Accessibility Tools

facebook 19
twitter 19
andes3
 

filiados

WhatsApp Image 2026 04 09 at 19.01.43 2O professor Mychael Lourenço, do Instituto de Bioquímica Médica da UFRJ, foi o vencedor do Prêmio ALBA-Roche Prize for Excellence in Neuroscience Research. O prêmio é oferecido a cientistas que já alcançaram conquistas excepcionais na carreira. No caso do professor da UFRJ, suas investigações sobre o Alzheimer motivaram a distinção internacional.
Ele comemorou o feito e afirmou que não é o único responsável pelo destaque internacional. “O prêmio é nominal a mim, mas ele representa o sucesso do grupo de pesquisa. Temos muitos alunos trabalhando, técnicos de laboratório, muitos docentes. Então, é mérito de todos nós e da universidade”, destaca.
O docente, que coordena o Laboratório de Neurociência Molecular (LourençoLab), pesquisa formas de diagnosticar o Alzheimer precocemente. Uma de suas descobertas relaciona o Alzheimer à perda de uma substância chamada carnitina especialmente em mulheres. A molécula – que participa do transporte de gordura – pode ser identificada por meio de exames de sangue comuns. O achado abre caminho para exames menos invasivos e mais baratos para o diagnóstico em populações de risco para a demência. Hoje, cerca de dois terços dos diagnósticos são em mulheres.
A partir desse achado, a pesquisa abriu outras linhas de investigação. Uma delas busca entender por que o Alzheimer tem múltiplas formas de manifestação. “As trajetórias individuais entre os pacientes divergem muito. Há pacientes que têm uma evolução rápida e outros que estão há dez, doze anos acometidos, mas com uma evolução muito mais lenta”, exemplifica. “Claramente são casos diferentes. O desafio é entender por que são diferentes? Como são diferentes? Estamos nos propondo a compreender isso”, explica o professor.
Outra linha é entender o que faz algumas pessoas não desenvolverem o Alzheimer. A ideia é buscar essa resposta em idosos que não foram acometidos pela demência. “O que os torna resistentes ao aparecimento de doenças de Alzheimer, enquanto outras pessoas com 60, 65 anos já apresentam sintomas e declinam rapidamente?”, questiona.
Perguntado sobre o que o motivou a investigar pessoas saudáveis, quando a rota tradicional da ciência indica a investigação em indivíduos doentes, Mychael Lourenço contou que o “estalo” veio do aprofundamento de suas pesquisas. “Percebemos que existe algum mecanismo de resiliência e algum mecanismo de resistência também”. Ele explica a diferenciação: “Resistente é aquela pessoa que não desenvolve a patologia, sequer começa a ter os eventos que levam à doença. Resiliente é aquele indivíduo que apresenta a patologia, mas não desenvolve sintomas. Essas pessoas existem”, diz. “Acredito que elas podem nos informar por que outros adoecem e como tratá-los”, revela.
O professor defende que essas pessoas que chegam aos 90 anos cognitivamente intactas são muito valiosas para a neurociência. Mas ainda é um desafio chegar a essa população. “Precisamos garantir que esse idoso se encaixa no grupo que queremos estudar e diferenciar quem tem a doença em curso de forma silenciosa e quem tem o cérebro totalmente preservado. São grandes desafios”, conta. O grupo de pesquisa ainda avalia as estratégias para captar esse público-alvo. “A gente pode fazer chamadas abertas, ou buscar ativamente parcerias com associações, programas de saúde e instituições de assistência”.
O professor Felipe Ribeiro, do Instituto de Bioquímica Médica, é um dos que colaboram com o grupo de pesquisa do professor Lourenço. Ele também defende a importância de voltar o foco à população saudável. “Nos últimos anos tem-se avançado bastante na descoberta de riscos genéticos e fatores ambientais que aumentam ou diminuem o risco para Alzheimer. Cerca de 50% dos casos atuais poderiam ser evitados se alguns fatores fossem retirados”, revela o docente. “Uso excessivo do álcool, perda auditiva, isolamento social estão entre eles”, disse. O estudo, porém, foi baseado na população do Norte Global. Na população brasileira, os riscos se manifestam de formas diferentes, conta Ribeiro. “O isolamento, por exemplo, não é tão importante, mas o acesso ao estudo formal impacta muito mais a população brasileira”, exemplifica o pesquisador. “Daí a importância também de o Brasil investir em estudos sobre a nossa população”, destaca.
O docente estuda mecanismos de degradação das proteínas que se acumulam no cérebro da pessoa acometida pelo Alzheimer. Este é outro viés das investigações do grupo. “Um dos problemas é que há falhas do mecanismo de degradação dessas proteínas. O corpo produz e não consegue eliminá-las, então vão se acumulando, muitas vezes por décadas, até que a doença se manifesta”, explica. “Quando o paciente é diagnosticado, ele já perdeu muitos neurônios e o processo da perda de memória já está instalado. A ideia é encontrar alvos terapêuticos que incidam nesse paciente antes dessa morte neural”.
Já Andréa Tosta é pós-doc do laboratório sob a supervisão de Mychael Lourenço. Seu projeto busca compreender um receptor inflamatório que está relacionado à perda de memória, o CCR5. “Ele existe no nosso corpo, mas fica muito ativo quando desenvolvemos processos inflamatórios. A hipótese é que a doença neurodegenerativa amplia a ativação desse receptor”, diz. “Já sabemos que em pacientes com HIV, quando esse receptor foi estabilizado, houve melhora da memória. Queremos investigar se o mesmo se aplica para doentes de Alzheimer”.

O PRÊMIO

O ALBA-Roche Prize for Excellence in Neuroscience Research foi lançado em janeiro de 2024. Antes do professor da UFRJ, haviam recebido a premiação os professores Mootaz Salman, da Universidade de Oxford, no Reino Unido, e Binnaz Yalcin, da Université Bourgogne Europe, na França. Mychael Lourenço é o primeiro docente não europeu a receber a distinção.
A ideia é premiar cientistas que já tenham trabalhos de destaque em estudos na área de Neurociências. O vencedor, além da distinção internacional, recebe 15 mil euros em apoio a atividades de pesquisa, além de auxílio de 3.500 euros para cobrir despesas para a participação na cerimônia de entrega do prêmio. O evento deste ano vai ocorrer em Barcelona, durante o fórum da Federação das Sociedades Europeias de Neurociências (FENS, na sigla em inglês), que acontece entre os dias 6 e 10 de julho. Na ocasião, Mychael Lourenço dará uma conferência para apresentar seu trabalho.
O prêmio possui um comitê de seleção composto por especialistas renomados. A presidência é dividida entre Carmen Sandi (Suíça) e Gilles Laurent (Alemanha). Ao todo, 12 pesquisadores compõem o grupo e representam diferentes regiões do globo: são 7 da Europa, 1 da América do Norte, 2 da África, 1 da Ásia e 1 da América do Sul. A representante sulamericana é a professora Flavia Gomes, titular do Instituto de Ciências Biomédicas e diretora de pós-graduação e pesquisa do ICB. “A ideia do prêmio é contextualizar trajetórias de cientistas que desenvolveram pesquisas de excelência apesar dos desafios impostos ao seu trabalho”, diz a professora. “O público-alvo, portanto, é todo pesquisador que exerceu fortemente a resiliência científica apesar de enfrentar adversidades para realizar o seu trabalho. Todo aquele que alcança resultados de excelência mesmo em ambientes ou em situações desfavoráveis”, afirma.
A pesquisadora revela que o aspecto mais importante de sua atuação no comitê avaliador é poder levar o olhar de uma pesquisadora da América do Sul ao grupo. “É um prêmio criado por instituições europeias, com maioria dos pares europeus, então, sem dúvidas, poder emprestar o meu olhar, que é o de uma pesquisadora que percebe as injustiças estruturais é uma contribuição muito importante. Além disso, dá visibilidade ao Brasil e à UFRJ”.
Para Flavia Gomes, o resultado deste prêmio é uma alegria tripla. “Participar do comitê, ser um brasileiro o vencedor e ele ser da UFRJ são motivos de enorme alegria para mim”, diz a pesquisadora, que revela não ter participado da avaliação do trabalho de Mychael Lourenço. “O comitê leva muito em consideração os critérios de confidencialidade e conflito de interesses. Pesquisadores que eventualmente conheçam candidatos não participam da avaliação de seu trabalho”, explica a docente.

WhatsApp Image 2026 04 09 at 18.57.52 2Adilson de Oliveira
Professor titular do
Instituto de Economia da UFRJ

 

A decisão unilateral dos EUA, em conjunto com Israel, de bombardear o Irã com o objetivo de provocar a derrocada do regime dos aiatolás tem se mostrado mais complexa do que inicialmente imaginada por Trump.
A inesperada resposta iraniana de controlar o fluxo de petróleo pelo estreito de Ormuz, por onde flui um quinto do consumo global desse combustível fóssil, elevou o patamar do preço do barril de 70 para 100 dólares, arrastando consigo os preços do gás natural e da eletricidade.
Ao dar início aos bombardeios de territórios iranianos, o governo dos EUA declarou que o conflito teria curta duração. Em poucas semanas, o preço do petróleo deveria voltar para o patamar vigente antes do início dos bombardeios. Porém, a percepção atual é que, mesmo que isso venha a ocorrer, o preço do barril permanecerá em patamar significativamente superior aos 70 dólares vigente no passado recente. Os efeitos dessa realidade já estão se fazendo sentir.
O novo patamar de preço do barril provoca a retração nos fluxos comerciais gerando desemprego. Ele induz o aumento nos preços dos fertilizantes, elevando os custos da produção de alimentos, corroendo a renda das famílias. A incerteza quanto ao novo patamar de preço induz a postergação de investimentos, reduzindo o ritmo do crescimento econômico global.
Os governos buscam mitigar os efeitos dessa crise aumentando o endividamento público, na expectativa de uma solução rápida que permita restabelecer o equilíbrio nas contas públicas. E, dessa forma, dar continuidade à transição energética dos combustíveis fósseis para as fontes renováveis, o que ainda está em seus primórdios.
Os efeitos energéticos, geopolíticos e econômicos da crise iraniana serão ressentidos por décadas. E eles serão mais significativos na Europa, na Ásia e na Oceania, regiões fortemente dependentes de grandes volumes de hidrocarbonetos importados. Paulatinamente, as organizações geopolíticas globais, instaladas após a Segunda Grande Guerra, continuarão se desfazendo.WhatsApp Image 2026 04 09 at 18.57.52 3
A crise iraniana coloca o Brasil em situação singular. Sua matriz energética é, em grande medida, assentada em fontes renováveis de energia, e seu potencial para incrementar a oferta doméstica dessas fontes é elevado.
Por outro lado, o país é exportador de volumes crescentes de petróleo, situação que permite criar ambiente doméstico relativamente protegido das incertezas do mercado global de combustíveis fósseis. Sendo assim, o país reúne condições favoráveis para dar continuidade a sua transição energética.
Contudo, a atividade agrícola brasileira é fortemente dependente de fertilizantes importados e o sistema de transporte está assentado no suprimento de derivados de petróleo. As exportações de produtos agropecuários são fundamentais para uma inserção favorável do Brasil no ambiente geopolítico criado pela crise no Oriente Médio.
Essa crise abre uma janela de oportunidades para o Brasil superar suas limitações ambientais, sociais, geopolíticas e econômicas. Para tanto, é preciso aceitar que o Brasil terá que se ajustar a essa nova realidade com uma profunda revisão na trajetória atual de desenvolvimento.
Tirando proveito da situação petrolífera doméstica, o governo deu um primeiro passo nessa direção ao buscar mitigar os efeitos de curto prazo da elevação do preço do petróleo. Porém, é necessário ir além, em pelo menos quatro dimensões.
Primeiro, acelerar a transição energética, fortalecendo as redes de transmissão de eletricidade e acelerando a substituição dos combustíveis fósseis por fontes renováveis no sistema de transporte.
Segundo, reestruturar o parque de refino para dotar o país da oferta de insumos petroquímicos demandados pela crescente atividade agropecuária.
Terceiro, relançar o processo de industrialização, centrado em sistemas integrados com a oferta doméstica de insumos produtivos primários.
Quarto, acelerar os investimentos em inovação tecnológica, tendo como objetivo garantir a resiliência econômica e a soberania nacional. Para tanto, é necessário articular os programas e projetos de pesquisa do CNPq e do MEC, de forma a redefinir a formação oferecida pelas faculdades de engenharia para dar proeminência à IA.

Diretoria da AdUFRJ

 

Editorial do O Globo em 14/03/2026 estabelece relação causa-efeito espúria entre a eleição e o processo de escolha de reitores e a folha de pagamento das universidades. Ao descuidar dos fatos e divulgar uma versão incorreta sobre o ensino superior público, termina por renunciar à veracidade e qualidade da notícia ao se aproximar do estilo Fake News da “lacração.” Impressiona constatar que o Globo não detenha informações sobre atribuições de dirigentes universitários: são inúmeras, no entanto, não compete aos reitores a contratação de professores e técnicos. Logo a magnitude dos gastos com pessoal de instituições que desenvolvem ensino, pesquisa e atividades de extensão não é consequência da forma ou mesmo de quem são seus reitores.

Vincular autonomia e despesas com pessoal de universidades é uma fórmula gasta, consiste na tentativa de um ataque duplo cujo alvo é o sentido de ser de organizações voltadas para o conhecimento universal e reflexivo. Uma universidade atrelada a coalizações governamentais, a interesses econômicos ou comerciais, sem docentes e alunos excelentes, sem inclusão é um engodo. O país alcançou patamares elevados em rankings científicos e a contribuição das universidades federais tem sido inequívoca.

Pesquisadores estão definitivamente comprometidos com a busca de alternativas para o desenvolvimento econômico e social sustentável. Pesquisas nacionais para a agricultura e biodiversidade, estudos sobre segurança pública, mapeamento e valorização da cultura, entre outras, possuem amplo reconhecimento internacional. Páginas do O Globo e reportagens de outros veículos de mídia registram o comparecimento voluntário do “pessoal” das universidades. Nada mais do que obrigação ou também gestos de apreço pela relevância da imprensa?

Experimentamos o negacionismo científico em sua forma brutal de menosprezo a vida durante a pandemia de covid-19. Em contraponto, demonstramos que a eficiência e eficácia da ciência, inclusive das nossas universidades, permitiram superar crise sanitária. Salários de professores com doutorado, dedicação exclusiva, que estão à frente de investigações relevantes e formam professores, são menores do que os que remuneram diversos cargos civis e militares. Os reitores não são desperdiçadores de recursos públicos, são professores, são cientistas aos quais foi confiada a árdua tarefa de manter as portas abertas do ensino superior para a juventude brasileira.

Críticas sempre serão sempre bem-vindas. Inverdades, soluções de araque, longe de impulsionarem o que está dando certo, terminam por estimular indiferença à soberania nacional. Ignorância proposital em relação ao dia a dia de universidades públicas e crenças na privatização do ensino, subjacentes ao repúdio à eleição de reitores, são ideológicas, não estão baseadas em evidências. 

Andrea Parente,
Daniel Conceição,
Ligia Bahia,
Luisa Ketzer,
Maria Tereza Leopardi,
Michel Guerman
e Pedro Lagerblad
Professores da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Leia o documento na versão PDF.

A Câmara dos Deputados aprovou um conjunto de regras para inserir os bolsistas de pós-graduação no Regime Geral da Previdência Social. A medida permite que mestrandos, doutorandos e pós-doutorandos tenham acesso a benefícios previdenciários como licenças e auxílios, além de o tempo da pesquisa contar para a aposentadoria.

Se aprovada no Senado, a nova lei alcançará tanto os pós-graduandos que realizam pesquisas no Brasil, como aqueles que estão no exterior com bolsas de agências de fomento brasileiras.
O projeto é uma reivindicação antiga ganhou nos últimos meses amplo apoio de parlamentares, de representantes de sociedades científicas e agências de fomento.

O Projeto de Lei 6894/13 foi aprovado na forma de um substitutivo do relator, o deputado Ricardo Galvão (Rede-SP). O parlamentar é ex-presidente do CNPq. Segundo Galvão, o enquadramento dos bolsistas como segurados do INSS corrige uma distorção histórica. “Embora o Estado reconheça a relevância estratégica da pesquisa científica, os pesquisadores bolsistas que trabalham em dedicação exclusiva permanecem sem proteção previdenciária”, disse.

Segundo o projeto aprovado, caberá à agência de fomento que disponibiliza a bolsa arcar com o valor da contribuição. No caso, a alíquota será de 11% sobre um salário mínimo. Com esse percentual, no entanto, o acesso ao direito à aposentadoria se dará somente por idade. Caso o bolsista queira que o período conte para a aposentadoria por tempo de serviço, precisará complementar a contribuição com mais 9% sobre o salário mínimo, para totalizar 20% de recolhimento. Assim, pós-graduandos que forem aprovados em concursos também poderão contabilizar o tempo de pesquisa para contar na aposentadoria de regimes próprios de servidores.

O presidente da Associação Nacional de Pós-Graduandos (ANPG), Vinícius Soares, comemorou a aprovação. “Esta vitória reconhece a atividade de pesquisa enquanto trabalho. O nosso trabalho é desenvolver a pesquisa no Brasil; 90% da ciência no Brasil é produzida a partir da mão dos pós-graduandos”, afirmou.

Natália Trindade, diretora da Associação dos Pós-Graduandos da UFRJ (APG), destacou que a conquista é fruto de 40 anos de discussões. “Essa falta de amparo atravessa a trajetória dos pesquisadores ao longo de todas essas décadas”, analisa Natália. “Precisamos que os recursos que a Capes e o CNPq precisam dispor para pagar a previdência sejam incluídos na Lei Orçamentária de 2027”, observa.

Para ascender na carreira na UFRJ, sobretudo no campo da gestão universitária, as mulheres têm que enfrentar um obstáculo muitas vezes silencioso, mas que pode se mostrar instransponível: o assédio moral. É o que revelam os resultados da pesquisa inédita “Assédio moral e outras violências laborais na UFRJ”, aos quais o Jornal da AdUFRJ teve acesso com exclusividade. De acordo com o levantamento, 74% dos entrevistados declararam já terem sido vítimas de assédio moral, tendo essa prática se repetido três vezes ou mais, e 67% das vítimas são mulheres.

Iniciada em abril de 2025, com apoio da PR-4 e da Ouvidoria, a pesquisa contou com 823 participantes, sendo 61,84% de técnicos e 38,15% de docentes — percentuais compatíveis com o total de servidores ativos da UFRJ, onde os docentes representam 39,21%, e os técnicos, 60,79%. Para a professora Alzira Guarany, responsável pela pesquisa e coordenadora do Laboratório de Estudos em Políticas Públicas, Trabalho e Sociabilidade (LEPPTraS) da Escola de Serviço Social (ESS/UFRJ), há outro dado alarmante: apenas 23,65% das vítimas de assédio denunciaram a prática. “Elas alegaram falta de confiança nos canais ou na responsabilização do culpado. Isso é muito grave”, diz Alzira.

REFLEXOS NA SAÚDE
Entre as vítimas do assédio, 54,12% declararam que o assediador foi o superior hierárquico. As práticas mais corriqueiras são humilhação na frente dos outros ou em particular, respostas rudes, violência verbal ou ter seus resultados positivos atribuídos a outras pessoas. E mais um dado impressionante: 84,40% afirmaram que ter passado por essa experiência afetou sua saúde física e mental, com o desenvolvimento de ansiedade, depressão, insônia e outros distúrbios. De acordo com um estudo de 2018 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), as vítimas de assédio moral apresentam quatro vezes mais probabilidades de desenvolverem depressão, e o dobro de chances de ficarem estressadas.

Segundo a professora Alzira Guarany, a OIT está revendo a necessidade de reiteração para qualificar o assédio moral. “Como pesquisadora e estudiosa do tema, eu avalio que a violência laboral é gravíssima, independentemente da reiteração. Mas as consequências de ser vítima reiteradamente me parecem muito mais graves no médio e no longo prazos, inclusive com atentados contra a própria vida, temos relatos de situações assim”, pondera Alzira. Ela defende uma política única de enfrentamento ao assédio em toda a universidade. “Isso se reflete no baixo percentual de vítimas que fazem a denúncia. Além da falta de confiança, há um desconhecimento dos canais. Se a Escola de Serviço Social tem uma política, o CFCH tem uma, o CCS outra, isso deixa o servidor inseguro. Acho que isso é sintomático”.

CULTURA DE RESPEITO
Para a mulher que ocupa o mais alto posto na administração central da UFRJ, o enfrentamento ao assédio é urgente. Vice-reitora, a professora Cássia Turci recorre à sua própria experiência para tratar do tema. “Falar sobre a presença feminina na gestão não é apenas falar de representatividade, mas de uma mudança necessária na cultura institucional. Minha trajetória na gestão, como diretora do Instituto de Química, decana do CCMN e, agora, como vice-reitora, permitiu-me observar de perto que os desafios vão muito além do acesso ao cargo. Ocupar esses espaços exige uma resiliência dobrada”, diz Cássia.

Para a professora, as mulheres gestoras ainda enfrentam “formas severas de assédio moral e tentativas de esvaziamento de suas funções”. “Ser uma exceção, como no caso da minha gestão no IQ/CCMN, evidencia que o sistema ainda é desenhado por e para homens. A cultura de respeito tem que ser uma política de Estado na UFRJ. Precisamos converter a paridade em uma política institucional permanente, e não apenas uma escolha circunstancial. Isso inclui mecanismos efetivos de proteção contra retaliações e o fortalecimento de redes de apoio entre gestoras. A presença feminina humaniza a gestão e prioriza os direitos humanos. Nossa meta não é apenas chegar ao topo, mas exigir condições plenas, respeito e autonomia em cada passo do caminho”.

Para a professora Fabiana Valéria da Fonseca, chefe de gabinete da reitoria, a presença feminina na gestão da universidade ainda é desproporcional. Embora ela aponte que as mulheres ocupem 14 dos 24 principais cargos da alta administração, a vivência da “dupla jornada” para a mulher ainda é a realidade a ser enfrentada. “A mulher sempre precisou trabalhar, seja em casa ou fora. Somos poucas nos cargos de poder em relação à nossa presença na base da universidade. Há alguns entraves para aumentar essa presença, um deles é o tempo. Nós acumulamos responsabilidades familiares, domésticas, e isso impacta a nossa vida no trabalho. Já me peguei fazendo três ou quatro atividades ao mesmo tempo, hoje tento evitar isso. E a mulher ainda tem que lidar com a culpa. Sempre quis estar com meu filho, acompanhar de perto as atividades dele. E quando não conseguia fazer isso, vinha aquela culpa e a vontade de fazer em dobro”, reflete Fabiana.

Ex-diretora da Escola de Química, Fabiana destaca que as mulheres vêm avançando na presença em espaços de poder até então reservados ao universo feminino. “Como na direção da Petrobras, por exemplo. Na UFRJ vamos tentar ampliar mais, fortalecer nossas políticas institucionais de participação. A Denise (Pires de Carvalho) ter sido a primeira reitora de nossa história foi emblemático. Assim como a Claudia (Morgado) como a primeira diretora da Escola Politécnica. São mulheres que romperam essa barreira, mostraram sua capacidade de gestão. Não gosto da palavra empoderamento. Estamos ocupando os lugares que temos que ocupar”.

A QUESTÃO RACIAL
Para a superintendente-geral de Ações Afirmativas, Diversidade e Acessibilidade da UFRJ, Denise Góes, não é possível tratar da presença feminina na gestão universitária sem abordar a questão racial. Militante do Movimento Negro Unificado há três décadas, Denise diz que a estrutura da universidade reflete a realidade brasileira. “Existe um modus operandi da sociedade brasileira secular em relação ao papel da mulher. Mas a mulher negra está numa estratificação bem menor do que a mulher branca, bem menor do que o homem branco, principalmente dentro das universidades públicas federais”, aponta.

Para Denise, a população negra, em especial a mulher negra, sofreram durante muito tempo um processo de invisibilização na vida acadêmica. “A universidade sempre viveu num mundo branco, num mundo não inclusivo, num mundo elitista. A partir do advento das políticas públicas, temos outra UFRJ que começa a se movimentar. Mas essa movimentação só acontece com pessoas de carne e osso. Não adianta que as leis sejam promulgadas se a gente não tiver pessoas dispostas a enfrentar essa batalha cotidiana. Somos nós que temos que contar a nossa história”.

A titular da SGAADA afirma que há avanços concretos, mas há ainda muito a avançar. “Tenho 36 anos de universidade e lembro perfeitamente da administração central somente formada só por homens, do reitor aos superintendentes. A posse de Denise Pires de Carvalho como a primeira reitora em 100 anos de UFRJ nos colocou em outro patamar. Hoje nós temos mais mulheres do que homens na administração central. Mas apenas quatro mulheres negras. Temos que ter mais equidade. Acho que não tem mais como invisibilizar o gênero feminino dentro da universidade, mas a gente precisa de representatividade de todos os segmentos. Representatividade trans, homossexual, de mulheres negras, de quilombolas e de indígenas”.

Denise acredita que a SGAADA terá um papel fundamental nessa virada de chave. “O movimento que a SGAADA vem fazendo é para ampliar a discussão sobre o racismo na universidade e na sociedade. Avançamos muito com as políticas públicas de inclusão e hoje temos um perfil étnico-racial mais abrangente, pelo menos entre o corpo discente. Mas precisamos caminhar muito em relação aos servidores. Acho que a UFRJ tem que pensar com celeridade em transformar essa superintendência em uma pró-reitoria, e nem precisa estar sob meu comando, porque a gente se aposenta. Nós não cabemos mais numa estrutura de superintendência, temos aí exemplos em várias universidades federais que instituíram pró-reitorias nesse campo”.

WhatsApp Image 2026 03 11 at 20.17.58

Topo