.272MARCELO KISCHINHEVSKY Professor e coordenador do NRTVEm seu primeiro ano de funcionamento, a Rádio UFRJ foi reconhecida no I Prêmio Rubra de Rádio Universitário por sua cobertura jornalística da pandemia. O anúncio foi feito no dia 2/11, após a análise de 31 trabalhos de todo o país. O programa Especial Coronavírus, uma série de reportagens, foi vencedor na categoria Reportagem Especial e obteve o terceiro lugar na categoria Podcast. “Em cinco categorias, ganhamos dois prêmios. Estamos muito felizes pelo reconhecimento do trabalho da Rádio UFRJ no enfrentamento à desinformação sobre o coronavírus. A universidade foi protagonista no enfrentamento da pandemia, e a gente fez questão de participar desse movimento”, diz o professor e coordenador do Núcleo de Rádio e TV (NRTV) da UFRJ, Marcelo Kischinhevsky.
Em março, com a mudança de protocolos ocasionada pela chegada da pandemia no Brasil, os planos para a Rádio UFRJ tiveram que mudar. “Fizemos uma reunião da equipe de produção e decidimos que, apesar de todas as dificuldades de infraestrutura, produziríamos conteúdos sobre a pandemia durante esse período de isolamento”, lembra Kischinhevsky.  “A coisa foi se estendendo e a gente acabou produzindo um material vasto, mais de 100 reportagens sobre a pandemia desde março. Saímos de quatro usuários únicos no site para mais de 4 mil”, explica o professor. No mês passado, o podcast Informação & Conhecimento atingiu mais de 50 mil downloads. Todo o conteúdo está disponível no site e no agregador Spreaker, de onde é distribuído para diversas plataformas (Spotify, Deezer, Apple Podcasts e Google Podcasts, entre outras). Integram a equipe vencedora dois estudantes da Escola de Comunicação, bolsistas da rádio, Pedro Dobal e Eliandra Bussinger, e os colaboradores Liana Monteiro, Anelize Kosinski e Patrícia da Veiga.

TRABALHO COLABORATIVO
A Rádio UFRJ desenvolveu métodos para gravar em casa sem os equipamentos apropriados, como gravador digital, microfones e mesa de som. “Criamos uma série de protocolos via grupo de WhatsApp, de compartilhamento de material via Drive e de gravação e edição de material dentro de parâmetros iguais para todo mundo”, conta Kischinhevsky. Segundo ele, a rádio ficou mais colaborativa do que nunca devido aos imprevistos. “Foi muito desafiador fazer o trabalho, tipo gravar dentro do armário ou com o colchão na parede para não reverberar o áudio”, lembra. Outro desafio foi a busca por pautas diferenciadas. “A ideia foi de fazer essa cobertura especial sem buscar as informações que circulavam na grande imprensa, buscando pautas exclusivas, atuando como uma mídia universitária deve atuar”, explica Kischinhevsky.
Além do  podcast Informação & Conhecimento, outras 25 iniciativas foram aprovadas no edital de produção lançado este ano pelo NRTV e incluídas na programação da Rádio UFRJ. Uma delas é o programa AdUFRJ no Rádio, que estreou no dia 16 de outubro e vai ao ar todas as sextas-feiras, às 10h, com reprise às 15h, pelo site radio.ufrj.br. A atração é dividida em dois blocos. O primeiro discute as principais notícias da semana, sobretudo temas ligados à Educação, Ciência, Arte e Política. O segundo bloco é o “Café com Ciência e Arte”, um papo descontraído com um professor convidado para falar sobre a sua rotina de trabalho. Para o coordenador da Rádio UFRJ, a AdUFRJ é uma grande parceira. “É um ator muito relevante dentro da universidade e tem uma preocupação muito grande com a comunicação. Ter a AdUFRJ na grade de programação é um privilégio. A gente espera que esteja sempre nas chamadas públicas, renovando e fazendo um programa cada vez melhor”, destaca Kischinhevsky.
Sobre a chamada pública para participação na rádio, o professor acredita ser um esforço na direção da democratização da comunicação. “A rádio não pode ser feita por uma, duas, três pessoas. Tem que ser feita pelo coletivo, senão não é a Rádio da UFRJ”, afirma. As chamadas vão ser abertas anualmente, mas isso não quer dizer que quem entrou na primeira está automaticamente renovado. “As pessoas podem renovar ou não. A ideia é ter uma chamada até março para a temporada de 2021. Vamos lançar essa convocação para atores internos e externos à universidade”, explica.
Atualmente, no Brasil, existem 108 rádios universitárias mapeadas entre públicas, privadas, confessionais e comunitárias. A maioria é de universidades públicas federais e estão em FM. “Essas rádios são fundamentais para a própria democracia. É um integrante do campo público, mesmo que a universidade seja privada e que seja confessional. No caso de AM e FM, elas estão operando num espectro de radiofrequência, então têm de prestar um serviço público e ter finalidades educativas e culturais”, diz Kischinhevsky. “A mídia universitária, como um todo, tem o papel e o dever de ajudar a diversificar as fontes de informação da população”, opina. Segundo ele, em alguns lugares, a rádio universitária é a única fonte de informação. “Porque só tem mídia comercial e às vezes nem sequer produção de conteúdo local tem”, explica. No Rio de Janeiro, Kischinhevsky espera que a Rádio UFRJ desempenhe esse papel quando estiver funcionando em FM, daqui a um ano. “Principalmente porque a única rádio universitária no Rio de Janeiro registrada está sob o comando de uma igreja evangélica, foi arrendada”, justifica.
Já premiada em seu primeiro ano de vida, a Rádio UFRJ vem ampliando seus horizontes. Uma das iniciativas mais recentes é o projeto Democracia Digital, que reúne a agência de checagem Lupa, o Instituto de Tecnologia & Equidade e o Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral, com apoio do WhatsApp e dos tribunais regionais eleitorais de todo o país. “Nós e mais dez rádios universitários do Brasil estamos fazendo essa parceria para combater a desinformação nas eleições municipais”, explica Kischinhevsky. As informações checadas são distribuídas gratuitamente com apoio do Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa, o IDP. “A gente recebe o material da Lupa e faz a versão radiofônica dessas checagens, para circular e ter um alcance com outro público via áudio”, conta o professor.

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