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ERIK GIUSEPPE BARBOSA PEREIRA Professor da Escola de Educação Física e Desportos

FÁBIO VASCONCELOS SOUSA Programa de Pós-graduação em Educação Física

SANDRO HENRIQUE PINTO DA SILVA Programa de Pós-graduação em Educação Física

DIEGO RAMOS DO NASCIMENTO Grupo de Estudos em Corpo, Esporte e Sociedade da EEFD

A Copa do Mundo de Futebol costuma ser apresentada como a principal celebração das identidades nacionais no cenário esportivo internacional. Durante algumas semanas, bandeiras, hinos e símbolos nacionais ocuparam o centro das atenções, reforçando a ideia de que a competição representa um encontro entre diferentes povos. Entretanto, por trás dessa aparente exaltação das fronteiras nacionais, a Copa também revelou processos sociais que transcendem os limites dos Estados, especialmente aqueles relacionados às migrações e à globalização.

A realização da Copa do Mundo de 2026, sediada conjuntamente por Canadá, México e Estados Unidos, torna essa discussão ainda mais relevante. De um lado, as recentes políticas migratórias e restrições de entrada adotadas pelo governo estadunidense suscitaram debates sobre mobilidade internacional, desigualdades no acesso à circulação e os limites impostos à universalidade de um evento que se pretende global. De outro, a própria composição das seleções participantes evidenciou como as migrações contemporâneas transformaram as noções de pertencimento nacional. Cada vez mais, jogadores representam países distintos daqueles em que nasceram ou mantêm vínculos familiares, culturais e afetivos com múltiplos territórios, resultado de trajetórias marcadas por deslocamentos, diásporas e processos de naturalização.

Nesse sentido, a Copa constituiu um observatório privilegiado para compreender algumas das tensões centrais do mundo contemporâneo. Enquanto governos reforçaram mecanismos de controle sobre a circulação de determinadas populações, o futebol expôs a crescente interdependência entre sociedades e a formação de identidades transnacionais. Assim, este texto propõe refletir sobre duas dimensões da relação entre migração e Copa do Mundo: os impactos das restrições migratórias associadas à realização do torneio nos Estados Unidos e a influência da globalização na redefinição das nacionalidades e dos pertencimentos dos jogadores que disputaram a competição.

Esse torneio de proporções globais evidenciou tensões contemporâneas relacionadas com a realização de megaeventos esportivos e a implementação de políticas migratórias restritivas. O recrudescimento da política migratória dos EUA para esse evento pôde ser observado a partir da realização de inspeções ostensivas a delegações como no caso do Uzbequistão e do Senegal, bem como na negação de visto a torcedores, dirigentes, integrantes de comissões técnicas e até mesmo a um árbitro somali da FIFA que estava devidamente credenciado para trabalhar no evento. O governo Trump, por meio de uma proclamação de proibição e limitação de entrada (travel ban), decretou proibições totais ou parciais de entrada nos EUA para cidadãos de 39 países e restringiu a emissão de vistos especificamente durante o período da competição alegando riscos à segurança nacional.

Nessa conjuntura, uma pergunta se faz mister: como conciliar a governança da mobilidade em uma competição esportiva de grande magnitude como a Copa do Mundo com a rígida arquitetura do controle de fronteiras entre países? Diferentemente das migrações de longo prazo, o fluxo gerado pelo megaevento configura-se como uma intensa mobilidade internacional temporária que provoca modificações significativas nas dinâmicas urbanas locais, com estimativas apontando para a mobilização de milhões de turistas ao longo do período do torneio, o que acaba por se configurar em um desafio adicional para todos os envolvidos na organização da competição.

O projeto de universalização do futebol promovido pela FIFA tem como pressuposto o compartilhamento de um espaço globalizado, no qual o futebol atua como um veículo de integração cultural e congraçamento entre povos no qual esteja garantida a livre circulação de todos os atores envolvidos na realização do evento. Nesse contexto, ficou imediatamenteestabelecido um cenário de contradição entre a autonomia das organizações transnacionais e a soberania das nações, principalmente quando a configuração em questão envolve políticas migratórias e segurança nacional. Se, por um lado, a FIFA prega uma universalidade que pressupõe garantia de livre acesso aos países-sede para as nações classificadas, em oposição a isso as exigências relacionadas com a segurança interna dos EUA estipularam obstáculos que se contrapõem frontalmente a esses ideais de multiculturalismo e coexistência. Essa assimetria revelou, infelizmente, que o megaevento esportivo passou a constituir-se também em um palco de disputas de poder onde burocracia e ideologia condicionam os fluxos de mobilidade global ao sabor da política externa da superpotência anfitriã.

Um olhar mais atento sobre as últimas Copas já apontava um aumento consistente na participação de jogadores nascidos no exterior em seleções nacionais, com uma diversidade crescente de países de origem. Este movimento pode ser explicado pela noção de corredores migratórios, em que a escolha de um atleta por outra bandeira costuma ser o resultado de fluxos históricos entre pares de países. Federações passaram a identificar e convocar com mais proatividade jogadores com dupla ou múltipla cidadania (caso do Marrocos atraindo marroquinos nascidos na Europa), e as regras de elegibilidade da FIFA reconfiguram o significado de "seleção" a cada edição. O futebol, como lembra a literatura, mantém uma lógica territorial baseada nos estados-nação, mas combina essa lógica com hibridismos culturais e multiterritorialidades. E essa combinação, mais do que uma contradição, é o seu modo contemporâneo de ser.

Em um cenário no qual quase 25% dos jogadores representam países diferentes daqueles em que nasceram, o futebol internacional contemporâneo constitui-se como um espaço privilegiado de negociação de identidades nacionais em um mundo globalizado. Observar a Copa de 2026 foi, em última instância, contemplar uma fotografia ampliada das sociedades que a produzem. Indagar a legitimidade das escolhas de convocação é exercício saudável, e perguntar até que ponto uma federação esportiva representa um povo e não apenas uma estratégia esportiva é questão democrática, e não apenas futebolística. Mas a alternativa não precisa ser o essencialismo: seleções sempre foram construções, ainda que por outros mecanismos, e o que se presencia em campo é menos a dissolução do futebol como expressão de identidade nacional e mais a sua reinvenção, um processo mais complexo, contraditório e, talvez por isso mesmo, mais fiel ao mundo que o produz.

Do alto do Morro do Sumaré, um novo sinal sonoro começou a percorrer o Grande Rio, levando conhecimento, cultura e serviço público à população. No tradicional radinho a pilha, no carro ou na caixa do som, é a Rádio UFRJ FM que está no ar, na frequência 88,9 MHz.

A rádio universitária já funcionava desde 2019 na internet, mas a recente entrada no “dial” representa a realização de um sonho para gerações de estudantes e servidores. “É uma grande emoção ouvir essa rádio, depois de tantas décadas de luta. Isso começou com o ativismo estudantil nos anos 80”, afirmou o diretor do Núcleo de Rádio e TV da UFRJ, professor Marcelo
Kischinhevsky.

Marcelo ainda era aluno da Escola de Comunicação, quando participou da primeira tentativa, com o nome de Rádio Livre, em 1989. Um pequeno transmissor funcionava no centro acadêmico da ECO, com antena fixada no telhado do Palácio Universitário. Rebatizada como “Interferência” em 1992 e, após aproximadamente 20 anos de transmissões, a “emissora” foi fechada pela polícia, acusada de operar sem concessão oficial.

“O sonho de fazer uma rádio educativa cabia em uma caixa de sapatos, onde ficava o transmissor de 20 watts de potência, feito por um estudante da Escola Politécnica”, disse Marcelo. “Hoje, temos um transmissor de 20 kW, mil vezes mais potente, com esse sinal lindo, cristalino, que a gente está ouvindo”, completou.

O lançamento oficial das transmissões aconteceu em 3 de julho, no Fórum de Ciência e Cultura. A grade é formada em parceria com a Empresa Brasileira de Comunicação (EBC). “Temos quatro horas diárias de programação retransmitida da Rádio MEC AM, mais a Voz do Brasil. Nas outras 19 horas, é a programação da Rádio UFRJ, que é construída a partir de chamadas públicas”, afirmou Marcelo.

Hoje no site da Rádio UFRJ, há mais de 60 programas hospedados. “É uma diversidade muito grande de conteúdos. Não só da área de Comunicação. Há conteúdos
feitos pela Medicina, pela Filosofia, pelo Direito, pelo Serviço Social, pela Escola de Música. A gente espera ter esse papel de agregador de conteúdos da universidade e também de parceiros, porque a chamada pública não é só voltada para a comunidade acadêmica”, explica o diretor do Núcleo de Rádio e TV.

“O ouvinte pode esperar uma rádio muito viva, muito transparente”, esclarece Marcelo. “E já estamos com a sétima chamada aberta até setembro, para composição da grade de programação do ano que vem”.

MOMENTO HISTÓRICO
O reitor Roberto Medronho celebrou o momento. “É um momento histórico para a nossa UFRJ. Precisamos cada vez mais levar informação útil e relevante para a
sociedade”, disse. “A universidade não pode ser uma torre de marfim, voltada para sim mesmo. A universidade tem que estar junto com o povo, tem que estar junto com o dia a dia da população”.

A capacidade de alcance de uma rádio universitária foi destacada pela coordenadora do Fórum de Ciência e Cultura, professora Christine Ruta: “A importância dessa rádio é permitir que o conhecimento produzido na nossa universidade chegue mais longe. Com linguagem acessível, responsabilidade e proximidade com a vida das pessoas”, contou. “O rádio tem uma força única. Mesmo em tempos de redes sociais, o rádio no Brasil alcança quase 80% das pessoas nas grandes regiões metropolitanas”.

CRESCIMENTO
O lançamento da Rádio UFRJ faz parte de um movimento de expansão da comunicação pública no Brasil. “Nos últimos
dois anos e meio, a Empresa Brasileira de Comunicação (EBC) inaugurou 67 estações de TV e FM, sendo 52 só neste primeiro semestre de 2026. Essas estações cobrem mais de 30 milhões de pessoas”, informou o integrante do conselho diretor da Agência Nacional de Telecomunicações e ex-aluno da Escola de Comunicação da
UFRJ, Octavio Penna Pieranti.

O crescimento da rede pública, para Octavio, impulsiona a economia e fortalece a democracia. “A implantação de
cada emissora mobiliza um ecossistema muito amplo nas diversas localidades, gera empregos, estimula economia,
fomenta a participação social, ajuda no combate à desinformação e forma novos profissionais”, disse. “Mais que isso, garante pluralismo e diversidade. E, dessa forma, fortalece a democracia”.

O diretor geral da EBC, Thiago Regotto, valorizou o empenho de todos que lutaram para a implantação da rádio da universidade. “Bons projetos podem demorar, podem enfrentar dificuldades, mas quando muitas pessoas acreditam nele, encontram sua voz. E essa voz a partir de hoje atende pelo nome Rádio UFRJ FM, 88,9 MHz. Parabéns a todos que nunca desistiram desse sonho”, concluiu.

ENTREVISTA | MARCELO KISCHINHEVSKY
DIRETOR DO NÚCLEO DE RÁDIO E TV DA UFRJ

Foto: Fernando SouzaCaderno D: O que representa essa mudança da Rádio UFRJ para a FM?
Marcelo Kischinhevsky: Na web, há um número restrito de ouvintes. Agora é uma nova realidade com a qual vamos lidar e esperamos atender às expectativas da audiência. Estaremos focados nos públicos jovem e adulto jovem. Temos que trabalhar pelas futuras audiências. O rádio sempre será importante na vida das pessoas, desde que se mantenha atualizado. Esperamos contribuir para isso.

Em tempos de falta de orçamento na universidade, como foi possível lançar a rádio?
Tivemos emendas parlamentares que nos permitiram adquirir os equipamentos de transmissão e alguns equipamentos de estúdio, que estão armazenados, por enquanto.

Como os programas são produzidos, nessas primeiras semanas?
A Rádio é desenvolvida pelo núcleo de Rádio e TV, um órgão suplementar do Fórum de Ciência e Cultura. Como ainda não temos um estúdio próprio, estamos gravando na Central de Produção Multimídia da Escola de Comunicação. A gente ainda não consegue fazer programas ao vivo. O sonho de consumo é que nosso estúdio fique no equipamento cultural do Novo Canecão para podermos fazer entrevistas com os artistas que se apresentarão lá. Para termos também esse espaço formativo. Uma rádio universitária não é só comunicação pública e educativa. Mas é também um espaço de formação de futuros profissionais.

Professores da UFRJ podem participar?
Professores podem e devem participar. Fazemos chamadas públicas. Estamos na sétima chamada pública para compor a grade de programação do ano que vem. O que a gente espera das propostas é que tenham aderência aos parâmetros técnicos e aos parâmetros editoriais da Rádio UFRJ, atendendo a uma lógica de diversidade, de inclusão, de vozes muitas vezes silenciadas pela mídia comercial.

Foto: Fernando SouzaO uso massivo de ferramentas tecnológicas para a redução das filas de atendimento no Sistema Único de Saúde foi apresentado em detalhes aos professores e pesquisadores do Instituto de Estudos em Saúde Coletiva da UFRJ, no dia 16 de junho. A secretária de Informação e Saúde Digital do Ministério da Saúde, Ana Estela Haddad, mostrou como funciona o chamado “Componente SUS Digital” dentro do programa Agora Tem Especialistas, lançado pela pasta no ano passado.

A iniciativa tenta mitigar o histórico problema da falta de médicos especialistas nas regiões mais pobres do país. “Desde antes da pandemia e agravada por ela, há um gargalo para a atenção especializada. Um estudo de 2023 do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde estima 370 mil óbitos ao ano, na saúde pública e privada, por doenças não transmissíveis relacionados
a um atraso do diagnóstico”, afirmou Ana Estela. “Ou seja, pela demora em se chegar à atenção especializada”.

Para enfrentar a enorme demanda, o fortalecimento da telessaúde é uma das principais frentes do SUS Digital. “A telessaúde é realizada no SUS há 20 anos. Só que, até a pandemia, a gente fazia teleconsultoria. Era a troca de opiniões entre profissionais. O Conselho Federal de Medicina não permitia teleconsulta. Na pandemia, abriu. Mas não foi uma expansão planejada. Fizemos uma revisão agora”, esclareceu a secretária do Ministério da Saúde.

Em 2023, existiam 12 núcleos de telessaúde no país; agora, são 63 apoiando todo o processo assistencial dentro do SUS, conectando unidades básicas de saúde e os especialistas.

De 2024 a 2025, 5,7 milhões de teleatendimentos foram realizados, cobrindo 2.929 municípios. Entre eles, 56% das cidades do Norte, 61% das cidades do Centro-Oeste e 57% das cidades do Nordeste. “É onde as pessoas estão mais isoladas dos centros de atendimento”, disse Ana Estela.

Está aberto um edital do Fundo de Universalização dos Serviços de Telecomunicações (FUST) para ampliar a conectividade em unidades básicas de saúde, assim como foi feito para as escolas. “Também pelo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) estamos levando kits de telessaúde. A gente organiza a sala de telessaúde na unidade básica. E o próprio profissional, agente comunitário ou enfermeiro, faz a mediação da consulta em um primeiro momento”. Dos 773 municípios da Amazônia Legal, 691 foram contemplados com os kits do ministério.

COMUNICAÇÃO ÁGIL
Outro aspecto do “Componente SUS Digital” é a comunicação direta com o paciente, a partir do ingresso na unidade básica de saúde. Se o usuário precisar fazer um exame ou se consultar com um especialista, o encaminhamento entra na fila de regulação – sistema que busca a vaga mais adequada, priorizando os casos mais urgentes. Neste momento, o usuário já recebe uma primeira mensagem, pelo aplicativo SUS Digital e pelo Whatsapp, dizendo que solicitação foi recebida.

“Antes, ele não sabia disso. Quando o agendamento é feito, ele recebe uma segunda notificação com todos os dados. Vinte e quatro horas antes da consulta, há uma terceira notificação, para diminuir o absenteísmo”, explicou a secretária. “E, ao final, quando se completa a oferta de cuidado integrado, o paciente é convidado a responder a uma pesquisa de satisfação”. 

Antes mesmo do Agora Tem Especialistas, o ministério já estava ampliando a troca de informações entre todos os sistemas do SUS, a chamada interoperabilidade, para integrar uma base nacional de dados. Desde os anos 1990, o SUS acumulou mais de 400 sistemas diferentes, criados em períodos distintos e com arquiteturas variadas.

A Rede Nacional de Dados em Saúde (RNDS), lançada durante a pandemia, foi redesenhada para estabelecer os padrões mínimos de compartilhamento seguro das informações clínicas entre diferentes instituições e sistemas.

“A RNDS só tinha registros de exames laboratoriais de covid, monkeypox e vacina da covid. A partir de 2023, resolvemos adotar amplamente”, afirmou Ana Estela. Em 2023, a rede reunia 700 milhões de registros. Hoje, já soma mais de 4,7 bilhões, com exames laboratoriais, prescrições de medicamentos, atestados e autorizações para procedimentos de alto custo, entre outros dados.

Falta muito ainda. Mas, com os dados disponíveis, profissionais de saúde podem acessar o prontuário do paciente que já foi atendido dentro do SUS e realizar um atendimento mais qualificado. Gestores poderão mapear demandas e traçar políticas.

“Precisa expandir? Precisa. Mas a tecnologia sozinha não faz milagre. A tecnologia precisa ter um propósito. Ela não veio para fazer a gente abrir mão de construir a rede, capacitar os profissionais e acolher os usuários. Tudo isso precisa acontecer”, concluiu Ana Estela.

UFRJ À DISPOSIÇÃO
Presidenta da ADUFRJ e professora do IESC, Ligia Bahia avalia que as ações do ministério são inovadoras. “Estamos com avanços enormes. Para nós que acompanhamos esse processo há muito tempo, acredito que demos muitos passos adiante”, contou.

O reitor da UFRJ, professor Roberto Medronho, que é epidemiologista, colocou a expertise da universidade à disposição do programa. “Nós precisamos em um país continental como o nosso, tão desigual, utilizar a saúde digital”, afirmou. “No nosso parque tecnológico, agora abrimos um hub para 40 start-ups da área da saúde. O pessoal da área de engenharia de sistemas, da área de computação, pode nos ajudar a aprofundar as questões do SUS Digital”, completou.

Imagem: Hippertt /Magnific AIHá um consenso entre especialistas sobre o impacto nocivo do uso excessivo de telas e redes sociais em crianças e adolescentes, com corpos, cérebros e subjetividades ainda em formação. Esse acordo científico se traduziu no Brasil em políticas públicas para tentar enfrentar o problema. Alguns exemplos são a proibição nacional dos celulares nas salas de aula, pela Lei nº 15.100, e a aplicação de regras mais rígidas de acesso de crianças e adolescentes a redes sociais pelo “ECA Digital”. No entanto, a psicologia alerta que o desafio vai muito além de desligar aparelhos ou bloquear algoritmos. “Existe uma transformação cognitiva dessas crianças e jovens com o advento dessas novas tecnologias”, afirma a professora Beatriz Sancovschi, do Instituto de Psicologia da UFRJ e especialista em Cognição Contemporânea.

A transformação cognitiva e emocional é um dos eixos do documento “A Psicologia frente ao mundo digital”, lançado ano passado pelo Conselho Federal de Psicologia (CFP). A docente fez parte do grupo de trabalho que elaborou o material. “Existe a articulação das nossas pesquisas com o grupo do CFP que assessorou o governo federal nas ações e políticas públicas sobre o tema”, conta.

A restrição, por si só, não dá conta da complexidade das relações entre crianças e telas. O cenário atual impõe a escolas e famílias a missão de ir além da contenção legal e assumir o que o guia chama de “mediação qualificada”, reconstruindo espaços de convivência e a subjetividade de uma geração moldada pelo ambiente digital. “A lei que proíbe os celulares nas escolas é muito interessante, mas a escola consegue oferecer espaços de qualidade para essas crianças? A quadra está disponível? A bola está à disposição? Essa escola está num ambiente seguro, sem tiroteios?”, questiona. “Muitas vezes, os pais estão nos celulares, trabalhando. As crianças não podem sair de casa, e os amiguinhos, tampouco. Quando a gente complexifica o problema, a gente consegue entender melhor o que está em jogo”, afirma.

Beatriz acredita que a abordagem sobre as telas precisa estar em sintonia com a realidade familiar, numa busca por redução de danos. “É necessária uma relação de cuidado mais do que de controle”, defende. “A criança precisa desse olhar do adulto e, muitas vezes, esse adulto não olha para si mesmo, para ver o quanto ele próprio fica na tela”, aponta. “Há estudos que indicam o quanto é nocivo para o desenvolvimento de uma criança você interromper o tempo inteiro a interação com ela porque você está fazendo outra coisa. Então, fica a pergunta: a gente de fato está disponível para as crianças hoje?”

As redes sociais têm problemas ainda mais graves. Os algoritmos criados para manter as pessoas presas à tela vão se atualizando de acordo com as mudanças sociais. “Até o discurso de não poder ficar nas telas já foi capturado. Hoje há contas nas redes sociais para adolescentes. A propaganda diz que os pais podem ficar tranquilos, porque agora seus filhos estão seguros. E aí a gente já perdeu os filhos de novo. Eu posso terceirizar a uma empresa o cuidado com os meus filhos?”, pergunta.

MECANISMOS QUE VICIAM

Os efeitos viciantes do celular e outros dispositivos tecnológicos também são vastamente estudados. De acordo com o Relatório Digital 2024, da DataReportal, o Brasil é o segundo país comProfessoras Beatriz Sancovschi e Virgínia Kastrup / Foto: Silvana Sá maior consumo diário de internet no mundo. Em média, os brasileiros gastam 9 horas e 13 minutos na rede por dia, atrás apenas da África do Sul. São 3 horas a mais que a média mundial. Desse total, quase 4 horas do dia são gastas nas redes sociais.

“Não há um interesse das empresas em promover o lazer. O objetivo é realmente a adição, para que o usuário se prenda ali e se torne dependente do capitalismo de plataformas”, analisa a professora Virgínia Kastrup, titular do Instituto de Psicologia e especialista em Psicologia Cognitiva. “Quando as redes sociais criam uma barra de rolagem infinita, a ideia é mesmo a ausência de limites em sua utilização. Não existe início, meio e fim. Sempre há o algo a mais para ser visto”, afirma a docente. “Ao mesmo tempo que atraem a atenção, os conteúdos precisam ser muito rasos e não suscitar esforço intelectual, para que você possa ver e rapidamente passar para o próximo”.

Para a professora, existe uma infância antes e após o celular. “Num primeiro momento, houve um entusiasmo pouco crítico em relação ao uso das telas. Muitas pessoas achavam que esse seria o universo das crianças no futuro e que era necessário tratar com certa naturalidade esse uso. Aos poucos, no entanto, os estudos foram mostrando que havia muito mais problemas do que se imaginava”, conta Virgínia. “A normalização desse uso foi revista. Hoje, há uma atitude muito mais prudente, que requer uma avaliação mais ampla do tema”.

As docentes também acreditam que as discussões sobre o uso das telas precisam levar em consideração o elemento de classe social e as transformações do mundo do trabalho. “Hoje, muitos pais chegam do trabalho e continuam resolvendo as pendências do dia. Há uma dimensão do uso do celular que não é só distração e lazer. E aí, nesse cenário, restam às crianças, muitas vezes, a tela”, exemplifica.

Os estudos da economia da atenção mostram que o principal produto hoje, sobretudo na internet, é a atenção do usuário. Daí o empenho no desenvolvimento de ferramentas para prender cada vez mais os usuários às telas. “O bem mais caro, na era do capitalismo de plataformas, é a sua atenção. A sua atenção está sendo monetarizada e isso produz efeitos. A atenção que demanda esforço para se manter concentrada vai se tornando, com o tempo, uma habilidade cognitiva cada vez mais rara”, alerta. “Os conteúdos passam a ser ou muito fáceis ou impossíveis. Quando eu me deparo com algo que não compreendo muito bem, eu passo adiante”, exemplifica. “Tudo o que demanda mais atenção, mais tempo e é mais complexo vai se tornando intolerável e isso vai produzir muitos efeitos nas crianças, nos jovens e nos adultos”.

Para as professoras, o desafio da Educação é fazer com que o uso das novas tecnologias digitais coexista com o pensamento, sem deixar de produzir o conhecimento crítico. “A dimensão do pensamento crítico e da invenção não pode ser abandonada”, conclui Virgínia Kastrup.

Foto: Fernando SouzaA Lei 15.100, que limita o uso de celulares e outros dispositivos eletrônicos em escolas, completou um ano e meio e seus efeitos começam a ser medidos pelas comunidades escolares. De acordo com o Diretor-Adjunto de Ensino do Colégio de Aplicação, professor Jorge Felipe Marçal Gomes, os estudantes passaram a interagir mais durante os intervalos. Antes, as relações durante o horário de recreio eram muitas vezes mediadas por celulares. “A nossa percepção geral é de que a interação dos estudantes aumentou a partir da restrição do uso de celular e outros aparelhos digitais, tanto disciplinar quanto do ponto de vista das ações pedagógicas”, analisa. “Ajudou bastante o fato de a escola ter alguns equipamentos de jogos como totó, pingue-pongue, e o uso da quadra com combinados construídos pela direção da escola junto aos representantes de turma”, analisa.

A avaliação do docente coincide com os resultados da pesquisa nacional ‘1º ano da Lei nº 15.100/2025’, que avalia a implementação da legislação. Os dados foram apresentados em 30 de junho, em coletiva de imprensa com a participação da secretária de Educação Básica do Ministério da Educação, Kátia Schweickardt. É a primeira pesquisa realizada sobre este tema com abrangência nacional. Foram ouvidos gestores de 8.189 escolas públicas e privadas de todas as regiões brasileiras, selecionadas por amostragem probabilística. 

A pesquisa aponta que 92% das escolas públicas e privadas do Brasil já implantaram a Lei 15.100. Os dados indicam que 97% dos gestores concordam que a medida contribuiu para ampliar a participação dos alunos nas atividades pedagógicas. Para 95% deles, a lei melhorou a concentração dos alunos em sala de aula e estimulou a socialização presencial. A maioria dos gestores (86%) acredita também que a lei contribuiu para diminuir a ansiedade dos estudantes na escola (veja quadro). “Diferente de outras leis natimortas, essa lei nasce com força. Os números indicam que 174 mil escolas de ensino básico já implementaram a lei. Dessas, 138 mil são públicas”, comemorou a secretária Kátia Schweickardt (Veja números abaixo).

Para o professor Jorge Felipe, a saúde mental é um dos focos de maior preocupação. “A gente tem quadros de estudantes que desenvolveram questões gravíssimas, inclusive com ferimentos autoprovocados, pelo uso excessivo de telas”, revela. “Não dá para dissociar a pandemia desse processo. Eles passaram por dois anos onde a única possibilidade de escola era a mediada por telas. As crianças ainda enfrentam dificuldades de socialização com outras crianças e adolescentes”, observa.

Para além da questão disciplinar, o CAp se preocupa em educar os estudantes para o uso consciente das telas. “A gente entende que o celular é um meio de contato das famílias com os estudantes. Vivemos uma realidade em que a maioria dos nossos alunos vem de bairros distantes da cidade”, analisa o docente. “Então, não é só proibir o uso não pedagógico, é preciso envolver famílias e estudantes nesse processo de conscientização”, defende. “Tentamos aliar o papel pedagógico ao preventivo e disciplinar, para o caso de reincidências”, afirma.

Apesar dos esforços, muitas famílias ainda não percebem uma atuação incisiva do Colégio. “Existe a norma, mas, com família, percebo que a proibição formal não significa uma proibição real”, diz Bárbara Loureiro, mãe de uma estudante do Fundamental II. “Não percebo ainda a política institucional consistente, neste tema. Visivelmente, a gente não percebe nada. Minha filha reclama que ela respeita a lei, mas outros colegas, não”, critica.

A responsável reivindica uma rotina mais definida e combinada com toda a comunidade escolar. “A lei é muito válida e a escola precisa ser esse espaço para crianças e adolescentes conviverem, aprenderem e também a descansar das telas”, analisa. “O que não dá é para o professor virar um fiscal solitário do celular em sala de aula. É preciso um protocolo institucional mais definido. Acaba virando mais uma demanda para o professor que já é tão sobrecarregado”, aponta. “Precisamos de uma pactuação entre todos os envolvidos, mas a responsabilidade desse processo é institucional”.

CARTILHA
A professora Anna Thereza Bezerra de Menezes também acredita na importância do pacto coletivo. “É preciso esse pacto no sentido que não entreguem um smartphone nas mãos de uma criança, para que não as deixem ter uma rede social. É importante reforçar que o WhatsApp também é uma rede social”, destaca. “É preciso resistir a esse universo das telas. Se você controla esse acesso e os conteúdos, você protege sua criança. Se não, ela está completamente exposta”, afirma Anna Thereza.

Ela faz parte do Grupo de Trabalho ‘Orientações e Restrições sobre Mídias Móveis no Espaço Escolar’, formado no Colégio de Aplicação para trabalhar o tema junto à comunidade escolar. O grupo elaborou no final de maio a cartilha “Orientações sobre uso de telas e redes sociais”. O documento apresenta as regulamentações nacionais; os impactos do uso excessivo de telas em diferentes idades; os mecanismos de dependência desenvolvidos por aplicativos e big techs; o desenvolvimento cerebral de adolescentes, entre outros temas.

“As telas perpassam as relações de lazer, de amizades, implica em mudanças nas relações familiares. Então, o GT entendeu que era importante fazer um trabalho de conscientização das famílias e um levantamento desse uso familiar de telas, porque o aluno se desconecta da presença ao se conectar a esses dispositivos”, analisa a professora. “Por isso decidimos também criar esse documento com orientações, mas ele também busca que os adultos se perguntem que uso estão fazendo das telas e redes”, explica a professora Anna Thereza. A cartilha “Orientações sobre uso de telas e redes sociais” pode ser acessada em: https://acesse.one/EeF10 .

PESQUISA DO MEC

8.189 escolas públicas e privadas ouvidas
97% concordam que a lei contribuiu para ampliar a participação nas atividades pedagógicas
95% concordam que a medida melhorou a concentração dos alunos
95% concordam que a lei estimulou a socialização presencial
92% das escolas já implementaram a lei
88% relatam redução de agressões e cyberbullying
87% relatam ações de ampliação da educação digital
86% perceberam redução da ansiedade dos estudantes
67% afirmam que aumentaram as atividades manuais e lúdicas

PRIORIDADES
67% parceria com as famílias
61% formação docente
60% melhoria dos espaços de lazer
49% educação digital e midiática

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